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A mostrar mensagens de 2016
Verve 2016 Almost Poetic from Article19 on Vimeo.

Amanhã conta-se apenas mais um dia, mais um dia apenas porque o homem criou o calendário, vivendo nele, como um afogado, adormecido; ou sobrevivente de naufrágio, perdido e assustado; ou pescador, sonhado pelos que ficam e sonhador, pela ânsia de voltar e voltar com algo mais do que com que partiu. Viver no tempo, apesar do calendário, implica um pouco mais. Viver o tempo para além dos dias. Vivê-lo para além da vida que conhecemos. Vivê-lo com a loucura dos que são loucos apenas porque confiam, acreditam, têm esperanças, apenas porque abensonham a vida. Vivem o adormecimento, vivem a perda, vivem o sonho, mas são para além disto. São loucos e fazem acontecer o tempo. São os ponteiros da sua vida. São os ponteiros na vida daqueles que já perderam a coragem de contar o tempo.

Para 2017, para amanhã, o único desejo é o de que sejamos um pouco este louco, embriagado pela vida. Que o louco substitua o irracional, o insensato, o tolo, o cul…

Sobre Maria

" (...) O traço comum a todas as abordagens é a profunda relação que se estabelece entre a humanidade e o sagrado; uma e outro estão implicados e são inseparáveis – são uma e a mesma coisa, nessa revelação de que a humanidade é sagrada e que o sagrado só o é quando vai ao mais fundo do humano."
Daqui: http://religionline.blogspot.pt/2016/12/a-humanidade-e-o-sagrado-sao-nela-uma-e.html?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook

Uma amiga estrelinha

A coisa que mais me assusta é que não sabemos o que é que eles viram, o que eles viveram, o que eles perderam. Não sabemos quão magoados estão, quão dolorosas são as feridas. Não sabemos quanto dói mas sabemos que dói. E isso torna o amor mesmo mágico e transformador num sítio como este. Porque é essa a nossa missão: vê-los através da dor, da revolta, vê-los. Lembrar-lhes da esperança, do amor, de que o mundo ainda é um sítio bom.  E pode parecer mesmo ingénuo mas eu sei que a missão é o amor. E tenho a certeza que daqui a muitos anos eles se calhar não se vão lembrar dos nossos nomes, das nossas caras, dos nossos coletes a dizer Portugal, do nome RSP, mas tenho a certeza que se vão lembrar que algures em Lesbos, algures em Kara Tepe, algures no Silver Bay, houve alguém, não importa quem, que os viu, como pessoas, como vidas, alguém que os viu mesmo e que os amou.
Lokas, em Lesbos
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

Natália Correia
in &…
apenas preciso de alguém que me sorria e reponha o mesmo disco sempre a tocar e escute comigo o vento nas janelas e sinta a tristeza que têm os gladíolos murchando em cima da mesa.

Al Berto
Da existência ficara-lhe o olhar desvairado, para dentro, de quem segue na alma um sonho e anda na vida por acaso, o olhar daqueles em quem a vida interior é enorme e que ficam surpreendidos quando a dor lhes diz que o mundo existe.


Raúl Brandão
in A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore
O poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos, tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e incertezas.

José Luís Peixoto

Do Princípio - Tiago Bettencourt

~

Faz-te bem Não pensar de mais no que é melhor para ti Faz-te bem Descansar depois da fuga até aqui
O principio é feliz No segredo entre as marés Quando ninguém está a olhar Não vês
O meu principio é aqui Quando este rio se dá ao mar Quando este norte nos largar O meu principio é aqui
Faz-te bem Apagar da pele a linha que escrevi Faz-te bem Não levar o céu que inventei para ti
O principio é feliz No segredo entre as marés Quando ninguém está a olhar Mas vês
O meu principio é aqui Quando este rio se dá ao mar Quando este norte nos largar O meu principio é aqui
Onde esta fuga nos levar Onde o teu corpo não vier Onde o meu sangue não pedir Onde este norte nos levar
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.


