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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2016
"Mr. Church, he was like the moon: Cool, calm and always there."
Filme Mr. Church

Colhe o dia, porque és ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa
O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga
Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.

Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;

Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo, Organizar Álvaro de Campos,

E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem —

um antes de ontem que é sempre...

Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.

Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...

Produtos românticos, nós todos...

E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada. Assim se faz a literatura...

Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,

Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,

Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,

Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,

Os outros também são eu.

Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,

Rodinha dentada na relojoaria da economia política,

Mãe, presente ou futura, …
Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul

ora é azul, nitidamente azul,

ora é cinza, negro, quase verde...

Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.

As árvores dão flores,

folhas, frutos e pássaros

como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha,

não há flores que voem,

a lua não tem olhos

e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem

sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,

discursos de Mussolini,

guerras, orgulhos em transe,

automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,

morrer em cima dum divã

com a cabeça sobre uma almofada,

confiante e sereno por saber

que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,

havias de dizer com teu sorriso

onde arde um cor…

Versos cheios de luar

Entrego-me em versos cheios De névoa e de luar

Falo-me em versos tristes,
Entrego-me em versos cheios
De névoa e de luar;
E esses meus versos tristes
São ténues, céleres veios
Que esse vago luar
Se deixa pratear.

Sou alma em tristes cantos,
Tão tristes como as águas
Que uma castelã vê
Perderem-se em recantos
Que ela, em soslaio, de pé
No seu castelo de prantos
Perenemente vê...
Assim as minhas mágoas não domo
Cantam-me não sei como
E eu canto-as não sei porquê.

6-7-1910
Fernando Pessoa
Lo más cómodo es
llorar desde Madrid
al que muere en Bolivia
(¡quién tuviera un fusil!).


Lo más cómodo es
no tener un fusil,
no luchar en Bolivia
y llorar en Madrid.


Lo más cómodo es
no luchar ni en Madrid,
llorar muertes lejanas
y soñar sin fusil.



Jesús López Pacheco
A gente se encostava no frio, escutava o orvalho, o mato cheio de cheiroso, estalinho de estrelas, o deduzir dos grilos e a cavalhada a peso.
Dava o raiar, entreluz da aurora, quando o céu branquece.
Ao o ar indo ficando cinzento, o formar daqueles cavaleiros, escorrido, se divisava.
E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas minudências.
Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade.




JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

Zaqueu

Jesus aproxima-se de um traste, de um explorador. Quer ficar em sua casa. Todos criticam Jesus. No entanto, a atitude de Jesus, a sua amizade por quem ainda não se tinha arrependido transforma a vida de Zaqueu. Tantas vezes esperamos que os outros mudem para nos aproximarmos deles, esquecendo que a nossa proximidade sem juízos pode ser para eles o começo da transformação.
Bom Domingo.
Zé Maria Brito, Sj

REAL BEAUTY BEATS

Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja. Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente para me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias, caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia. Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me…

Rivers by Allman Brown (feat. Robyn Sherwell) St Pancras Old Church Session

Hope for snow on a quiet dawn Frost on the window pain Branches cut into clear blue sky And the wind carries your name Run river, run, to the sea Water always wants to be free
Light a fire to keep the night at bay And the wolves from the door Watch those words rise with a smoke And shadows dance on the floor
Run river, run, to the sea Water always wants to be free Run river, run, to the sea Water take away my memory
(x2) Run river, run, to the sea Water always wants to be free Run river, run over me Water take away my memory Water take away my memory Water take away my memory Water take away my memory

11 reflexões sobre a vida, a doença e a morte

27/10/2016, 20:10
O Observador recupera aqui algumas das reflexões feitas por João Lobo Antunes sobre temas como a vida, a compaixão pelos outros, a doença que o afetou e a morte que o esperava.
João Lobo Antunes morreu esta quinta-feira aos 72 anos, depois de uma vida dedicada à medicina e em particular à neurocirurgia, mas também ao ensino, às questões ligadas à Ética para as Ciências da Vida, à filosofia, à intervenção pública e política e até à literatura. Reconhecido pelos pares, agraciado com várias distinções, não foi por acaso que Maria João Avillez, no Observador, o distinguiu como o “Príncipe do Renascimento“. Habituado a encarar a fragilidade (dos outros, dos doentes) de frente, nunca deixou de refletir sobre a vida, a doença e a compaixão. No último período da sua vida, o médico viu-se na pele de paciente e a morte tornou-se um tema frequente das suas reflexões. O Observador recolheu 11 frases de João Lobo Antunes que materializam essa e outras discussões. A vontade de viv…
"O que gostava de ter sido?

