Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de 2014

Sorriso inconfundível

Lisa Spitzhutl
Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.
Carlos Drummond de Andrade

Eu, velhota ;-)

Imagina

Imagina la oscuridad.
El horror dispara sus minutos a la velocidad de la metralla.
Las sirenas crecen como aullidos de chacales,
los gemidos retumban entre los escombros, clavan sus esquirlas.
Imagina tus lágrimas como bayonetas,
desahuciadas de todo consuelo, de toda piedad.
Refugios rebosando de miedo, temblando de miedo
mientras los cadáveres elevan sus montañas,
mientras los bombarderos gotean constelaciones en las aceras.
Imagina el aire entrándote, invadiéndote de muerte.
Se pulverizan árboles y bibliotecas;
se desgarran cuerpos y muros,
se mutilan recuerdos y palabras;
se siembran minas, terrores y esqueletos de pájaros.
Imagina la orfandad de las cosas. El llanto de las cosas.
Imagina cómo los héroes se envuelven en capas escarlatas.
Cómo los verdugos despliegan alfombras escarlatas.
Cómo las víctimas se ahogan en manantiales escarlatas.
Y cómo el espanto, la venganza y el odio
ganan batallas en tu corazón sobrecogido.
Estás en medio del recinto inexpugnable del pánico.
Y eres tú quien orquesta lo…

As casas morrem

Las casas mueren cuando se vuelven árboles,
cuando una mancha vegetal las recubre
y convierte en jardines verticales.

De sus ventanas brotan raíces
que rozan el filo de las nubes.

La casa muere con el verano en la garganta.

Hubo luz, un tiempo, en esa casa.
Hubo vidrios limpios que acogían una
mano temerosa de que el viento los quebrara.
Hubo niños oliendo a pinos y olivares
y una puerta grande donde entraba
todo el pasado y su memoria.

Los muertos regresan a la casa,
hablan una lengua incomprensible y
levantan el polvo acumulado de los años.

Puede que aquí el tiempo se detenga
y sólo exista el instante en que la casa
se torna un paisaje fugitivo.

Todo se mueve en su cuerpo de piedra,
hasta la hoja más pequeña que se asoma
a la intemperie y se abandona.

No hay dónde agarrarse
para seguir de pie ante la casa;
para no caer delante de sus ruinas
y volverse una planta más que la recorre.

No se puede mirar tanto pasado
sin perder la lengua
en el hueco vertical de sus paredes.

No se puede mirar en ese quiebre
sin pensa…

Estou nas tuas mãos

Tu que estás por cima de nós,  Tu que és um de nós,  Tu que és – também em nós,  faz com que todos te vejam – também em mim,  que eu te prepare o caminho,  que te agradeça tudo o que aí me acontecer.  Que, com isso, não esqueça a miséria alheia.  Guarda-me no teu amor  tal como queres que o próximo esteja no meu.  Que tudo o que forma parte do meu ser se entregue à tua glória  e que nunca desespere.  Pois estou nas tuas mãos,  E em ti residem toda a força e vontade.
Concede-me um coração puro – para ver-te,  um espírito humilde – para escutar-te,  um espírito de amor – para servir-te,
 um espírito de fé – para permanecer em ti.
Dag Hammarskjöld

Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre.

(Não concordo com tudo, tudinho, mas...)

Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso. A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito…

Que ninguém tenha dúvidas

Espiritualidade deve ser escola da compaixão

«Quando uma palavra desaparece do léxico de uma época pode pensar-se que ela deixou de ser significativa ou se tornou desnecessária. Não é o caso da palavra compaixão, mesmo se o seu uso perdeu, entre nós, insistência e centralidade», considera José Tolentino Mendonça.
Em texto publicado hoje na coluna que assina semanalmente no semanário "Expresso", o vice-reitor da Universidade Católica considera que o sofrimento suscita a rejeição, que se traduz em duas reações: fugir ou fingir.
Derivando do latim "cum-passio", "sofrer com o outro", a compaixão contribui para resgatar um «isolamento que pode atingir proporções inomináveis».
«A resistência à compaixão» pode ser interpretada «como um sintoma»: «Muitas vezes é uma atitude de defesa face à vulnerabilidade com a qual deixamos de saber lidar. Os modelos propalados vão todos noutra linha: sucesso, bem-estar, saúde, competitividade», aponta.
Para o biblista, a compaixão, resposta a um «grito» que chega «frequ…

Menino Deus

Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.