Vinicius de Moraes

Hoje

La ténèbre n'est point ténèbre devant toi: la nuit comme le jour est lumière.
vieram falar da tua partida, nas velas enfunadas que se viam ao longe,
no rumo sem rumo das cartas de marear que ficaram abertas em mim.


disseram-me: sabias que há uma âncora no cais que costumavas ser
mas que não amarra qualquer veleiro que ali aporte? e eu não sabia.






jose luis almeida
Que importa o que não temos
quando a vida leva tudo o que nos dá

e a morte restitui-nos ao silêncio?



MIGUEL MARTINS
Seis poemas para uma morte
(1995)

Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.

Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho
Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste,
Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade.
E assim estás no meio do amor como o centro da rosa.
Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal.


António Ramos Rosa

Viver sem amor

Viver sem amor
É como não ter para onde ir
Em nenhum lugar
Encontrar casa ou mundo

É contemplar o não-acontecer
O lugar onde tudo já não é
Onde tudo se transforma
No recinto
De onde tudo se mudou

Sem amor andamos errantes
De nós mesmos desconhecidos

Descobrimos que nunca se tem ninguém
Além de nós próprios
E nem isso se tem


Ana Hatherly

The Light Between Oceans

Filme belo.

“There are still more days to travel in this life. And he knows that the man who makes the journey has been shaped by every day and every person along the way. Scars are just another kind of memory....Soon enough the days will close over their lives, the grass will grow over their graves, until their story is just an unvisited headstone.”

Bons dias

How could I have known
You were the one for me?
How could I have known
You were the air I breathe
If I don't believe in love?

How was I to know
I couldn't live without
Your arms around me?
If you'd only come back now
I'd not let you down again
And how could you allow
One little love you saw?
How could I think
If you'd only hold me close
I'd not let you go again?

Guess I could've been
A better man
I should have held onto your coat
But how could I've known?

And now looking back
Should have been on my knees
But I can be cold
Shoulda said "Stay with me
Please don't leave me alone"

And those other girls
They never made me feel
The way I do now
Know that our love was real
But I broke the deal
And now...

I'm out in the cold
Baby come hold me close
Please don't let me drown
Woman I love the most
My holy ghost
Goddamn

Guess I could have tried
A little harder
I see comfort in being alone
How could I have known?

Estamos assim

Ainda bem
que não morri de todas as vezes
que quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem


que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem


que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem


que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.


Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.




Maria do Rosário Pedreira
Não há ser humano que não queira ser outro
e meter-se nesse outro como num escafandro
como numa aura talvez ou na bruma
num sedutor ou asceta
num aventureiro ou felizardo

só eu é que não queria ser outro
melhor dizendo eu
queria ser eu
mas um pouco melhor




MARIO BENEDETTI
La vida ese paréntesis
(1998)
Teremos do tempo a justa parcela
da nossa compreensão
assim um instante será tão só
a inteireza do nosso habitar
nenhuma velocidade
nenhuma contagem
a suspense de todo o artifício
dos relógios
apenas o acorde da existência
na concha das mãos
levado aos ouvidos
como água

Cultivemos por isso
o vinho
os vivos alimentos
as crianças que dormem de lado
na catapulta pronta
de um novo dia
as casas crescem pelas fissuras
não tapemos nada
deixemos que haja
o vagar com que seca a roupa
e os frutos mais doces
deixemos que venha
a vontade de uma estação
mais subornada
de fraterna moeda

Porque do tempo
teremos apenas essa riqueza
que a asa da morte
não nos leve já
mas que passe todos os dias
para soprar as pálpebras
perigosamente soporíferas
através das quais vemos
ou não vemos
a paisagem clamorosa
dos amados
da contingente respiração
das fotografias
impossivelmente guardadas
para olhos que só poderão
ser estes


Vasco Gato

Hoje

Natal és tu

2011/12/05 Patrícia Oliveira



Ainda não dei vida à árvore de Natal, este ano. Ainda não montei o presépio. Ainda não... Seria razão para me perguntar, então: “Mas, estás à espera do quê?”. É uma palavra de que gosto muito, esta de “esperar”. Eu, que nunca tenho paciência para que algo que demore venha ao meu encontro, eu que antecipo tudo ao ínfimo pormenor, para que nada me escape – e escapa sempre. Logo eu, que não sei esperar por mim própria. Um tempo de espera será sempre aquele em que se constrói, em que as expectativas se apoderam de nós, em que o desejo se torna por vezes mistério.  Há, contudo, dois tipos de espera que se dividem pelo que já conhecemos e pelo que se revela completamente surpresa. É assim que vivo o Advento. Fazendo dele peregrinação, tornando-me até peregrina de mim própria. Fazendo dele tempo de encontro e tempo de descoberta. Em que me questiono, em que (re)educo o olhar, em que sinto inevitavelmente falta de um (re)nascimento. Esperar, então, algo que me fal…

