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Naked Pastor

Coisas que têm quereres

Hay un camino
aún no atascado,
aún ni pensado,
que comienza
en la punta justo
de tus pies; hay
un camino; hay,
hay un camino.

Eduardo Dalter

Coisas que têm quereres

Ainda há muitos pais que se dirigem aos filhos utilizando a vulgarizada expressão: “Assim não vais ser ninguém na vida”.  E o que é mesmo ser alguém na vida? Eliminando a hipótese mais romântica, que “o ser alguém na vida”, seria o “ser a vida de alguém”, o que é que nos resta?  O desempenho de uma séria de profissões socialmente aceites?  Uma educação colegial pautada por “Muitos Bons”, medalhas de mérito, aluno de quadro de honra, campeão das olimpíadas de matemática ou o vencedor do torneio europeu das composições?  Um advogado numa sociedade de renome, um engenheiro com um MBA a liderar uma multinacional ou um cientista bolseiro premiado nos EUA?  Sem desprimor para todo o brio que estes “seres de alguém” serão, e o consequente orgulho paterno-ó-maternal que o depósito frutuoso da nossa educação gera, não é nisto que penso quando desejo muito, que as minhas filhas, não sejam alguém, sejam apenas elas mesmas.  No limite, isto até pode parecer de um romantismo extremo, quase utópic…
Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado de onde se ouvem do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol.

Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo.

As palavras querem estar nos seus lugares!



josé de almada negreiros andaimes e vésperas poesia estampa 1971
Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha. s.d.





fernando pessoa livro do desassossego por bernardo soares. vol.I ática 1982
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma


Sophia de Mello Breyner Andresen

Nossa Senhora não veio cá para que a víssemos

P. Miguel Almeida, sj
http://observador.pt/opiniao/nossa-senhora-nao-veio-ca-para-que-a-vissemos/

Uma espiritualidade do concreto. O discernimento, característica sublinhante da sensibilidade espiritual inaciana em que o Papa Francisco tanto insiste, tem como elemento incontornável a realidade – como ela é e não como gostaríamos que fosse. Não por acaso, no seu primeiro documento, o Papa defende o princípio de que a realidade é superior à ideia. A realidade como ponto de partida e não como meta, isto é, não uma realidade que tem que ser abençoada como é, mas que tem que ser assumida na sua concretude para ser transformada. Condição sine qua non para qualquer discernimento é a liberdade interior. Essa liberdade de falar ou calar, de fazer ou estar quieto, de ir à direita ou à esquerda, sendo guiado apenas e só pelo que o discernimento ditar ser a vontade de Deus. Realidade e liberdade no espírito. Numa palavra, olhe-se para Francisco e percebemos a força do discernimento.
A atenção espir…
Há momentos assim. Decidimos fazer uma coisa e tudo contraria a nossa decisão. Ontem, ao ouvir Manuela Ferreira Leite, sorri. Ela afirmou no seu comentário semanal que, hoje, iria estar de olhos pregados na televisão, com imensa pena de não ter podido ir a Fátima. Sorri, porque tinha decidido fazer, exactamente, o mesmo... Oxalá ela tenha conseguido cumprir. Eu, pelo meu lado, só consegui ligar o aparelho, na intimidade da minha sala, eram seis horas da tarde e demorei algum tempo a libertar-me do incómodo de não ter podido faze-lo antes. Mas, uma vez liberta desse peso, segui até à hora em que escrevo estas linhas, todos os passos de Francisco peregrino, que chegou a Fátima como caminhante especial e se recolheu, terminado o terço, sentado ao lado do motorista, vincando bem, com essa atitude, que não queria que a atenção dos orantes se desviasse de Maria.  Será um pequeno gesto que, muito possivelmente, até terá passado despercebido de muita gente. A mim, tocou-me particularmente. E…
A madrugada desponta e mais um dia
Se prepara para o calor e o silêncio. No mar o vento da
madrugada
Encrespa-se e desliza. Eu estou aqui
Ou ali, ou algures. No meu começo.







T.S. Eliot
Uns fecham portadas,
e se encerram na paisagem.

Outros habitam quimeras,
extintos magmas interiores.

Eu vivo apenas fora de mim.

De longe
me chegam palavras
e nenhuma cabe
no oco da minha māo.
Apenas de outros me faço eu.

Espreito a rua
e, através de mim,
nāo vejo senāo gente
que nasce sem sonhos e vive sem vida.

Sou o homem sem janela:
o mundo está sempre do lado de cá.

A meu lado
nāo mora ninguém:
meus vizinhos
habitam todos dentro de mim.

Ao fim da tarde
porém, o céu se curva
para afagar o meu teto.

Em redondo dorso de cāo,
a meus pés se enrosca a solidāo.

É entāo que chegas,
e eu, enfim, regresso
para dentro de minhas paredes.

Só entāo tenho janela.