Miguel Torga
"Each one of them is Jesus in disguise"  Madre Teresa de Calcutá

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.


Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira

Sainsbury's OFFICIAL Christmas 2014 Ad

Natal: A história recomeça dos últimos

No Natal não celebramos uma recordação, mas uma profecia. O Natal não é uma festa sentimental, mas o juízo sobre o mundo e o novo ordenamento de todas as coisas. Naquela noite, o sentido da história tomou outra direção: Deus para o homem, o grande para o pequeno, do alto para baixo, de uma cidade para uma gruta, do templo para um campo de pastores. A história recomeça dos últimos. Enquanto que em Roma se decidem as sortes do mundo, enquanto as legiões mantêm a paz com a espada, neste mecanismo perfeitamente oleado cai um grão de areia: nasce uma criança, suficiente para mudar a direção da história. A nova capital do mundo é Belém. Ali Maria dá à luz o seu filho primogénito, envolve-o em faixas e depõe-no numa manjedoura... no comedouro dos animais, que Maria, na sua necessidade, lê como um berço. O estábulo e a manjedoura são um "não" aos modelos mundanos, um "não" à fome de poder, um "não" ao que está estabelecido. Deus entra no mundo do ponto mais baix…

Silence

For me, the two correctives of all spirituality are silence and service. If either of those is missing, it is not true, healthy spirituality. Without silence, we do not really experience our experiences. We may serve others and have many experiences, but without silence, nothing has the power to change us, to awaken us, to give us that joy that the world cannot give, as Jesus says (John 16:22). And without clear acts of free service (needing no payback of any sort, even “heaven”), a person’s spiritual authenticity can and should be called into question. Divine Love always needs to and must overflow! To live in this primordial, foundational being itself, which I am calling silence, creates a kind of sympathetic resonance with what is right in front of us. Without it, we just react instead of respond. Without some degree of silence, we are never living, never tasting, as there is not much capacity to enjoy, appreciate, or taste the moment as it purely is. The opposite of contemplation …
All grace comes precisely from nowhere—from silence and emptiness, if you prefer—which is what makes it grace. It is both you and yet so much greater than you at the same time, which is probably why believers chose both uprushing fountains (John 7:38) and downrushing doves (Matthew 3:16) as metaphors for this universal and grounding experience of spiritual encounter. Sometimes it is an uprush and sometimes it is a downrush, but it is always from a silence that is larger than you, surrounds you, and finally names the deeper truth of the full moment that is you. I call such a way of knowing the contemplative way of knowing, as did much of the older tradition. (The word “prayer” has been so consistently trivialized to refer to something you do, instead of something that is done to you, with you, in you, and as you.) Then, like Mary, you are ready to give birth. You are ready for Christmas.

http://myemail.constantcontact.com/Richard-Rohr-s-Meditation--Silence-and-Grace.html?soid=1103098668…

Ficou vazio o teu lugar à mesa

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos

que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.

E, desde então, as nossas feridas têm a espessura

do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas

a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete

continua engelhado, como à tua ida.

Provavelmente fiará assim para sempre.



No outro Natal, quando a casa se encheu por causa

das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,

não cheguei a saber

se era para tornar a festa menos dolorosa,

se para voltar a sentir o quente do teu colo.



MR Pedreira

Damien Rice - Delicate (Live in Dublin)

So why do you fill my sorrow With the words you've borrowed From the only place you've known And why do you sing Hallelujah If it means nothing to you Why do you sing with me at all?