Professor de Literatura ou Filosofia, mas levando comigo a experiência de ser médico."
João Lobo Antunes

No meio da multidão que chora a morte de João Lobo Antunes

Miguel Esteves Cardoso Público, 27/20/2016 

Sou só uma pessoa da grande multidão de pessoas cujas vidas foram salvas por João Lobo Antunes. Somos muitos a chorar. Choramos por egoísmo. Choramos de medo. Choramos de raiva. Choramos pela injustiça. Mas também choramos por ele, João. E também choramos pelas pessoas que o amam.
Faço parte da grande multidão de pessoas que o João Lobo Antunes salvou, directa e indirectamente. Tal como quase todas elas, não tive a sorte de ter sido amigo dele. Mal o conheci. Mas vi-o, vi-o sempre de atalaia, rodeado pelos colaboradores, todos eles salvadores de vidas. Um desses neurocirurgiões, Alexandre Raínha Campos, removeu um tumor canceroso do cérebro da Maria João, salvando-lhe a vida e devolvendo-me a pessoa amada.
Estava lá o João Lobo Antunes. Logo de manhãzinha e depois da operação, a presença dele acalmava, garantia que tudo o que se pudesse fazer iria ser feito.
O João era um herói. É preciso estofo para se ser herói. O João tinha. Não é precis…

O meu irmão João

António Lobo Antunes, 2008
És talvez a pessoa que conheço melhor no mundo e todavia quase não falamos. Para quê? São desnecessárias as palavras entre nós, passámos mais de vinte anos, acho eu, no mesmo quarto, num silencioso princípio de vasos comunicantes que até hoje se mantém. Para além do muito amor que raramente lhe manifestei tenho uma imensa admiração por ele e um orgulho sem limites. Herdou do nosso pai (herdaste do pai, sim, tem paciência) a honestidade, o carácter, a coragem e o horror à mentira. Desde criança foste sempre valente. Se assim à má fi la me ordenassem que dissesse duas características tuas respondia logo a valentia e o pudor, formas supremas da elegância. E isto desde que te conheço, tu que nasceste vinte meses depois de mim
(o número vinte deu-lhe para me perseguir hoje)
que era cobarde e despudorado e custou-me tanto ver-me livre dessa ganga nojenta, zangado de vergonha comigo. Foste sempre digno e discreto contigo mesmo e com os outros e bem sei, sem mo ter…
Eu, sabendo que te amo
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.






nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997
Levo comigo o meu abismo e ando. Reduzo a nada os caminhos que chegam ao fim, abro os caminhos longos como o ar, como a poeira, fazendo nascer inimigos dos meus passos, inimigos à minha medida. O abismo é o meu travesseiro, as ruínas são os meus ascensores.

Na verdade, sou a morte.

As orações fúnebres são as minhas fórmulas. Apago e espero quem me apagará. Nenhum desvio no meu fumo e nos meus sortilégios. Assim vivo na memória do ar.

Descubro uma cadência e um timbre para a nossa época.

(época que se esfarela como a areia e se solda como o metal época de nuvens chamadas rebanhos, de placas de zinco chamadas cérebros, época de submissão e de miragens, de marionetes e de espantalhos, época do instante glutão, época de uma queda sem fundo).

Não tenho artéria para esta época. Sou disperso e nada se parece comigo.

Crio uma ardência semelhante ao estertor do leviatã.

Vivo secretamente no seio de um sol por vir. Protejo-me com a infância da noite, abandonando a cabeça nos joelhos da manhã. …
o que dói
é não poder apagar a tua ausência
e repetir dia a pós dia os mesmos gestos


o que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
descoberto em cada esquina dos meus versos


o que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
ao tecer para ti novos regressos





daniel faria

O anjo do Senhor anunciou a Maria?

Rezamos tantas vezes a Oração doAngelus e lemos o texto da Anunciação a Maria em tantas Festas, que já teremos a Encarnação do Verbo como um facto histórico adquirido com todos aqueles pormenores. E se alguém nos provar que Lucas teceu a sua narrativa num esquema literário anterior e conhecido? Nem perdemos a dimensão do mistério, nem Deus e o homem saem menos dignificados.

A audácia de Zefirelli
Quando o produtor cinematográfico Franco Zefirelli filmou um dos seus mais conhecidos filmes, o já clássico “Jesus de Nazaré”, muitos pensaram que se tinha atrevido demasiado. Embora esteja concebida com uma rara sensibilidade, contudo, na cena da anunciação vê-se uma cândida Maria acordar assustada à meia-noite, e enquanto um raio de luz, evidentemente sobrenatural, entra pela janela do seu quarto, a jovem começa um misterioso diálogo sobre a futura conceção de seu Filho Jesus. 
Mas com quem fala Maria? Aqui entra a grande ousadia de Zefire­lli: com ninguém! É só ela a perguntar e só ela a …
É absurdo
diz a razão.
É o que é,
diz o amor.

