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A mostrar mensagens de Março, 2015

Carta aos meus pais

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1150, de 19 de março
15:14 Sábado, 28 de Março de 2015
Em primeiro lugar quero dizer que estou farto de ser orfão, eu que, em criança, tantas vezes desejei a vossa morte, durante umas horas, quando ralhavam comigo ou não me deixavam fazer o que me apetecia e obrigavam-me a actos desnecessários tais como lavar os dentes, comer sopa ou pegar nos talheres como deve ser. A ordem
- Pega nos talheres como deve ser
ainda ecoa, horrível, dentro de mim, tal como a sinistra pergunta
- Não lavaste as mãos antes de vir para a mesa?
ou a resposta
- Um dia falamos sobre isso
quando calhava interessar-me pelo modo como as crianças apareciam dentro da barriga das mães. Apesar de tudo eu tinha alguma cultura: sabia, claro, que os rapazes faziam chichi pela pilinha, que as meninas por um buraquinho mas um dia vi uma mulher de cócoras no pinhal em Nelas e fiquei banzo: fazia por uma escova. Naturalmente interessei-me:
- Porque é que as mulheres fazem por u…

E quando há lua, sabe Deus

Nenhum olhar

Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros. Ainda que o peso do meu peito seja custoso, qual é o peso de abismo?, ainda que me sinta um cego a crescer sem olhos para um precipício, tenho de me levantar desta cama. Tenho de levantar estes braços que não são meus, tenho de levantar estas pernas que não são minhas, mas de um rochedo, e ir tratar das ovelhas. A minha cadela. O campo. O sobreiro grande. Que sombra estará agora debaixo do sobreiro grande? Ainda que caminhe pela noite ao meio da tarde, ainda que no pico do sol seja o mais negro da noite e dentro da noite seja noite também, por tudo ser noite aos meus olhos, tenho de me levantar desta cama. Mesmo que seja para sofrer, tenho de ir ao encontro daquilo que serei, por ter sido isto e não poder fugir, não poder fugir de me tornar alguma coisa.
nenhum olhar josé luís peixoto
"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros.
Que o sol brilhe cálido sobre tua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão.

Oração Celta
"Viajar, sonhar, enamorar-se, três convites para a mesma coisa. Três modos de andar por lugares que nem sempre entendemos."




Angeles Mastretta
“Entre dois caminhos semelhantes, deixo que meus pés façam a escolha. Permitir que o coração ou a cabeça interfiram é pensar que a vontade é onipotente. De um modo misterioso, meus pés sabem mais sobre os caminhos do mundo do que meus pensamentos, porque o corpo tem uma sabedoria que a consciência não possui. Por isso, prefiro ser escolhido a escolher, como o amor de quem não sabe porque ama.” 
Luiz Carlos Lisboa
"Que as nossas raízes sejam unicamente aquelas que nos agarram à vida."

"As raízes são importantes na vida de um homem, mas nós homens temos pernas, e não raízes, e as pernas foram feitas para caminhar." 
Pino Cacucci

Vem daí

Quem amamos nasce antes de haver o tempo.

Mia Couto,
Na berma de nenhuma estrada

Para sempre

Passámos o testemunho esta semana.
Tenho a saudade agarrada ao peito.


Hoje encontrei Deus (também) aqui

Hoje encontrei Deus (também) aqui

É nos caminhos em que me perco que sou encontrada.
Este jogo misterioso que vai do amor de um corpo ao amor de uma pessoa pareceu-me suficiente belo para lhe consagrar uma parte da minha vida.

