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Estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato.

Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói.

Temos o choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas a vagas.

Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos.

Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem.

Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato.

Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento a ver se ainda nos doem, e doem sempre.

Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas.


NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).

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