É uma desgraça,
diz o calculismo.
É sofrimento e nada mais,
diz o medo.
É em vão,
diz o juízo.
É o que é,
diz o amor.

É ridículo,
diz a angústia.
É uma aventura,
diz a prudência.
É impossível,
diz a esperança.
É o que é,
diz o amor.


Pedro Mexia
Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.


Herberto Helder

'Tá de Chuva

If I talk real slowly If I try real hard To make my point dear, That you have my heart
Here I go I'll tell you What you already know Here I go I'll tell you What you already know
If you love me With all of your heart If you love me I'll make you a star in my universe You'll never have to go to work You'll spend everyday Shining your light my way
If I talk real slowly If I hold your hand If you look real closely my love, you might understand
Here I go I'll tell you What you already know Here I go I'll tell you What you already know
If you love me With all that you are If you love me I'll make you a star in my universe You'll never have to go to work You'll spend everyday Shining your light my way
Here I go I'll tell you What you already know Here I go I'll tell you What you already know
If you love me With all of your heart If you love me I'll make you a star in my universe You'll never have to go to work You'll spend everyday Shining your light my way
O que eu gosto deste filme...Dos bancos de jardim...das conversas...dos olhares que resgatam. Do velhinho e da menina. Para ver sempre e ficar feliz.
Morgan        You don’t love life in itself. You love places, animals, memories, food, literature, music. And sometimes you meet someone who requires all the love you have to give. And if you lose that someone, you think everything else is gonna stop too. But everything else just keeps on going. Giraudoux said, you can miss a single being, even though you are surrounded by countless others. Those people are like… extras. They cloud your vision. They are meaningless crowd. They are unwelcomed distraction. So you seek oblivion in solitude. But solitude only makes you wither.
Pauline            So I am a distraction. I am a cloud
Morgan           You are the only part of my life. I haven’t figured out yet

There is no such thing as “free” vaccines: Why we rejected Pfizer’s donation offer of pneumonia vaccines.

https://medium.com/@MSF_access/there-is-no-such-thing-as-free-vaccines-why-we-rejected-pfizers-donation-offer-of-pneumonia-6a79c9d9f32f#.6d3hqad3s By Jason Cone, Executive Director of Doctors Without Borders in the United States
I recently had the difficult task of telling Ian Read, Pfizer’s CEO, that Doctors Without Borders/ Médecins Sans Frontières (MSF) is rejecting the company’s offer to donate a significant number of pneumonia vaccine (PCV) doses for the children we serve. This is not a decision that we took lightly, since our medical teams working in the field witness the impact of pneumonia every day.
Pneumonia claims the lives of nearly one million kids each year, making it the world’s deadliest disease among children. Although there’s a vaccine to prevent this disease, it’s too expensive for many developing countries and humanitarian organizations, such as ours, to afford. As the only producers of the pneumonia vaccine, Pfizer and GlaxoSmithKline (GSK) are able to keep the p…

O Deus que nos procura

Um grupo de mineiros, num túnel, emparedados por um desmoronamento, tentava abrir uma saída, após longas horas, batia na parede e notava o pequeno progresso e se perguntava se não seria em vão o seu esforço. Houve um momento em que pararam exaustos e ergueram silenciosamente as cabeças, apuraram os ouvidos e escutaram ao longe outras pancadas que lentamente venciam a mesma resistência e se dirigiam ao seu encontro. Era a equipa de salvamento. E descobriram nova coragem para recomeçar o trabalho. E sempre que não podiam mais, detinham-me um momento para tornar a ouvir e a crer.  Ninguém pode vir a mim se o Pai o não atrair, repete Jesus. A Parábola dos vinhateiros contratados nas mais diversas horas vem lembrar-nos precisamente a mesma realidade: Não somos só nós que procuramos a Deus mas é sobretudo Deus quem nos procura. Ele é Alguém acessível, pois sai inúmeras ao encontro dos homens. É Alguém que quis precisar de nós pois sabe que nós não somos ninguém sem Ele. Quer ter uma relaçã…
“Acredito que só alcançamos o extraordinário do que somos ao sermos capazes de alcançar o extraordinário que é o outro.”

Eliane Brum
A palavra "rota", dizem os dicionários, apareceu no século treze, saída da ganga argilosa do latim "rumpere", "quebrar violentamente", tornada "rupta", "caminho aberto, cortando uma floresta". Esta palavra parece inventada por Francisco de Assis, por aquele que abre no mundo, para si, uma via rompida, quebrada - infiel à sua parentela, traçando com curvas, uma comprida linha reta.

Christian Bobin
Francisco e o Pequenino