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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2014

Não me detenhas.

João Sarmento, sj

Que Senhor!

A reter: Porque os meus amigos não são aqueles para quem fui tudo até ao momento em que passei a ser nada, não são aqueles que me abandonaram quando deixei de lhes ser útil, os meus amigos não são aqueles com quem partilhei segredos e que, anos mais tarde, quando nos cruzamos por acaso, nem sei se hei-de cumprimentá-los.

José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO
16:34 Segunda feira, 28 de Abril de 2014


Dou pouca conveniência aos meus amigos.
Não escrevo prefácios. Por telefone, por email ou ao vivo, começam a elogiar-me. Com os anos, fui-me acostumando e identifico a situação logo nessa fase. Então, enquanto espero que terminem, vou ensaiando a resposta na cabeça. Por fim, quando me fazem o convite para lhes prefaciar o seu novo livro, que pode ser uma antologia de contos, poemas ou crónicas, um romance ou um ensaio sobre o século XVII, já tenho as minhas razões prontas e começo a enumerá-las. Quase como se estivesse a escrever um desses prefácios, escolho palavras que não choquem…

Em memória de Vasco Graça Moura

O que é um poeta na terra? É alguém que ensina a ver.
(...)

Claro que a matéria de trabalho de um poeta é a palavra. Mas a palavra não é só palavra: é sede, é desejo de comunicar, é mergulho na realidade para a compreender melhor, é a sabedoria de perceber que o visível é também um signo do invisível e que não se pode separar o audível do inaudível, a palavra do silêncio.

José Tolentino Mendonça

http://www.snpcultura.org/em_memoria_de_vasco_graca_moura.html

Onde o tempo naufraga sem lembrança

Bebedor de luas me embriago,
negro no fundo negro das vielas
e me dissolvo, sem passo, no abismo
onde o tempo naufraga sem lembrança.


(...)


Todas as luas ficaram por nascer
sedentas dos olhos que são teus.

Depois volto a beber
o luminoso veneno em que escureço
e o dia regressa,
mendigo e magro,
buscando em mim
lembrança de um amor
que de tanto ser
não saberá nunca ter lembrança.

Mia Couto

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, in ANTOLOGIA POÉTICA  (José Olympio, 12a ed., Rio de Janeiro, 1978)

Estamos todos em caminho.

Sempre achei que há um ponto comum nos crentes e nos descrentes. Ponto esse que (no caso de ser o único) é o suficiente para o encontro. Estamos todos em caminho.
Nuno Branco, sj
http://cadernosviagens.files.wordpress.com/2014/04/perigranacao-k_0004.jpg?w=500&h=344

Hoje (ainda) em Taizé.

"Fecha os olhos e abandona-te."

Às vezes, parece-me que conheço demasiados caminhos.

Um dia, vou cansar-me de querer conhecer o mundo. Nessa altura, talvez me pareça estranho que alguém saia de casa, deixe o morninho, para discutir preços com taxistas ou olhar para ementas de restaurantes onde não percebe uma única palavra.

Às vezes, parece-me que conheço demasiados caminhos. Para ir a certos lugares, não tenho de pensar. Entro no carro e a minha cabeça ocupa-se de qualquer assunto que, naquele momento me pareça importante. Conheço tão bem esses caminhos que quase me surpreendo quando chego ao destino. Às vezes, quero ir a lugares ligeiramente diferentes, distraio-me por um momento e, quando reparo, já estou a fazer esses caminhos de novo. O hábito enganou-me. Então, preciso de voltar atrás, raramente necessito de GPS para encontrar a direcção certa.

Viajar seja para onde for, querer conhecer o mundo, é acreditar que todas as ruas fazem parte de um labirinto mas que não é possível perdermo-nos nele. Está-se sempre em algum lugar. A rosa dos ventos pode ser colocada e…

Nos "enquanto's"

Julgo que o advérbio "enquanto" é muito significativo para a experiência da fé. "Enquanto conversavam e discutiam, aproxima-se o Senhor e pôs-Se com eles a caminho". "Enquanto isto diziam, Jesus apresentou-se no meio deles". É nos "enquanto's" da nossa vida que o Ressuscitado se faz presente. Não desprezemos pois os nossos ofícios e as tarefas diárias, porque não existem outros lugares de revelação que a própria existência humana.