Nascemos, nascemos, nascemos

Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos.Nascemos muitas vezes ao longo da infância
quando os olhos se abrem em espanto e alegria.
Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca.
Nascemos na sementeira da vida adulta,
ente invernos e primaveras maturando
a misteriosa transformação que coloca na haste a flor
e dentro da flor o perfume do fruto.
Nascemos muitas vezes naquela idade
onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se
com laços interiores e caminhos adiados.

Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar.Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de algumas lágrimas.
Nascemos na prece e no dom.
Nascemos no perdão e no confronto.
Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra.
Nascemos na tarefa e na partilha.
Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos.
Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.

O que Jesus nos diz é: "Também tu podes nascer",
pois nós na…
O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno
Tolentino Mendonça

Tempo de Advento

Advento, tempo de espera. Não apenas de um dia, mas daquilo que os dias, todos os dias, de forma silenciosa, transportam: a Vida, o mistério apaixonante da Vida que em Jesus de Nazareth principiou.


Advento, tempo de redescobrir a novidade escondida em palavras tão frágeis como "nascimento", "criança", "rebento".


Advento, tempo de escutar a esperança dos profetas de todos os tempos. Isaías e Bento XVI. Miqueias e Teresa de Calcutá.


Advento, tempo de preparar, mais do que consumir. Tempo de repartir a vida, mais do que distribuir embrulhos.


Advento, tempo de procura, de inconformismo, até de imaginação para que o amor, o bem, a beleza possam ser realidades e não apenas desejos para escrever num cartão.


Advento, tempo de dar tempo a coisas, talvez, esquecidas: acender uma vela; sorrir a um anjo; dizer o quanto precisamos dos outros, sem vergonha de parecermos piegas.


Advento, tempo de se perguntar: "há quantos anos, há quantos longos meses desisti de renascer…

Para haver Natal

Para haver Natal este natal
talvez seja preciso reaprendermos
coisas tão simples!
Que as mãos preocupadas
com embrulhos
esquecem outros gestos de amor.
Que os votos rotineiros que trocamos
calam conversas que nos fariam melhor.
Que os símbolos apenas se amontoam
e soltam uma música triste
quando já não dizem
aquela verdade profunda.

Para haver Natal este natal
talvez seja preciso recordar
que as vidas começam e recomeçam
e tudo isso é nascimento (logo, Natal!).
Que as esperanças ganham sentido
quando se tornam caminhos e passos.
Que para lá das janelas cerradas
há estrelas que luzem
e há a imensidão do céu.


Talvez nos bastem coisas afinal
tão simples:
o alento dos reencontros
autênticos,
a oração como confiança
soletrada,
a certeza de que Jesus nasce
em cada ano,
para que o nosso natal alguma vez, esta vez,
seja Natal.


P. José Tolentino Mendonça
O que dói. É tudo.
O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos
O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos
O que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos
Daniel Faria

Diz o meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
[os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça


Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho
"União Europeia lança Corpo de Solidariedade para jovens até aos 30 anos Jovens entre os 18 e os 30 anos podem inscrever-se a partir de quarta-feira em portal para ter uma experiência como voluntários, estagiários ou trabalhadores."
6 de Dezembro de 2016, 8:08

"Para ter uma experiência como voluntários"...Nem de propósito.

Agora que aguardo, com uma calma surpreendente, por mais notícias sobre a Missão Timor, rezo muito o que responderei à fatídica pergunta "Por que estás aqui?".

