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Mensagens

Por Miguel Esteves Cardoso A pescada é a mesma. Metade dela é cozida com todos, a outra é cortada em postas finas para fritar. É esse o nosso almoço, uma feliz intransigência matrimonial: o contrário do que se passa entre a Coreia do Norte e a do Sul. Um não come peixe e o outro não come carne. Ambos comem peixe. O mesmo peixe: uma única pescada. Aqui é que é mutuamente consentida e regozijada uma divergência fundamental. A Maria João come a cabeça cozida. Eu como o rabo frito. À noite ambos comemos uma salada do que restou da pescada. O coração é o mesmo: bróculos, tomate, feijão frade, com o mesmo tempero de azeite e vinagre. A diferença é que a salada dela é feita com a pescada cozida e a minha com a pescada frita. Sim, são saladas diferentes. Suficientemente diferentes. Ninguém é obrigado a comer o que o outro come. Mas também são parecidas. Suficientemente parecidas. É este um segredo de um bom casamento. Tem sorte o casal em que um prefere as pernas do frango e o ou...
Em 1999, uma imagem do “Ecce Homo”, o Cristo nu, foi colocada num pedestal em Trafalgar Square, em Londres. Era a de um jovem delgado, que parecia imensamente vulnerável. Ao contrário de todas as outras estátuas, dos grandes e dos bons à sua volta, e mesmo dos leões, era apenas do nosso tamanho. Conta-se que um transeunte terá dito: “Se isto é Jesus Cristo, é um milagre do caneco. Não se podia ter fé em alguém como aquilo, é fraco como um gatinho”. Os iconoclastas tinham razão em se preocupar. É escandaloso mostrar a face nua de Deus. Timothy Radcliffe, "Ser Cristão para quê?" (ed. Paulinas), pág. 100
Um dia, o rei Luís IX, S. Luís de França, visitou as obras da catedral de Chartres, em reconstrução depois do seu incêndio em 1194, causado por um raio. O rei, passeando pela construção, ia perguntando a cada um o que estava a fazer. As respostas foram várias. Um carpinteiro afirmou-lhe que estava a fazer um dos bancos da nave central; um pedreiro lamentou-se que estava a trabalhar para ganhar a vida e dar de comer aos filhos; um escultor, apontando para um capitel, a que dava os últimos retoques, explicou que estava a seguir as novas regras da arte gótica, criando uma linha decorativa revolucionária. Depois de perguntar a muita gente e de ter recebido respostas variadas, o rei encontrou, num canto escuro, um velhinho curvado que varria aparas de madeira. Quando o rei lhe perguntou o que estava a fazer, o velho respondeu: "Estou a construir uma catedral". João César das Neves, Introdução à Ética Empresarial
- O facto de tu seres tu não significa que eu não te inventei. - Eu também existo. - Também. Também existes e eu também te inventei. «Também» é uma boa palavra a lembrar.   Tu também não existes como tu sozinha. Philip Roth
Sou de um tempo em que o que éramos era medido pelo que fazíamos. Hoje o que somos é medido pelo espectáculo que fazemos de nós mesmos, pelo modo como nos colocamos na montra. Mia Couto