Nuno Branco, sj (Toques de Deus - facebook)

Quem és tu

Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos, Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos, E a tua presença acorda a plenitude A que as coisas tinham sido destinadas.
A história da noite é o gesto dos teus braços, O ardor do vento a tua juventude, E o teu andar é a beleza das estradas.



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in OBRA POÉTICA, (Caminho, 2010)

Hoje (ainda) a caminho de Taizé.

A estrada da minha vida fez-se ponte.  Entre a minhas margens corre um rio que procura a fonte, A ferida da terra que por mim jorrou e derramou água viva para que na travessia fosse eterna.
Porto, 23 de Março de 2014 Oração da noite (madrugada) ;-)

Nada é inacessível no silêncio ou no poema

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


ANTÓNIO RAMOS ROSA, in VOLANTE VERDE (Moraes Ed., 1986)

Chagas de Amor

The wound is the place where the light enters you.
Rumi

Por me dizeres o nome nascem fontes (Dos poemas mais bonitos que li até hoje!)

1. Adiro à tua mão como ter nome, como ter medo e osso de ser homem. Nas noites, essas luzes que me comem são os olhos fechados desta fome.

Alicio a cidade como em jura, ou exorcismo, ou esbracejar quieto. Respiras baixo e tomas-me desperto dos anos de silêncio e de secura.
Quando não falas falas, e conheces as palavras que digo e não digo. No teu gesto de lar em que me aqueces
são as ilhas achadas; e prossigo a viagem sozinho, em que te esqueces de mim, amor, teu nado-vivo amigo.
2. Formado em direito e solidão, às escuras te busco enquanto a chuva brilha. É verdade que olhas, é verdade que dizes. Que todos temos medo e água pura.
A que deuses te devo, se te devo, que espanto é este, se há razão para ele? Como te busco então se estás aqui, ou, se não estás, porque te quero tida? Quais olhos e qual noite? Aquela em que estiveste por me dizeres o nome.
3. Por me dizeres o nome nascem fontes noutro lugar do dia e verdadeiro.
E as ilhas são irmos para elas, são montes de silêncio e libe…

Até onde não há onde

e nada será teu senão um ir  até onde não há onde.

Alejandra Pizarnik
Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita,  um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada…
Al Berto

Hoje encontrei (Deus) também aqui.

Cansaço de Coração

Aaron Huey
Há alguns anos, na fase de estudos da Filosofia, conversava com o P. Belchior (o Superior da Comunidade na altura): “P. Belchior, sinto-me cansado, mas nem sei explicar que tipo de cansaço é. Com se não houvesse palavras.” “Paulo, será que se pode chamar cansaço de coração?” Recordo tão bem o sentimento de clarividência: “É isso mesmo!”. De vez em quando venho a esta expressão de “cansaço de coração”. Se a tento traduzir nestes dias sai-me a certeza de estar vivo, de ser chamado a dar vida, de entrar no profundo de mim mesmo, de conhecer-me frágil, de saber que o desafio de amar implica os riscos de perder-se nas palavras, nos gestos, na entrega, mesmo quando assolam as naturais dúvidas sobre a capacidade. Os lugares comuns nunca foram o meu Forte. Nem sei se o tenho. O cansaço de coração surge pois, parafraseando Sophia, deixo-me vestir pelos gestos divinos e aprendo a viver em pleno vento.
Paulo, sj


http://oinsecto.blogspot.pt/2014/04/cansaco-de-coracao.html

Hoje (ainda) em Taizé.

"De noche iremos, de noche Que para encontrar la fuente, Sólo la sed nos alumbra, Sólo la sed nos alumbra."

Vai cheio de noite e de luar.

Deixem passar quem vai na sua estrada Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai
Uma estrela no chão.
MIGUEL TORGA, in DIÁRIO I (Ed. do Autor, Coimbra, 1943)

Há esperas de uma vida que nunca foram parte de esperança alguma.

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta  ao pé de uma parede sem porta.

Álvaro de Campos

Before Easter

Yves De Keyser
http://500px.com/yvdekeyser

Hoje (ainda) em Taizé.

"Retourne, mon âme, à ton repos car le Seigneur t'a fait du bien. Il a gardé mon âme de la mort. Il essuiera pour tou jours les larmes de nos yeux."

Hoje (ainda) em Taizé.