Lembro-me da formação da Missão Moçambique em que nos perguntaram isto. Lembro-me de duas respostas continuamente repetidas " Para conhecer novas realidades" e "porque quero experimentar". Depois da nossa missão, tive o privilégio de fazer parte da formação de todos os grupos que nos seguiram - um para Moçambique, dois para Timor. A fatídica pergunta era sempre colocada. Lembro-me de duas respostas continuamente repetidas "Para conhecer …
Ele disse:
«lava a tua casa retira os móveis todos
aí quero dançar»

assim o Senhor dança nos salões vazios:
semelhante a um turíbulo
espalha o seu perfume

não fechei as portas
abri as janelas: os ladrões evitam
a casa iluminada

fiz tapetes de flores
pus grinaldas na entrada
pois é muito grande a festa de Um só convidado

espero nas traseiras e ceio no umbral
o Senhor ocupa-me
e a casa toda é sua

sirvo na bandeja as mais frescas iguarias
os frutos colhidos
nos dias de canseira

o Senhor dorme no leito e eu estou acordado
o Senhor levanta-se
e eu não posso dormitar

a água sai pura
das suas lavagens
lavo-me na água que o Senhor usou

de manhã o Senhor veste-se
com a roupa que lhe trago
come do que tenho – e assim eu empobreço

visto o meu Senhor e eu o alimento
assim fico sem nada
e Ele me sustém

que eu nunca me atrase à chamada do Senhor
não vá Ele mostrar-me
não precisar de mim

que eu não seja dos que perdem
primaveras e outonos
que não seja contado entre os ignorantes

enquanto o Senhor dança o meu coração exulta:
que Deu…
Volta a olhar o tempo com inocência
como uma tarefa que as crianças
sabem melhor do que tu

Aprende a buscar a sabedoria
como quem constrói uma ponte
quando seria mais fácil a distância

Aprende a elogiar a vida
que é sempre a oportunidade mais bela
em vez de a diminuíres com dedsânimos e lamúrias

Aprende a agradecer o amor
que te esvazia as mãos
e ao mesmo tempo as deixa iluminadas

Acende no centro de ti uma prece
mesmo se o lume que trazes
te parece anmeaçado ou imperfeito


José Tolentino Mendonça
A lua anda devagar mas atravessa o mundo.
Mia Couto

Coisas que têm quereres

It's three miles to the river That would carry me away, And two miles to the dusty street That I saw you on today.
It's four miles to my lonely room Where I will hide my face, And about half a mile to the downtown bar That I ran from in disgrace.
Lord, how long have I got to keep on running, Seven hours, seven days or seven years? All I know is, since you've been gone I feel like I'm drowning in a river, Drowning in a river of tears. Drowning in a river. Feel like I'm drowning, Drowning in a river.
In three more days, I'll leave this town And disappear without a trace. A year from now, maybe settle down Where no one knows my face.
I wish that I could hold you One more time to ease the pain, But my time's run out and I got to go, Got to run away again.
Still I catch myself thinking, One day I'll find my way back here. You'll save me from drowning, Drowning in a river, Drowning in a river of tears. Drowning in a river. Feels like I'm drowning, Drowning in the river. Lord, how lo…
No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afeto
ensaia o seu primeiro infinito.


Mia Couto

O sonho da felicidade

Apanhar caranguejos à meia-noite
às apalpadelas
escolher as pedras mais aguçadas
erguê-las
pegar neles pelo lado inofensivo
metê-los no balde
continuar
com a lanterna na cabeça
procurar
a mão do meu pai
com emoção
e os pés tiritando de mar
e salitre
observar
no meio das sombras
a mão dele segurando com força na minha


cuidado para não pisar o reflexo da lua.



María García Zambrano
vou ali e já não venho, aproveito a distração de todos
a minha e a dos outros, e vou-me embora
sob inúmeras atmosferas,
dizendo um a um os nomes
que soam a estrangeiro,
e a nativo só quando os amor os enflora,
mas nunca o amor tem a pronúncia que se espera.