Marguerite Yourcenar | Memórias de Adriano

Hoje encontrei Deus (também) aqui

"Give the world the best you have and it may never be enough. Give your best anyway." 
Mother Teresa
Levantei-me antes da luz (cedo), envolvida pela pergunta como permanecer no conjunto das pessoas do meu sangue. Não dou importância que já vivi com outras pessoas, na mesma casa, que já convivi familiarmente com alguém. São já nove horas da manhã, mas ainda sinto os efeitos da madrugada. Afastei-me do movimento do Augusto, da minha mãe, da minha irmã, que se levantam e, tomando café e comendo fatias com manteiga na mesa da cozinha, procuro perceber os meus sentimentos e ideias, determinar o seu lugar escondido na invocação do labirinto. O canto do galo, a urina de Jade no muro, os gatos de idades diferentes à volta do prato, e o chacal que me faz andar à roda, no interior de mim, e uiva à minha serenidade. Não me reconheço apenas uma mulher, mas um anel, com algumas feridas. Fundada na luz que se eleva na cozinha, e que desce, condensando-se, da bandeira multicor da porta da entrada, junto-me a Spinoza, para subjugar o meu chacal, com a sua geometria; mais uma paixão, mais um momen…

Jejua...

Como todos os jejuns, deve servir para mudar a nossa vida.


Jejua de julgar os outros e descobre Cristo que vive neles
Jejua de palavras que ferem e enche-te de frases que curam.
Jejua de descontentamento e enche-te de gratidão.
Jejua de zangas e enche-te de paciência.
Jejua de pessimismo e enche-te de esperança cristã.
Jejua de preocupações e enche-te de confiança e Deus.
Jejua de te lamentares e enche-te de apreço pela maravilha que é a vida.
Jejua de pressões que não cessem e enche-te de uma oração que não acabe.
Jejua de amargura e enche-te de perdão.
Jejua de dar-te importância a ti mesmo e enche-te de compaixão pelos outros
Jejua de ansiedade sobre as tuas coisas e compromete-te com a propagação do Reino.
Jejua de desânimo e enche-te do entusiasmo da fé.
Jejua de pensamentos mundanos e enche-te das verdades que fundamentam a santidade.



Jejua de tudo o que te separa de Jesus e enche-te de tudo o que te aproxima d’Ele.
http://zimborios.blogspot.pt/2015/03/jejua.html

Primaverar

Esquecemo-nos de que as estações se conjugam como um verbo e que, por isso, a primavera não é apenas um fenómeno exterior, um substantivo que descreve anualmente a natureza à nossa volta, mas é uma realidade que posso dizer de mim: «eu primavero», «eu (re) começo a primaverar».
Por um lado, a primavera faz de nós testemunhas da revitalização do mundo. Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo passa por um incrível processo de rejuvenescimento. A vida parece uma rebentação, um contágio imparável, um sobressalto. O seu espetáculo desassombrado enche-nos os olhos. Por outro lado, porém, esse ver não basta Não somos testemunhas, mas protagonistas. A par das árvores com que nos cruzamos rua fora ou das flores bravias que pontilham qualquer nesga de chão, somos chamados a primaverar.
Uma das formas de conjugar a primavera é a descoberta que cada um de nós vai fazendo, a tempo e fora do tempo, da aliança entre a existência e o inacabado. Quando, de repente, tínhamos tudo para nos…
Quando meço o impossível pelos dons que Deus colocou na palma da minha mão, descubro, tão só, que o impossível, afinal, já não existe.
Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração. Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca. Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa. Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.
Rosa Lobato de Faria
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia


Al Berto
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

Cecília Meireles
Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso.
Sem pensar.

Cecília Meireles
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

Não é parar que é morrer; é ir andando.

