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nada é tão meu quanto o desejo de voltar
Não: devagar. Devagar, porque não sei Onde quero ir. Há entre mim e os meus passos Uma divergência instintiva. Há entre quem sou e estou Uma diferença de verbo Que corresponde à realidade. Devagar... Sim, devagar... Quero pensar no que quer dizer Este devagar... Talvez o mundo exterior tenha pressa demais. Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo. TaIvez a impressão dos momentos seja muito próxima... Talvez isso tudo... Mas o que me preocupa é esta palavra devagar... O que é que tem que ser devagar? Se calhar é o universo... A verdade manda Deus que se diga. Mas ouviu alguém isso a Deus? Álvaro de Campos

Por quem os sinos choram?

Os sinos choram pelos que souberam viver e pelos que desperdiçaram a vida a pensar que não morreriam. . Choram pelos que acreditaram na vida eterna e pelos que acreditaram que a vida é só um momento. . Os sinos choram pelos que tiveram, e foram, uma família e por todos os que passaram a vida à procura de ter uma, onde pudessem ser.  . Choram pelos que, desde o berço ao túmulo, sempre se levantaram e pelos que se arrastaram pelas horas dos seus dias e das suas noites. . Os sinos choram no outono e na primavera, quando as folhas caem e quando as flores se abrem à luz. . Choram por aqueles de quem sentiremos saudade e por aqueles que não deixaram marcas no coração de ninguém. . Os sinos choram e chamam-nos. Fazem estremecer os nossos silêncios e apontam-nos para a verdade. . Choram pelos que amaram e pelos que nunca foram amados. Pelos que triunfaram e pelos que foram esmagados. . Os sinos choram nas brisas suaves que trazem farrapos de memória dos qu...
Mudbound Grande Filme!
História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens. Agora, quando desembrulho minhas lembranças eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo. Porque enquanto me descubro, eu mesmo me anoiteço, fosse haver coisas só visíveis em plena cegueira. Cada homem é uma raça Mia Couto

Toda a vida é procura

A narrativa do Evangelho João 1, 35-42 aponta as características essenciais do itinerário de fé dos discípulos de todos os tempos, inclusive para nós, a partir da pergunta que Jesus dirige aos dois que, impelidos por João Batista, se põem a segui-lo: «Que procurais?». É a mesma pergunta que, na manhã de Páscoa, o Ressuscitado dirigirá a Maria Madalena: «Mulher, quem procuras?». Cada um de nós, enquanto ser humano, está à procura: à procura de felicidade, de amor, de vida boa e plena. Deus Pai deu-nos tudo isto no seu Filho Jesus. Nesta procura é fundamental o papel de uma verdadeira testemunha, de uma pessoa que antes fez o caminho e encontrou o Senhor. No Evangelho, João Batista é esta testemunha. Por isso pode orientar os discípulos para Jesus, que os envolve numa nova experiência dizendo: «Vinde e vereis». E aqueles dois nunca mais poderão esquecer a beleza daquele encontro, ao ponto de o evangelista anotar até a hora: «Eram cerca das quatro da tarde». Só um encontro pe...
Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda? Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas. Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória. Com que palavras ou beijos ou lágrimas se acordam os mortos sem os ferir, sem os trazer a esta espuma negra onde corpos e corpos se repetem, parcimoniosamente, no meio de sombras? Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura, sentada, olhando as rosas, e tão alheia que nem dás por mim. Eugénio de Andrade