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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2015

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira, in 'Matura Idade'

Vou chegar contigo onde só chega quem não tem medo de naufragar

Saudade

Hoje sentámo-nos no Piolho a contar aos nossos amigos. E rimos muito. Valeu a pena! Quando é assim vale a pena!

Um Homem é um Homem.

Um Homem é um Homem. Um Homem a morrer afogado é um Homem. Mesmo que não seja refugiado a sério, mesmo que até tenha acabado de matar outro Homem. Um Homem a morrer afogado é um Homem, e primeiro salvam-se vidas, depois trata-se do resto. 
Há oportunistas, haverá potenciais terroristas, há fanáticos religiosos. Haverá. Mas primeiro salvam-se vidas, depois trata-se do resto. Quando um Homem está a morrer afogado não há tempo para lhe perguntar se aceita a nossa liberdade religiosa, a nossa igualdade, a nossa Democracia.
A nossa religião, para os que a temos, ensina isso, mesmo a quem não comunga. A nossa Democracia, que é mais do que votar, depende isso.
Primeiro salvam-se vidas, depois trata-se do resto.
E o resto não é pouco. Claro que não podem todos ficar. Claro que ter missões de salvamento junto à costa é promover maiores fluxos. Claro que por cada asilo concedido se promove maior tráfico de Homens. Mas agora há Homens a morrer. Primeiro salvam-se vidas, depois trata-se do resto.
Não,…

Proteção

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


Manuel António Pina
"Há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre (...). O ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a acção de Deus na alma, mas também chegar a encontrá-Lo em todas as coisas."
Laudato si, 233 - Papa Francisco

Oh Pinto, deixas-me fazer o pão hoje?

Na Marinha, sê amiga do Sr. Padeiro.

“O tempo não é uma medida, um ano não conta, dez anos não representam nada, ser pessoa não significa contar, não se trata de contar o tempo, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste serena aos grandes ventos da primavera sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir, mas só vem para aqueles que sabem esperar tão sossegados como se tivessem diante de si a eternidade.”


Rainer Maria Rilke em “Cartas a Um Jovem Poeta”

Buraco de luz para Deus

Ligo o braço longe a uma estrela
A lua límpida sobe no céu
Um anel passa através de outro anel

Procuro o tempo e encontro a passagem
Procuro a morada e encontro o relento

Às vezes mesmo sem voz
Às vezes até sem palavras
Silêncio que Deus me deu
És uma forma de luz
Tornas sagrado o que existe, centelhas da verdade
Somos o barro, somos poeira
O teu vento errante nos leva

Eu sei existe em mim, mesmo no fundo de um poço
Um buraco de luz para Deus
Um nome escrito no céu

E não sei o que fazer e rezo
Rezo sem saber dizer o quê e a quem
Mas rezo
Rezo o chão e a flor, o pão e a fome,
Rezo o branco e a dor
Nas letras do teu nome
Há um buraco de luz



José Tolentino Mendonça
Composição da oratória “Credo”

Chorar para quê?

ionline Inês Teotónio Pereira 

Num dos seus livros, CS Lewis explica como é indiferente odiarmos ou amarmos o que nos é distante. Odiar Hitler, Estaline e arrepiarmo-nos com as atrocidades que eles cometeram não nos faz melhores pessoas. Não nos faz nada. Por outro lado, idolatrar alguém que não conhecemos também não quer dizer que temos maior ou menor capacidade para amar. Odiarmos ou indignarmo-nos com algo distante é apenas confortável, é uma espécie de festinha à nossa moral tão frágil e à nossa sensibilidade, que vai minguando conforme crescemos. Mas é apenas uma festinha. As nossas vidas estão repletas de ódios vários. Odiamos racistas, odiamos assassinos, odiamos pedófilos, odiamos homens que batem nas mulheres, odiamos terroristas. Odiamos muita gente. Gente que não conhecemos e que apenas nos horroriza. E é por os odiarmos que nos sentimos muitas vezes melhores pessoas; quem mais odeia o mal melhor é, dizemos nós à nossa frágil moral.

A fotografia do menino na praia arrepia. O…

Amor após amor

Virá o momento
em que, com júbilo
haverás de te cumprimentar ao chegares
à tua própria porta, ao teu próprio espelho
e ambos haverão de sorrir às boas-vindas um do outro,

dizendo, senta-te aqui. Come.
Amarás novamente o desconhecido que foi o teu eu.
Serve o vinho. Serve o pão. Devolve o teu coração
a si próprio, ao desconhecido que te amou

durante toda a tua vida, que ignoraste
em troca de outro, que te conhece de cor.
Vai buscar as cartas de amor à prateleira,

as fotografias, os bilhetes desesperados,
desprende a tua própria imagem do espelho.
Senta-te. Regala-te com a tua própria vida.

- Derek Walcott

O chão que não precisa de voar

Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.



Rui Costa
Nuvem Prateada das Pessoas Graves

Que fizeste ao teu irmão?

01/09/2015 - 00:54 http://www.publico.pt/mundo/noticia/que-fizeste-ao-teu-irmao-1706514
Na semana passada, junto ao quiosque onde costumo comprar os jornais, uma senhora de cabelos brancos, muito Avenida de Roma, comentava a questão dos refugiados. Colocada perante a possibilidade de Portugal vir a assumir um papel de maior relevo no seu acolhimento, e investir na construção de um centro para refugiados no Algarve, a senhora proclamou: "Espero que não seja junto ao sítio onde passo férias. Já por lá há tanta gente que nem consigo ir ao supermercado."

Isto foi dito poucos dias depois de 71 refugiados terem morrido sufocados dentro de um camião frigorífico no meio da Áustria. Aquela senhora é certamente encantadora para os seus netinhos e, quem sabe, para os seus animais domésticos. Infelizmente, quando colocada perante o terrível dilema de ter de escolher entre o aumento das filas do supermercado que frequenta durante 15 dias a cada Verão e o acolhimento de g…

Editorial: Por que publicamos esta fotografia

http://www.publico.pt/mundo/noticia/porque-publicamos-esta-fotografia-1706724DIRECÇÃO EDITORIAL 02/09/2015 - 22:47
Não é fácil olhar para esta fotografia e não foi fácil tomar a decisão de a publicar. É uma imagem que impressiona. O primeiro instinto que temos é desviar o olhar. A seguir olhamos de novo, mas a querer fechar os olhos. No esforço entre olhar e não olhar, acabamos por levar uma estalada duas vezes.

Tínhamos algumas opções: não publicar, publicar uma imagem mais ambígua, ou publicar no espaço mais nobre do jornal.

Há bons argumentos para não a mostrar. É uma imagem violenta, logo evitável; há formas mais subis de mostrar a realidade sem cair no sensacionalismo, “sem mostrar o horror”, como diz um colega fotógrafo; temos de respeitar a dignidade daquela criança.

Mas há melhores argumentos para a mostrar. Às vezes, é nosso dever publicar imagens impressionantes. Sem pixéis, sem sombras, sem filtros. Vamos de forma paternalista proteger o leitor de quê? De ver uma criança morta à…

Pati

"O passado não é o que passa, é o que vai ficando."
Não sei porque floriram no meu rosto
os olhos e os rostos que há em ti.
Floriram por acaso, ao sol de agosto
sem mesmo haver agosto ou sol em mim.
Não sei porque floriram: se o orvalho as queima...
(Ponho as mãos nos olhos para os proteger!)
Tão estranho! florirem no meu rosto
olhos e rostos que não posso ver.


Eugénio de Andrade
(19 de Janeiro de 1923 — 13 de Junho de 2005)