Anúncio na periferia

P. Vitor Gonçalves

"O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré…” Lc 1, 26




Quando pensamos em periferias referimo-nos àquilo que está afastado do centro, distante do mais importante e decisivo, dos lugares de destaque e de poder. E, normalmente, estamos aí nós, pois cada um tem também as suas periferias: os lugares, pessoas, e realidades a que damos menos importância. Creio que em Deus não há periferias pois onde está a vida e onde estão as pessoas, Ele está. E, talvez por isso, tenha um particular gosto em surpreender-nos nas suas escolhas: Abraão era tão periférico sem terra nem descendência, Moisés tão gago e tão “queimado” entre os seus, David tão novo que quase é esquecido pelo pai, e assim por diante, na lista de surpresas de Deus! Assim, para a vinda do Messias, iria Deus subjugar-se ao poder religioso e político de Jerusalém, assente numa religião “perfeita” e perita em excluir e desprezar as periferias dos que não a conseguiam cumprir?  “…

Rezo por ti, Gustavo! E por todos os médicos, que sem fronteiras, servem e dão a vida por quem mais precisa.

De volta ao Afeganistão…..fecho os olhos e regresso ao Afeganistão...ou talvez um bocado antes....à Partida, à preparação, literalmente para a Guerra.
Neste momento tenho imensa vontade de escrever, fico na dúvida se tenho vontade de ser lido (que é sempre um ânimo), ou se simplesmente preciso de escrever e reviver vivências que são tão importantes para mim....
É difícil de explicar, sendo muito honesto comigo e com a minha escrita, encontro verdades diferentes, ou se calhar uma verdade que se complementa.....na tentativa de (me) explicar o porquê de ir para um cenário de guerra....outra vez....a 3a vez!
É tão egoísta! É tão egoísta esta vontade de ir....vontade de viajar, vontade de conhecer, vontade de compreender o mundo, vontade de ver a história com os meus próprios olhos, vontade de incandescer a minha vida, vontade de sentir o coração a bater mais forte, vontade de sentir o medo outra vez, vontade de me desafiar, vontade de orgulhar os que gostam de mim, vontade de gostar de mim, …

Tree of life

(Algures)
“[…] assim é que a vida deve ser, quando um desanima, o outro agarra-se às próprias tripas e faz delas coração.”

- José Saramago, no livro “A caverna”. Lisboa, Portugal: Editorial Caminho, 2000

Vai sem medo

Vai sem medo
é de novo o começo
que outra vez acontece
o horizonte escurece
faz-se um grande sossego,
Não faz mal, vai sem medo
Não há preto nem branco
Nem há ninguém por perto
Que te possa ajudar
Vai depressa
E parte à descoberta
Porque a noite aparece
Nem há sombras no chão
E é tão grande o segredo
Não faz mal, vai sem medo
Não há preto nem branco
Nem há ninguém por perto
Que te possa guiar
Pensa grande
Num futuro distante
Em que possas mudar
Teu amor encontrar
Num caminho incerto
Não faz mal, vai sem medo
Não há preto nem branco
Nem há ninguém por perto
Só quem vais encontrar
Não faz mal, vai sem medo
Não há preto nem branco
Nem há ninguém por perto
Só quem vais encontrar

«Queres saber o que rezo nas orações?/ troncos secos, gravetos/ cercas e barro vermelho»

O riacho incansável/ através do matagal/ o monge segue-o assobiando
Muitas vezes encontramos na nossa vida coisas, pessoas, situações, acontecimentos que são um riacho que desconhecemos onde termina. Passam por nós e continuam a sua viagem.
Com que sabedoria olharemos para esse riacho? É fazendo o seu caminho assobiando, isto é, sem pressas, sem pretensões, sem querer explicar, mas saborear o momento.
Como um pequeno pastor com um fio de erva nos lábios que vai vivendo o tempo, nós precisamos dessa distensão interior.
A confiança é uma forma de distensão, de calar em nós o medo, a voracidade, as interrogações que nos ensurdecem. Calar, calar, calar dentro de nós a confusão das vozes para reaprender o fio da confiança.
Há quanto tempo nós não caminhamos pela rua assobiando? Ou há quanto tempo não seguimos os riachos com um fio de erva nos lábios, sem mais, sem porquê, acreditando no valor das etapas da vida que não conduzem a lado nenhum?
Há caminhos na floresta que não conduzem a nen…

