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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2014

Abensonha-me. Por favor.

“E falou de um incerto pai que não sabia dar tamanho amor pelo seu filho. Certa vez registou-se um incêndio no casebre em que viviam. O homem pegou no menino ao colo e se afastou da tragédia, caminhando pela noite afora. Deve ter superado o limite deste mundo pois quando, por fim decidiu colocá-lo no chão, reparou que já não havia terra. Restava um vazio entre vazios, rompidas nuvens entre desmaiados céus. Para si mesmo, o homem concluiu: - Agora, só no meu colo meu filho encontrará chão. Nunca esse menino se apercebeu que o imenso território onde depois viveu, cresceu e fez filhos não era senão o regaço do seu velho progenitor. Muitos anos depois, quando abria a sepultura do pai, chamou o seu filho e lhe disse: - Vê a terra, filho? Parece areia, pedras e torrões. Mas são braços e abraços.”
Mia Couto, No Livro "Antes de Nascer o Mundo"
“Jesus deixou sinais dele na terra. Não escreveu livros nem panfletos. Peregrino, não deixou casa nem pertences que pudessem ser venerados num museu. Não se casou, não se estabeleceu, não deu início a uma dinastia. Não saberíamos, de fato, nada a respeito dele, exceto pelos sinais que deixou nos seres humanos.”

Philip Yancey, No Livro "O Jesus que eu nunca conheci"
Neste sétimo dia que fizeste,  qual é o teu repouso, se não for no meu coração?
Paul Claudel
http://tribodejacob.blogspot.pt/2014/03/repouso.html

Hoje encontrei Deus (também) aqui.

Há momentos na vida em que parece que somos nós que tomamos a iniciativa e as coisas dependem apenas do nosso empenho. Noutras alturas, parece que só Deus e as pessoas que nos rodeiam é que fazem alguma coisa. Talvez a fase de maior maturidade seja aquela em que já não conseguimos distinguir entre o que damos e o que recebemos, entre o que fazemos e o que os outros fazem em nós. A certa altura - como numa dança - tudo flui num movimento concertado e natural em que já não somos capazes de dizer a quem pertence o quê. Isso acontece porque nos tornámos o que sempre fomos: um, em Deus, com os outros e com a vida.

Ver para além do olhar (facebook)
- Vamos. - Para o mundo? - Para o mundo.
Há o risco de um pássaro a voar quando se atira um amor ao mundo.  Há mundos que não têm céu suficiente para acolher um amor assim.

Se quando olhas para o céu vês um espaço diminuto demais para lhe poderes lançar o que sentes: então é amor.

Pedro Chagas Freitas
Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar


Sophia de Mello Breyner Andresen

Recordar

Recordar

Del latin re-cordis,  volver a passar por el corazón.

Abensonha-me. Por favor.

- Você não me amou o suficiente.
- Para mim não há nunca o suficiente.
Não era apenas para ele que não bastava. O suficiente é para quem não ama. No amor só existem infinitos.

Venenos de Deus, Remédios do Diabo
Mia Couto

Hoje encontrei Deus (também) aqui.

Ontem

"Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. "
Não penseis que faltava escrever um capítulo, Jesus completa a lei na medida em que lhe traz o discernimento, e só assim há a sua expressão mais acabada, mais completa.
Pe. Vasco Pinto de Magalhães, sj

Regresso

Regressas a casa, onde
regressas? A sombra espera
a tua sombra, um disco
ouvido no escuro. Regressas
a casa, mas tens a chave
e não a porta, ou o contrário,
ou a chave e a porta e mais nada.


Pedro Mexia
Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.

Alberto Caeiro
No retrato que me faço
— traço a traço —
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
— pouco a pouco —
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!



Mario Quintana

Vem

Vem, Sem que eu te chame, ou te prometa a vida. E sente que ninguém, No descampado deste mundo, tem A alma mais guardada e protegida.
Miguel Torga (1907-1995)

Hoje encontrei Deus (também) aqui.

Ser faúlha. Depois de pó.

...e ser faúlha onde a morte vive E a vida rompe.
Daniel Faria

Hoje (ainda) em Taizé.

Os homens nascem para desobedecer aos mapas e desinventar bússolas,  sua vocação é a de desordenar paisagens.

Mia Couto

Hoje encontrei Deus (também) aqui.

Eu primavero

Esquecemo-nos de que as estações se conjugam como um verbo e que, por isso, a primavera não é apenas um fenómeno exterior, um substantivo que descreve anualmente a natureza à nossa volta, mas é uma realidade que posso dizer de mim: «eu primavero», «eu (re) começo a primaverar».
Por um lado, a primavera faz de nós testemunhas da revitalização do mundo. Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo passa por um incrível processo de rejuvenescimento. A vida parece uma rebentação, um contágio imparável, um sobressalto. O seu espetáculo desassombrado enche-nos os olhos. Por outro lado, porém, esse ver não basta Não somos testemunhas, mas protagonistas. A par das árvores com que nos cruzamos rua fora ou das flores bravias que pontilham qualquer nesga de chão, somos chamados a primaverar.
Uma das formas de conjugar a primavera é a descoberta que cada um de nós vai fazendo, a tempo e fora do tempo, da aliança entre a existência e o inacabado. Quando, de repente, tínhamos tudo para nos…
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Sophia de Mello Breyner
os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
Que derruba primeiro no nosso corpo
Tudo o que seremos depois


josé tolentino mendonça
baldios
assírio & alvim
1999

Anunciação

Não por ele entrar, mas por o Anjo inclinar
para ela, tão de perto, o rosto com que vinha anunciar,
tão jovem; e que de ambos o olhar se entrechocasse
quando um no outro se encontrasse,
como se em volta tudo vazio parecesse
e o que milhões de seres olhavam, faziam, suportavam,
nela se concentrasse: ela e ele apenas ali se encontravam;
Olhar e ser olhado; olhos e deleite para a vista
em mais nenhum lugar senão aquele: repara,
isso sobressalta. E o susto de ambos era coisa prevista.

Então entoou o Anjo a sua melodia clara.

Rainer Maria Rilke
In A vida de Maria, Portugália Editora
Trad.: Maria Teresa Dias Furtado

A justiça, os últimos e o futuro do cristianismo

Ainda ontem o ouvi: "A conversão acontece onde estamos e não onde queríamos estar, porque é onde estamos que Deus também está. " Pe. Zeca

A reter: Não temos outro lugar para encontrar a Deus a não ser na realidade que vivemos. E a realidade lida a partir dos últimos.
Recentemente tive a oportunidade de ler um artigo onde a autora se interrogava sobre a relação existente entre a fé a justiça. O título - que me parece muito sugestivo e oportuno «Desde a fé à justiça, desde a justiça à fé. O mundo lugar de encontro com Deus» (1) - é bem revelador do itinerário que nele se desenvolve. Ao lê-lo vieram-me imediatamente à mente umas palavras lidas já há bastante tempo, mas que continuam hoje bem atuais:
«O futuro da fé e do cristianismo está ligado ao compromisso dos cristãos e das instituições cristãs pela justiça. Porque esse compromisso é a prova da autenticidade da fé; porque é condição indispensável para o testemunho e, portanto, para a transmissão da fé - os bispos franceses c…

Hoje encontrei Deus (também) aqui.