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O futuro pode ser um tempo em que haverá mais humanoides como Sophia, mas o que esse cenário me diz é o mesmo que dizia a Sophia poeta: a nós, seres humanos, cabe-nos ser cada vez mais humanos. Sophia & Sophia Laurinda Alves 10/4/2018, 0:05 https://observador.pt/opiniao/sophia-sophia/ Atravessamos a cidade e damos de caras com a Sophia-robot, em cartazes publicitários de fundo azul que nos interpelam pela combinação de fascínio e temor que nos provocam todos os humanoides. A realidade ultrapassa quase sempre a ficção e, por isso, esta Sophia já vive no nosso imaginário e até nos soa familiar. Todos vimos e ouvimos Sophia na Web Summit ou na net, e mesmo aqueles que, como eu, nunca estiveram na sua presença, nem lhe puderam fazer perguntas ou apertar a mão, paramos para escutar a sua voz e ver a maneira como interage e se desembaraça das perguntas. Sabemos que apenas pode manter conversas simples e só responde a tópicos pré-definidos, mas inconscientemente esperamos que...
O que somos para os outros Texto de Marco Gil • 16/03/2018 http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/25738/o-que-somos-para-os-outros Faço meia dúzia de torradas, meto o café ao lume (mas tem de ser Tofina”) e depois passo a geleia; é a minha avó. Aquele sabor, que será para sempre eterno, é o que me faz lembrar a minha avó. Isso e as mãos dela, a pele fina e macia, mas envelhecida pela história, as veias salientes e o aconchego nas mantas ou a laca no cabelo — ainda sinto o cheiro da laca por cada vez que fecho os olhos. O meu avô é uma malga de pão migado e uma cantiga da Amália, cujo título não me lembro. Ele será sempre aqueles serões largos e quentes onde se via a bola a sério. O meu avô é o assobio que se ouve pela rua toda. E as latas de conserva ao almoço? O meu pai é isso e umas peúgas cinzentas de algodão com quase tanto borboto como tecido, é também Old Spice e uma camisa de flanela só para os domingos. A Ana, que era a vizinha de cima, será para semp...
Berry Brazelton: Esperança, Amor e Fé (1918 – 2018) Ana Teresa Brito 18 Março 2018 https://pontosj.pt/especial/berry-brazelton-esperanca-amor-e-fe-1918-2018/ Conheci Berry Brazelton em 2002, no Encontro Internacional “MAIS CRIANÇA”, organizado pelo Professor Gomes-Pedro, um verdadeiro mestre e maestro da nova Pediatria em Portugal. No Coliseu dos Recreios, em Lisboa, reuniram-se, então, 2500 profissionais das áreas da Saúde, Educação, Justiça, Solidariedade Social, Ciências Humanas, na esteira de um novo saber, saber-fazer e saber-ser que Gomes-Pedro, mais tarde, batizou como “Ciências do Bebé e da Família”. O Professor Maestro trouxe, então, a Portugal os mais conceituados investigadores internacionais, que uniu a grandes investigadores e profissionais lusitanos, na construção e defesa de novos conceitos e práticas em Saúde e Educação. O grande desígnio era o de fundamentar, defender e promover um paradigma relacional de prevenção. Neste Encontro, Berry Brazelton foi luz...
Importa saber estar só Margarida Vaqueiro Lopes 15 Março 2018 https://pontosj.pt/opiniao/importa-saber-estar-so/ 1. Em Portugal, são poucos aqueles que dizem sentir-se sós – um estudo [1] realizado pelo Observatório da Sociedade Portuguesa da Universidade Católica de Lisboa mostrava que, no final de 2016, mais de 70% dos inquiridos não indicava sentir-se só. Os resultados têm sido consistentes ao longo dos anos, embora a amostra reduzida (menos de mil participantes) leve a algumas dúvidas. Por outro lado, o último Inquérito Nacional de Saúde, feito pelo INE em colaboração com o Instituto de Saúde Doutor Ricardo Jorge, e citado no jornal Público, dava conta de que 25,4% da população residente com idade acima dos 15 anos tinha, em 2014, sintomas de depressão. E se é certo que esta última nem sempre é resultado da solidão, a verdade é que há indícios de que essa é, não poucas vezes, uma das suas causas. Há mesmo quem lhe chame “a doença da solidão”. Importa, então, esclarecer...
O verbo enviuvar Laurinda Alves 6/3/2018 http://observador.pt/opiniao/o-verbo-enviuvar/ Há verbos difíceis de conjugar e enviuvar é um deles. Ficar viúva ou viúvo implica sempre uma mudança radical e, fatalmente, uma solidão difícil de acolher. Mesmo quando a morte é anunciada e houve tempo para despedidas, reconciliações ou re-uniões em família (há mulheres e homens que esperam pela chegada de filhos e parentes para partirem em paz, e é sempre muito impressionante assistir a essas derradeiras re-uniões da família), dizia que mesmo quando existe este compasso de espera, a perda implica sempre um enorme vazio, uma profunda tristeza e alguma desordem interior. Vejo isso com muita nitidez, em casa. O meu pai morreu há um ano, exactamente neste dia 6 de Março. Saiu de casa para dar as suas voltas e ir à biblioteca, como fazia todos os dias, mas caiu fulminado no passeio antes de chegar à esquina da nossa rua. Foi-nos dito que teve a morte de um bem-aventurado por não ter sofrido absolut...
