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Solidão, de si, significa isolamento. E pode estar-se isolado sem experimentar a soledade. Soledade, sim, abarca o conjunto de sentimentos e vivências apontadas: o sem ninguém.(...)
A soledade escolhida ou aceite, transforma a solidão. A soledade pode ser positiva enquanto se desliga para se ligar de outro modo. Pode ser bem vivida. A soledade é, também, "soidade" (forma antiga)..., e daí virá nossa palavra "saudade". E a saudade é o ligado desligado. É por estar ligado, não-só, que se experimenta a saudade. Mas é como se a ligação nunca bastasse: estranha condição humana! Aliás, quando dizemos que a pessoa é naturalmente religiosa, estamos a dizer que o seu modo de ser é de se "re-ligar": vive pela "re-ligação", ou seja a "re-ligião" a outro.

O OLHAR E O VER,
À procura do lado construtivo da vida e do por dentro de todas as coisas.
Pe. Vasco Pinto de Magalhães, sj

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Eis-me

Eis-me Tendo-me despido de todos os meus mantos Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses Para ficar sozinha ante o silêncio Ante o silêncio e o esplendor da tua face Mas tu és de todos os ausentes o ausente Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca O meu coração desce as escadas do tempo [em que não moras E o teu encontro São planícies e planícies de silêncio Escura é a noite Escura e transparente Mas o teu rosto está para além do tempo opaco E eu não habito os jardins do teu silêncio Porque tu és de todos os ausentes o ausente Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'