Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga
Nem tudo é lei da vida ou lei da morte. Há limbos onde o homem desconhece Esse dilema hostil. É quando ama, ou sonha, ou faz poemas, E a própria natureza o não domina. Então, livre e perfeito, Paira no tempo como o pó suspenso. Nem do céu, nem da terra, nem sujeito Ao pesadelo de nenhum consenso. miguel torga diário VII 1956
Livre não sou, que nem a própria vida Mo consente. Mas a minha aguerrida Teimosia É quebrar dia a dia Um grilhão da corrente. Livre não sou, mas quero a liberdade. Trago-a dentro de mim como um destino. E vão lá desdizer o sonho do menino Que se afogou e flutua Entre nenúfares de serenidade Depois de ter a lua!  Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
Não. Não tenho limites. Quero de tudo Tudo. O ramo que sacudo Fica varejado. Já nascido em pecado, Todos os meus pecados são mortais. Todos tão naturais À minha condição, Que quando, por excepção, Os não pratico É que me mortifico. Alma perdida Antes de se perder, Sou uma fome incontida De viver. E o que redime a vida É ela não caber Em nenhuma medida. Miguel Torga
Não me perguntes, porque nada sei Da vida, Nem do amor, Nem de Deus, Nem da morte. Vivo, Amo, Acredito sem crer, E morro, antecipadamente Ressuscitando. O resto são palavras Que decorei De tanto as ouvir. E a palavra É o orgulho do silêncio envergonhado. Num tempo de ponteiros, agendado, Sem nada perguntar, Vê, sem tempo, o que vês Acontecer. E na minha mudez Aprende a adivinhar O que de mim não possas entender. Miguel Torga
Hesito no caminho. Ninguém segue este rumo… É noutra direcção Que o vento leva o fumo Das paixões… Chegar, sei que não chego, De nenhuma maneira; Mas queria ao menos ir no lírico sossego De quem não se enganou na estrada verdadeira. E não vou. Cada vez mais sozinho Na solidão, Duvido da certeza dos meus passos. Vejo a sede ancestral da multidão Voltar costas às fontes que pressinto, E fico na mortal indecisão De afirmar ou negar o cego instinto Que me serve de guia e de bordão. miguel torga câmara ardente 1962
Ama quem amas, como o vento Ama as folhas do olmo (Amor que lhes transmite movimento E alegria). Asa que possa andar no firmamento, Só caminha no chão por cobardia. miguel torga nihil sibi 1948
Desejar aplausos em arte é mais uma necessidade do que uma vaidade. É sentir que se é necessário, que nos querem. Não há nada mais esterilizante do que estar o dia inteiro no consultório à espera de doentes que nos passam à porta e vão à consulta do vizinho. Escrever para a posteridade não consola nem estimula ninguém. A legítima oração de todo o artista, quer queiram, quer não, tem de ser esta: dai-nos, Senhor, um pouco de glória em vida. Miguel Torga, in "Diário (1947)