Houvesse um sinal a conduzir-nos E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores A incomparável paciência de procurar o alto A verde bondade de permanecer E orientar os pássaros


daniel faria explicação das árvores e outros animais fundação manuel leão 1998

O meu corpo é de argila

(Leap of Faith, por Jean Mayle)

Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca. As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos. O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.


antónio ramos rosa corpo de argila, de volante verde, 1986

Também aqui: http://olharonovo.blogspot.pt/2014/04/corpo-de-argila.html
Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da Natureza pede
o amor em dois olhares.


fiama hasse pais brandão
as fábulas
quasi
2002
Eu estava habituada a vir para casa com um velho amigo
Que me punha a mão nos ombros. Eu raramente tropeçava
Porque dele irradiava o calor das macieiras e a paz das
Tílias. Era a árvore dos meus passos. E, regressando a casa,
Regressava à Paisagem que humana me fazia.


maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
Estas árvores balouçam na sua hesitação
Mas prosseguem. Os ramos mais altos precipitam-se,
Abrem no ar pousadas. Os mais baixos ocupam. Sol não
Falta. Há apenas a curva do caminho com incidências
Drásticas na sua respiração. Sim, há ainda as concorrentes,
As sementes ininterruptas, e o incompreensível desprezo
Dos humanos. Parasceve não diz. Se o cortarem, não
Reagirá. «Por que não entendeis a leveza de prosseguir?»


maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003

Por enquanto.

A reter: Que bom seria se pudéssemos viver sem pensar na vida. Ou ser constantemente lembrado que ela existe.
Viver é difícil. Fácil é ainda não ter nascido ou já ter morrido. Viver é um favor que não se sabe quando acaba – nem como pagar – mas que se sabe, logo à partida, que vai acabar antes de nos apetecer.
Todos os dias sinto que foi mais um dia que me foi dado e, ao mesmo tempo, mais um dia que me foi subtraído, que jamais hei-de recuperar.
O poeta punk John Cooper Clarke, que foi punk antes do punk, gosta de ler alto um poema dele que diz "I'm the luckiest guy alive, just waiting for the trouble to arrive".
É uma atitude fadista, tão manchesteriana como lisboeta. Ou irlandesa. Ou judia. Ou infelizmente universal: se as manhãs estão bonitas, é caso para alarme porque, mais tarde ou mais cedo, vamos pagá-las.
São só versões microscómicas do "vamos todos morrer". A reacção mais sadia parece ser a de "estar aqui para as curvas". Não só não se diz ma…

E Deus com isso?

Isso me fez lembrar aquela história dos dois rabinos que invadem a madrugada discutindo a existência de Deus e, depois de umas taças de bom vinho, concluem que Deus não existe. Já tarde da noite cada um vai para o seu aposento, mas como de costume acordam bem cedo. Um deles, entretanto, não se apresenta para o desjejum. O outro sai à sua procura vasculhando a casa, e logo encontra o amigo no jardim fazendo seu rito matinal. Ele tem a cabeça coberta com o solidéu, os ombros com o tallit, o manto de orações, e em voz alta repete o Shacharit e o Shema.

– O que você está fazendo?
– Minhas orações matinais - responde o outro com naturalidade.
– Mas nós não concluímos que Deus não existe?
– E o que é que Deus tem a ver com isso?
http://eventos-finais.blogspot.pt/2010/12/e-deus-com-isso.html
Dou-te a minha ausência e a noite da escada
Que desceres para desmanchares os degraus

Dou-te o degrau que ninguém quer à minha beira
A minha mão para que possas decidir
A direcção em que devo morrer


Daniel Faria
in "Dos Líquidos"

Ando amigado com o espanto

Ando amigado com o espanto
De todas as coisas que não entendo
(e entendo nada de todas as coisas)
Crónico de dias, flores e alguns homens
Como bicho que das palavras um grito
Como livro que das páginas tão branco
(é o silêncio a língua mais difícil)
Quero esquecer tudo inteiro até ao fim
Apontar com um dedo para o espelho
E inventar outro nome para o medo


Nuno Camarneiro

Hoje (ainda) em Taizé.

Quando chegares saberás que é hora de partir.
Porto, 9 de Março de 2014 Oração da Manhã ;-)

Hoje encontrei Deus (também) aqui.