Por Miguel Esteves Cardoso A pescada é a mesma. Metade dela é cozida com todos, a outra é cortada em postas finas para fritar. É esse o nosso almoço, uma feliz intransigência matrimonial: o contrário do que se passa entre a Coreia do Norte e a do Sul. Um não come peixe e o outro não come carne. Ambos comem peixe. O mesmo peixe: uma única pescada. Aqui é que é mutuamente consentida e regozijada uma divergência fundamental. A Maria João come a cabeça cozida. Eu como o rabo frito. À noite ambos comemos uma salada do que restou da pescada. O coração é o mesmo: bróculos, tomate, feijão frade, com o mesmo tempero de azeite e vinagre. A diferença é que a salada dela é feita com a pescada cozida e a minha com a pescada frita. Sim, são saladas diferentes. Suficientemente diferentes. Ninguém é obrigado a comer o que o outro come. Mas também são parecidas. Suficientemente parecidas. É este um segredo de um bom casamento. Tem sorte o casal em que um prefere as pernas do frango e o ou...
Há três espécies de homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar. (Platão)