Laurinda Alves 27/2/2018 http://observador.pt/opiniao/um-amigo/ Um amigo, dois amigos, três amigos, quantos amigos estaremos destinados a perder ao longo da vida? E quem, entre nós, estará preparado para tão terrível perda? Não há idade certa para nada e, muito menos, para morrer, mas dói quando partem cedo. E partem sempre cedo demais. Nunca haveremos de perceber porque é que os bons nos morrem tão depressa. São realmente indecifráveis e grandes os mistérios da vida. Sabemos apenas que a morte prematura ou inesperada é, para sempre, um rasgão no coração. Novos ou velhos, os amigos que partem deixam-nos um vazio impossível de voltar a preencher. Podemos ter mais, tão bons como eles, e podemos até vir a conhecer outros igualmente queridos, mas cada um é especial. Único e irrepetível. Por isso a despedida nos custa tanto. Quebra-nos. Atravessa todo o nosso mundo interior e trespassa-nos como uma lança fria. Gela-nos. Mais tarde ou mais cedo todos passaremos por isto e todos nos da...
Da maneira cristã de lidar com a diferença Rui Fernandes, sj 23 Fevereiro 2018 https://pontosj.pt/opiniao/da-maneira-crista-lidar-diferenca/ Nos últimos meses têm sido frequentes as notícias sobre grupos de católicos que se mobilizam para discutir e criticar certas questões, como a dos cristãos «recasados» e o seu acesso à comunhão, ou ainda sobre a reforma da liturgia. As interrogações são legítimas, e todo o debate sério, ainda que exigente e com o seu quê de ‘desconfortável’, é sempre bem-vindo. Implicitamente, estas questões parecem apontar para um problema mais silencioso, mas fundamental. Não estará a Igreja a «adaptar-se» demasiado às «modas contemporâneas»? Estaremos a perder o rumo? A ideia de ‘perder o rumo’ significa, desde logo, um receio de perda de «identidade». Adaptando-se excessivamente, a Igreja corre o risco de deixar de ser quem é e de perder a sua «diferença» face a tudo o que não é cristão. Desde os começos, a Igreja tem-se posto a questão: o que signific...
Ver o meu romance, "o nosso reino", reduzido a duas frases, e por duas frases julgado, é sintomático do tempo de sentenças sumárias em que vivemos. Opinar passou a ser uma espécie de chelique imediato em que a maioria dos opinantes não sabe o que está em causa; não sabe, por isso, o que está a dizer. "o nosso reino" é a narrativa de uma criança de oito anos, de profunda candura, que ausculta a figura de deus numa tristeza grande pelos infortúnios da vida. Entre os assuntos que magoam esta criança estão as terríveis palavras que lhe dizem sobre a tia e, mais tarde, sobre um tio que chega de França. Essas duas passagens, no cômputo do livro inteiro, estão como punhais no peito puro da criança, e quem lê o livro não se choca com as palavras, choca-se com a tristeza e o desamparo de que se fala. Nos meus livros é-me comum abordar o abandono a que somos votados. Sou, desde sempre, impressionado pela solidão e "o nosso reino" é um retrato de uma solidão esp...
Quando se está de luto, por norma, pouco ou nada apetece fazer. Eu não gosto de ter comiseração por mim própria, pelo que entendi que devia tentar sair do casulo e fazer algo que me pusesse a "girar". A decisão foi a de ir com amigos ver o Silêncio, filme de que de que me tinham dado muito boas referências. Como costumo fazer a minha escolha pelos realizadores, o deste, Martin Scorcese, era, para mim garantia suficiente. Pois bem, não aconteceu bem assim. É claro que se trata de um filme importante, com grande qualidade cinematográfica e que se ocupa de um tema - as atrocidades cometidas contra os missionários que foram evangelizar o Japão no século XVI - que interessa aos católicos e a todos os que se preocupam com determinados valores. Mas o conteúdo desiludiu-me um pouco, porque Scorcese parece filiar-se naqueles que só vêm no cristianismo uma rota de dor para alcançar Deus.  Ora eu ando a pregar, há muito, que o meu Deus é dor e sofrimento, mas é também alegria e pra...

Medalhas da solidão

Público  27 de Janeiro de 2017, 6:43 Opinião Um menino de 8 anos mostra-me o quarto. Está cheio de brinquedos. Por cima da porta, quase escondidos, vejo dezenas de círculos de papel, todos escritos com letras maiúsculas, em vermelho. "O que é isto?" O menino encolhe os ombros, impaciente para irmos jogar futebol: "Isso não é nada..." Sigo caminho mas mais tarde volto lá para ler o que dizem. Um diz "Por tomar banho sozinho". Outro "Por lavar os dentes sozinho M. e noite". Logo abaixo "Dormir sozinho". Depois "Vestir-se sozinho", "Medalha arrumar os brinquedos sozinho" e "Comer sozinho com faca". A única medalha que não menciona a palavra "sozinho" dá-lhe os parabéns por "pôr a louça na máquina". Compreendi logo porque é que ele encolheu os ombros. São pouco comemorativas estas falsas medalhas, escritas com caneta de feltro e cheias de apressadas abreviaturas. São de c...