Herberto Helder

Alicia Keys - 'Holy War' Live

If war is holy and sex is obscene Then we got it twisted in this lucid dream Baptized in boundaries, schooled in sin Divided by difference, sexuality and skin
So we can hate each other and fear each other We can build these walls between each other Baby, blow by blow and brick by brick Keep yourself locked in, yourself locked in We can hate each other and fear each other We can build these walls between each other Baby, blow by blow and brick by brick Keep yourself locked in, yourself locked
Maybe we should love somebody Maybe we could care a little more Maybe we could love somebody Instead of polishing the bombs of holy war
What if sex was holy and war was obscene And it wasn't twisted, what a wonderful dream Living for love, unafraid of the end Forgiveness is the only real revenge
So we can heal each other And feel each other We can break these walls between each other Baby, blow by blow and brick by brick Keep yourself open, yourself open We can heal each other And feel each other We can break these wall…

Viver a fé exige poesia.

Viver a fé exige poesia. Parece-me que ser homem ou mulher de fé implica entranhar na beleza de pequenos nadas, do quotidiano, em conjunto com a brutalidade dos acontecimentos locais e universais. A bomba que cai em sítios longínquos estilhaça em ecos nas nossas vidas, tanto pela ignorância, como pela dor provocada nos gritos ensurdecidos das crianças, de cá e de lá. E o sol insiste em nascer, tal como a chuva cair, sobre cada ser humano. Quem vive fé, deixa-se entranhar por esse sentir da Vida que não se cansa de nos anunciar Paz, a começar em cada coração. É uma aventura tremenda, de nos pormos diante de Deus, silenciando e escutando o pulsar que nos ajuda a encontrar a cura das feridas da memória e, assim, empurrar à Vida maior. É preciso dar-se tempo, voltando à peregrinação de terra batida, onde os passos são dados à medida da necessidade dessa escuta. Em paragens de se dar conta do aqui e do agora, sem angústias de passado, nem ânsias de futuro. Que posso fazer? Que posso, realm…

Deus vem

(...)
No Advento a liturgia repete-nos com frequência e garante-nos, quase que a vencer a nossa natural desconfiança, que Deus "vem": vem para estar connosco, em qualquer situação; vem para habitar no meio de nós, para viver connosco e em nós; vem preencher as distâncias que nos dividem e nos separam; vem para nos reconciliar com Ele e entre nós. Vem à história da humanidade, bater à porta de cada homem e mulher de boa vontade, para dar aos indivíduos, às famílias e aos povos o dom da fraternidade, da concórdia e da paz. Por isso, o Advento é por excelência o tempo da esperança, no qual os crentes em Cristo são convidados a permanecer em expectativa vigilante e laboriosa, alimentada pela oração e pelo compromisso efectivo do amor. Que o aproximar-se do Natal de Cristo encha os corações de todos os cristãos de alegria, de serenidade e de paz!

Para viver de maneira mais autêntica e frutuosa este período de Advento, a liturgia exorta-nos a olhar para Maria Santíssima, e a enca…
Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.  Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala  pois as tuas raízes podem estragar a carpete.  Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as  folhas.  Mas os pais disseram olha é outono 







Russell Edson
"Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus."
CLARICE LISPECTOR
um homem é feito do que planifica e do que vai sentindo. de correntes de ferro que o prendem ao chão e de correntes de ar que lhe atravessam o corpo em ecos de poesia.
verdade e urgência.

Ondjaki
in “Os Transparentes”
Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado. Às vezes é como a primeira tentativa para prender um balão de hidrogénio a um balão de fogo: preferimos que se despenhe e arda ou que arda e se despenhe? Mas às vezes resulta, e algo de novo se faz e o mundo transforma-se. Então, a dada altura, mais cedo ou mais tarde, por esta ou por aquela razão, um deles é levado. E aquilo que é levado é maior do que a soma do que lá estava. Isto pode não ser matematicamente possível; mas é emocionalmente possível.
Julian Barnes, in "Os níveis da vida"

Eu

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

Rosa Lobato de Faria

Apetece-me só disto, hoje

Take everything you know and write it on your skin



And you can carry on and forget everything
Take everything you own and put it in your car
You can drive away, drive away so far,
And drive into a lake and take off all your clothes,
Set your clothes on fire, now you are alone
But you've got all you know written on your skin,
So you can carry on and forget everything




All the things I'd rather be,
All the things I'd rather be


I can't, I can't, I can't stay around here
I can only leave


Take everything you know and write it on your skin
And you can carry on and forget everything
Take everything you own and put it in your car
You can drive away, drive away so far,
Then drive into a lake and take off all your clothes,
Set your clothes on fire, now you are alone
But you've got all you know written on your skin,
So you can carry on and forget everything