Tenho dias em que SAUDADE é o meu nome do meio

Pati

Surpresa do não anunciado

"A alegria é um dom que me visita na surpresa do não anunciado. E nesse sentido tenho de viver em hospitalidade. O meu coração é uma soleira, uma porta entreaberta. A minha vida vive do acolhimento amigável. Temos de adquirir uma porosidade, deixarmo-nos tocar, deixarmo-nos ligar pelo fluxo reparador da vida.
Em vez de crescermos na severidade, na intransigência, na indiferença, no sarcasmo, na maledicência, no lamento, caminhemos suavemente no sentido contrário, cresçamos na simplicidade, na gratidão, no despojamento e na confiança".
José Tolentino Mendonça, in "Cultivar a alegria de cada dia"
Pus de parte a modéstia e o pudor
e fui contando à Vida
tudo que tinha sido a minha vida.
Não ocultei sequer um pormenor.


Ora foi depois desta confissão
que ela se me deu nua, sem disfarces,
como se eu fora o seu primeiro homem…




sebastião da gama
cabo da boa esperança
ed. ática
1959

Vem, tal como és

(...)

And if all that you are
Is not all you desire,
Then, come…



Come, let yourself be wrong
Come, it's already begun



Come, come alone
Come with fear, come with love
Come however you are
Just come, come alone
Come with friends, come with foes
Come however you are
Just come, come alone
Come with me, then let go
Come however you are
Just come, come alone
Come so carefully closed
Come however you are
Just come…



Come, come along
Come with sorrows and songs
Come however you are
Just come, come along
Come, let yourself be wrong
Come however you are
Just come…
Senhor, por vezes, a nossa oração é apenas a necessidade da tua mão, a absoluta necessidade de sentir a tua mão funda, capaz de nos acolher tal qual somos dentro do seu silêncio; é apenas o desejo de sentir o roçar, mesmo que leve, da tua imensidão no precipitado e no precário das nossas quotidianas rotas; é apenas a necessidade de reconhecer que Tu recebes esta espécie de fome e de desejo, esta espécie de noite e de grito, de mistério e de prece.

José Tolentino Mendonça Capela do Rato, Lisboa

“A sua lembrança me esperasse ao caminho”...

Ía começar a reler os “Contos”, de Vergílio Ferreira. Então apanhei este primeiro parágrafo do primeiro conto (“Adeus”), e fiquei ali, preso ao génio e à perfeição. Às palavras todas ditas sem falta nem excesso. Vejam só:
“Não lhe pedi que viesse. Pedi-lhe só que às dez da noite, e pela última vez, a sua lembrança me esperasse ao caminho. Cheguei cedo e sentei-me. Quando soasse a hora, eu queria senti-la ao pé de mim, não bem no seu corpo, não bem nas suas palavras, mas apenas naquele sossego azul que tornava o mundo perfeito. No momento combinado, eu havia de respirar o sonho de quando não sabia que era sonho”.
"Sossego azul"? Depois de ler isto, dei por encerrada a noite de leitura. Não faltava já nada.

http://pedroroloduarte.blogs.sapo.pt/a-sua-lembranca-me-esperasse-ao-394246

O quarto Rei Mago

Como toda a gente sabe, os três reis magos ofereceram presentes ao Menino Jesus: ouro, incenso e mirra. Nossa Senhora e S. José agradeceram. Mas o Menino piscou os olhos com o brilho do ouro, começou a tossir com o cheiro do incenso; e não achou graça nenhuma à mirra. Os três reis, que se tinham ajoelhado, levantaram-se e foram-se embora pouco satisfeitos, porque o Menino os não tinha tratado com a consideração a que achavam que tinham direito.
Já eles iam longe, quando apareceu o quarto rei. Este rei vinha do Golfo Pérsico. No dia em que tinha visto a estrela que anunciava o nascimento do Messias, dispôs-se logo a partir. Foi à câmara subterrânea onde guardava os seus tesouros, abriu um cofre e retirou aquilo que tinha de mais valioso, três pérolas muito grandes e muito brancas. Mandou ajaezar o seu camelo mais forte e partiu na direcção da estrela.
Alguns dias depois, viu o presépio, mesmo por debaixo da estrela. O pior é que chegava atrasado, os reis seus colegas até já se tinham …