Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2016

Estrelas

Podiam dar-nos a manhã que não acaba,
um sol branco feito de madrugada,
um céu de linho que a morte assombra,
o fogo frio num arauto em cinza.

Podiam cair os nevões de Janeiro,
as frases corridas de uma tarde chuva,
o relâmpago que não ficou à espera,
e o incêndio no enxame das florestas.

Podia pensar com a febre de quem está só,
pensar que não é preciso apenas pensar,
e pensar sem ter em que pensar,
ou pensar que um pensamento não vem só.

Podia ver a linha no fim do mar,
os barcos que dali nunca saíram,
o mastro que os temporais quebraram,
e as estrelas que o marinheiro procurou.

Mas tenho a vida nas mãos vazias,
passo-as por água para limpar a vida,
e a vida não me sai da palma da mão,
a vida fica sem nunca lá ter estado.

E quando me pegas na mão que te dou
descobres que não há vazio sem vida,
e tiras do vazio a vida que lá está
para que a vida saia de dentro do vazio.

Como se a vida tivesse algum peso,
e a pudesse dar na linha desta mão,
ponho a mão na mão que me dás
para que as vidas se troquem numa linha.

E…

Por todos aqueles que se dirigiam à vida

Por todos aqueles que se dirigiam à vida, que só esperavam vida

e que, sem saber, caíram desamparados no abismo opaco da morte;

por todos aqueles que acordavam de manhã, que se alimentavam

de ilusão, invencíveis perante a sua teimosia inocente, e que, na

dobra de um instante, desprotegidos da solidão, acordados a meio

de um sonho, caíram desamparados no abismo opaco da morte;

por todos aqueles olhares que refletiam a luz do dia, montras de

segredos, rostos que lembraremos com um sorriso brando e que,

sem motivo, caíram desamparados no abismo opaco da morte;

estas palavras frágeis e inúteis, este tempo breve e insuficiente.

Existiram como nós, foram gente como nós, sentiram como nós.

Por todas as palavras que disseram, pela forma humana como as

pronunciaram, pela memória incandescente da sua voz, pelo seu

tempo de pessoas, estas palavras incapazes, este tempo incapaz

e o caminho x ou y que escolhemos para segui-los.





José Luís Peixoto, inédito

O Captain! My Captain!

O Captain! My Captain!
O Payet varreu a perna ao Ronaldo e pô-lo fora do jogo e da final que perseguia há uma vida, que ele sentia que ia ganhar, desse por onde desse, a jogar bonito ou a jogar feio, com mais ou menos asneiradas. Isso pouco lhe importava - o caneco era dele. E essa fé estava na cara e no discurso e nos sorrisos do Ronaldo, porque há coisas que não se explicam e a fé é uma delas. Mas depois também há as outras coisas, que se diz que acontecem e às quais se chamam azares ou injustiças e o desporto está cheio delas e já as vimos antes, mas talvez nenhuma seja tão tocante como esta.
Porque esta expôs a vulnerabildiade de um tipo que tomamos por indestrutível e que se revelou impotente para travar o músculo que rodou sobre si mesmo, num ângulo impossível, e o fez cair estatelado no chão. Chorou.
Naquele minuto, Portugal, a equipa menos favorita a chegar a uma final na última década, perdeu o seu melhor jogador, o seu capitão, o líder que tinha aprendido a ser líder e a jog…

Sonho

Creio nos anjos que andam pelo mundo

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
.
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
.
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
.
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.
.


Natália Correia
in "Sonetos Românticos"
Não sei quem escreveu, mas se se chamasse Patrícia não surpreenderia. 

Sobre o nada eu tenho profundidades.

A poesia está guardada nas palavras - é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a reladidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossa).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.



Manoel de Barros