All the things I'd rather be,
All the things I'd rather be


I can't, I can't, I can't stay around here
I can only lea…

Team Aragão

Hallelujah

Experimentar ver o vídeo ao mesmo tempo que, em voz alta, rezamos este poema:
Eu caminhei na noite  Entre silêncio e frio  Só uma estrela secreta me guiava 
Grandes perigos na noite me apareceram  Da minha estrela julguei que eu a julgara  Verdadeira sendo ela só reflexo  De uma cidade a néon enfeitada 
A minha solidão me pareceu coroa  Sinal de perfeição em minha fronte  Mas vi quando no vento me humilhava  Que a coroa que eu levava era de um ferro  Tão pesado que toda me dobrava 
Do frio das montanhas eu pensei  «Minha pureza me cerca e me rodeia»  Porém meu pensamento apodreceu  E a pureza das coisas cintilava  E eu vi que a limpidez não era eu 
E a fraqueza da carne e a miragem do espírito  Em monstruosa voz se transformaram  Disse às pedras do monte que falassem  Mas elas como pedras se calaram  Sozinha me vi delirante e perdida  E uma estrela serena me espantava 
E eu caminhei na noite minha sombra  De desmedidos gestos me cercava  Silêncio e medo  Nos confins desolados caminhavam  Então eu vi chegar ao me…
Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?


José Saramago
Os Poemas Possíveis
Lisboa, Caminho, 1999

Hoje encontrei Deus aqui

http://spiritysol.blogspot.pt/2015/04/april-nesting.html

The Cranberries - Zombie 1999 Live Video

O que eu dava por um concerto destes!
Não é o tempo, nem a oportunidade que determinam a intimidade, é só a disposição.  Sete anos seriam insuficientes para algumas pessoas se conhecerem, e sete dias são mais que suficientes para outras.
Jane Austen, Razão e Sensibilidade
Confundimos os nossos segredos com a nossa identidade, confundimos as nossas fraquezas connosco próprios e, sem que ninguém saiba, sem que ninguém possa saber ou ajudar-nos, transformamo-nos efectivamente nos nossos segredos e nas nossas fraquezas. A verdade existe no oposto desse medo. Quanto mais damos, mais nos permitimos ser. Quanto mais damos, mais somos.


Abraço José Luís Peixoto

Passenger - The Sound Of Silence (Cover) Live

Hello darkness, my old friend I've come to talk with you again Because a vision softly creeping Left its seeds while I was sleeping And the vision that was planted in my brain Still remains within the sound of silence
In restless dreams I walked alone Narrow streets of cobblestone 'Neath the halo of a street lamp I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed By the flash of a neon light That split the night And touched the sound of silence
And in the naked light I saw Ten thousand people, maybe more People talking without speaking People hearing without listening
People writing songs That voices never share And no one dare Disturb the sound of silence
"Fools" said I, "you do not know Silence like a cancer grows Hear my words that I might teach you Take my arms that I might reach you" But my words like silent raindrops fell And echoed in the wells of silence
And the people bowed and prayed To the neon God they made And the sign flashed out it's warning And the word…
Uma das coisas que a experiência de Zaqueu ajuda a compreender é a de que a fé em Deus não é monolítica, com coração de pedra. Muito menos moralista. O olhar de Jesus é, tal como na última ceia, de baixo para cima, sem soberba ou ponta de superioridade, vendo o melhor de cada pessoa. Quem se fecha em dogmatismo e moralismo, em murmúrios como diz o Evangelho, perde a oportunidade de ser encontrado. Afinal, deixou de ser um buscador… e a fé vive-se em busca, por caminhos inacabados… e tantas vezes inesperados.
Paulo, sj http://oinsecto.blogspot.pt/2016/10/zaqueu-e-fe.html
I did my best, it wasn’t much I couldn’t feel, so I tried to touch I’ve told the truth, I didn’t come to fool you And even though it all went wrong I’ll stand before the Lord of Song With nothing on my tongue but Hallelujah.
Leonard Cohen
"Sabia que aconteceria um dia..." 
11/11/2016
Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette. Ficámos a olhar o verde jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para as novas caminhadas. O recomeçar das coisas. - Não sei onde as lesmas sempre vão avó. - Vão para casa, filho. - Tantas vezes de um lado para outro? - Uma casa está em muitos lugares - ela respirou devagar, me abraçou – É uma coisa que se encontra.