O mais curioso nos amores impossíveis é que por vezes acontecem.
Escolheu, depois de muito ponderar, a saia azul, bem justa, para levar ao momento mais importante da sua vida. Maquilhou-se com o cuidado de quem prepara uma bomba atómica, cada fio no seu lugar, escolheu as botas de cano alto para se sentir mais protegida, como se a pele tapada a protegesse do mundo, olhou-se a medo ao espelho no final, e esboçou o sorriso possível, os lábios trémulos e um aperto nos olhos, a ansiedade inteira a governar o corpo.
“Perdoa-me”, em frente ao espelho ele ensaiava o que tinha para dizer, “perdoa-me por algum dia ter acreditado que havia vida sem que houvesses tu”, com ar confiante, seguro de si, “quero-te para sempre e tenho a certeza de que vai saber a pouco”, e saiu para a rua, o fato impecável, os sapatos impecáveis, o amor impecável, a realidade, só ela, manchada de um erro que queria agora corrigir.
Encontraram-se no café de outrora, a mesa vazia como se os esperasse. Ele chegou primei…

Hoje encontrei Deus (também) aqui

"Na cruz Deus tornou-se o faminto, o nu e o sem-abrigo. A fome de Jesus é aquilo que temos de encontrar e aliviar."

Madre Teresa de Calcutá

Adora e Confia

24 horas para o Senhor Adoração ao Santíssimo 13 e 14 de Março, 2015
Não te deixes inquietar com as dificuldades da vida,
pelos seus altos e baixos,
pelas suas decepções,
pelo seu futuro mais ou menos sombrio.
Quer o que Deus Quer.
Oferece-Lhe, no meio das inquietações e dificuldades,
o sacrifício da tua alma simples,
que aceita os desígnios da Sua providência.
Pouco importa que te consideres um frustrado,
se Deus te considera plenamente realizado, a Seu gosto.
Perde-te,
confiando cegamente nesse Deus que te quer
e que chegará até ti, mesmo que nunca O vejas.
Pensa que estás em Suas mãos,
tanto mais seguro,
quanto mais decaído e triste te encontrares.
Vive Feliz. Vive em paz.
Que nada seja capaz de te tirar a paz.
Nem o teu cansaço. Nem as tuas falhas.
E no fundo do teu coração
coloca tudo aquilo que te enche de paz.
Por isso, quando te sentires desanimado e triste,
adora e confia.
pe Teilhard de Chardin, sj

Palavras para quê... ;-)

Dar o que temos é pouco

O que sou e posso ser depende apenas das minhas ações.
Existe um infinito de sonhos que se estende diante de mim… à espera que eu seja capaz de escolher, construir e percorrer os caminhos que me levarão ao melhor de mim. Essa é a minha missão. Dar ao mundo o melhor que sou.
Afinal, o melhor de mim não é para mim. 

José Luís Nunes Martins
Yo ya era así antes de que tú llegaras, caminaba por las mismas calles y comía las mismas cosas. Incluso antes de que llegaras yo ya vivía enamorado de ti y a veces, no pocas, te extrañaba como si supiera que me hacías falta.

Julio Cortázar

Hoje (ainda) em Mesão Frio

Ó Senhora minha, ó minha Mãe,
eu me ofereço todo(a) a vós,
e em prova da minha devoção para convosco,
Vos consagro neste dia e para sempre,
os meus olhos, os meus ouvidos,
a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E porque assim sou vosso(a),
ó incomparável Mãe,
guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.
Lembrai-vos que vos pertenço, terna Mãe, Senhora nossa.
Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria vossa.
"Ainda era uma criança quando ouviu, pela primeira vez, falarem sobre Deus. Seus pais se referiam a Ele como “papai do céu”; na escola, adolescente, ouviu de alguns colegas “o cara lá em cima”; na faculdade foi surpreendido por um sujeito que se referia a “certa incógnita”, mas quando estava prestes a morrer que teve a grande revelação: ante ao último suspiro, um amigo lhe apertou a mão e sussurrou-lhe ao pé do ouvido: não se preocupe, estou aqui." Will, No Livro "A grande revelação"
Sem dizer o fogo - vou para ele. Sem enunciar as pedras. Sei que as
piso - duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei
que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento.
Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus
braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre
tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então
invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras
de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho
de palavras.

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.





António Ramos Rosa
“Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.”

António Lobo Antunes