Ondjaki in 'Os da minha rua'
A vida é tecida como o linho: um fio de dor, um fio de ternura. Eu intrometo-lhe sempre um fio de sonho. Foi o que me perdeu.

Raul Brandão
in 'Húmus'
Não deixar que nos passe ao lado (mesmo ali ao nosso lado)

Lonely Island

É tão fácil mantermos a solidão.

Deixem passar

Deixem passar. Tesoura. Vejam a tensão arterial. Oxigénio. Podem dar-me gaze? Consegue mexer a mão? Tirem uma radiografia. Qual é a tensão agora? Tesoura. 90/70. Sutura. Pinça. A tensão está a descer. O pulso está fraco. Quanto sangue temos? Afastador. Esta é a subclávia. Duas de demorol. Quais são as hipóteses? Não mais de 50%. De onde partiu a eternidade, bebo água, corto fruta, faço um corte e deixo-o dizer partes soltas do corpo sob o fio da torneira, divido-o em vários, linhas gregas e pancada de sonhos, a luz estoirada, lâmpadas em cacos aguardando os teus pés. No corredor os quadros põem-se a olhar além de si mesmos, a hera mete-se entre os móveis, folhas de água escorrem, pingam, um perfume encarquilhado acena de outras épocas, um piano de joelhos, metade dentro, e o rabo a sair pela varanda, faz de canteiro. A flor ignorante da hora afoga a velha sede num copo em cada estante, os livros sem fundo, lidos só por fungos, tornam o ar irisado, boquiaberto. A cozinha é uma memória…
Às vezes o presente tem presença a mais, presente de mais. Sente-se a luz a passar nos dedos, as casas a encolher. É preciso então orientar o tempo, traçar um caminho, azangar um fosso, seguir uma formiga, caminhar só.

Louise Warren
“I heard somebody define heaven once,” she said, looking at Pearl, “as a place where, when you get there, all the dogs you ever loved run to greet you.”
― Robert B. Parker
A humanidade de Jesus Cristo não seria verdadeira se não tivesse encarnado realmente, se não tivesse realmente assumido a carne. Jesus não é apenas meio-homem e meio-Deus, nem apenas uma aparência de homem ou uma aparência de Deus. A radicalidade do cristianismo vai mais fundo: afirma que aquele homem concreto é o Filho de Deus encarnado, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, que não veste apenas a pele de homem mas que, mesmo depois de ressuscitado, não se despiu da sua humanidade, como se de uma coisa acessória ou secundária se tratasse.
Duarte Rosado, sj
"Alegra-te, ó cheia de graça". Esta alegria e graça é outro aspecto digno de consideração, na saudação Khaire (Avé); em grego as duas palavras - alegria e graça (Khara e Kharis) - são formadas a partir da mesma raiz. Alegria e graça andam juntas.

A Infância de Jesus, Bento XVI

Saudade

Queridos Missioneiros Icbasianos
O que o ICBAS junta, a vida não separa
Caminho, 2015

A cidade que nos prende, de corpo e alma

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8 things to know and share about the Annunciation

BY JIMMY AKIN04/07/2013 
http://www.ncregister.com/blog/jimmy-akin/8-things-to-know-and-share-about-the-annunciation



This Monday we're going to be celebrating the solemnity of the Annunciation.
This day celebrates the appearance of the Angel Gabriel to the Virgin Mary to announce of the birth of Christ. What's going on and why is this day important? Here are 8 things you need to know.
1. What does the word "Annunciation" mean?It's derived from the same root as the word "announce." Gabriel is announcing the birth of Christ in advance.
"Annunciation" is simply an old-fashioned way of saying "announcement." Although we are most familiar with this term being applied to the announcement of Christ's birth, it can be applied in other ways also. For example, in his book Jesus of Nazareth 3: The Infancy Narratives, Benedict XVI has sections on both "The annunciation of the birth of John" and "The annunciation to Mary," be…