Mia Couto

Vou a Fátima

“Olho para o mundo e para os outros, para o futuro e para mim, e acho prudente proteger-me e aos que cativo com a necessidade de absoluto. Como julgo impudico esperar pela sensação da morte para procurar Deus, confio o meu coração aos seus próprios riscos. Por isso vou a Fátima, numa confusão de sentimentos unidos pela minha determinação, Vou a Fátima simplesmente porque sinto necessidade de ir e não quero aprisionar esse sentimento livre em nenhuma infatigável introspecção. Vou a Fátima porque o tempo e a razão me cercam: a esperança quer dar o lugar, parece que por sensatez, à ausência de expectativas relativamente aos outros, e eu quero resistir até o fim e merecer que outros resistam por minha causa. Vou a Fátima porque me inquieta um mundo sem espiritualidade e não quero deixar apenas às gerações futuras os rios e os mares limpos e as florestas e o lince da Malcata intactos, mas também o essencial do Homem, a alma, a sua secreta grandeza, aquilo que o distingue diante do mistéri…

Oh Senhor

Ó Senhor, que difícil é falar quando choramos, quando a alma não tem força, quando não podemos ver a beleza que tu entregas em cada amanhecer.
Ó Senhor, dá-me forças para poder encontrar-te e ver-te em cada gesto, em cada coisa desta terra que Tu desenhaste só para mim.
Ó Senhor, sim, eu seu preciso da tua mão, do abraço deste amigo que não está. Dá-me luz, à minha alma tão cansada, que num sonho queria acordar.
Ó Senhor, hoje quero entregar-te o meu canto com a música que sinto. Eu queria transmitir através destas palavras. Fico mais perto de ti.
~  O que o ICBAS junta, a vida não separa O Rapaz do UniRim, a Chefa e a Lu

Coisas que têm quereres

Miss Pati and Mister Puppy
Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma


As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo




Mia Couto
Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio — nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência.
Inês Pedrosa  Fazes-me falta
Arrumei os amores, é a primeira regra da vida - saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição - como a pátria.

Inês Pedrosa
Fazes-me falta
Por que te escolhi? Por que estaria ao teu lado em todas as ocasiões? Apenas porque ambos acreditávamos no poder transformador de cada ser humano sobre a terra — apenas isso. Essa escolha ética essencial empurrou-nos um para o outro. Mas a permanência dessa escolha para além das descobertas infaustas do quotidiano, eis o que já não tem explicação. Que tivéssemos nascido do mesmo lado da ponte das escolhas fundamentais não explica tudo. Porque há, apesar de tudo, uma multidão ao nosso lado. Há uma multidão de vozes uníssonas em todos os territórios da ética concreta onde se escolhem os amigos. Eu escolhi-te, sim, por causa de uma ou duas afinidades essenciais — mas essas afinidades não explicam toda uma história. 
Inês Pedrosa Fazes-me falta
mais um dia e já os encho de beijos
Timor 2017
Passei a vida inteira a querer interpretar-te - Oh! delicioso desperdício! - e nem sequer era por amor. Quero dizer, não era por causa daquela coisa que põe as pessoas numa exaltação de posse e de sexo. Através de ti eu existia antes de ter nascido, no vocabulário áspero e secreto de uma guerra que já não me pertenceu - moita carrasco, gatilhos olvidados, o tanas. Nem naquela noite em que despejámos sozinhos a tua preciosa garrafa de whisky velho irlandês e ficámos a ver a primeira demão do sol sobre os telhados de Lisboa nos ocorreu, sequer por um segundo, experimentar isso a que chamam vertigem do corpo. De certa maneira, sabíamos de cor o corpo um do outro; trocámos inibições e desaires como os miúdos trocam cromos. Mais do que alegria, era uma espécie de orgulho que nos estonteava nessa troca de intimidades funestas. Sem dormir contigo, aprendi de ti as vitórias e misérias de um homem, o rigor turbulento do prazer, o pavor de falhar, a relatividade das entregas como regra de entre…
Pensaste em mim enquanto morrias? Dava muito dinheiro por essa resposta - desde que fosse a verdade. Porque há a verdade - não é tudo tão relativo como tu querias ensinar-me. Há a verdade, e era isso o que nos unia; que houvesse a verdade, navio absoluto.

Inês Pedrosa
Fazes-me falta
Creio que nunca te vi doente - a não ser de amor. Cultivavas o vício da paixão com um método implacável. Corrias em contra-relógio. Procuravas a imobilidade de um tempo-pedra que já era o teu. O nosso - mas como podíamos dizê-lo, se tínhamos de continuar vivos? Nos breves dias em que vivias desapaixonada, tornavas-te impossível. Nada te entusiasmava.

Inês Pedrosa
Fazes-me falta
Tu dizias que era ao contrário: que Deus nasce da ignorância própria dos sofrimentos prematuros. Mas tu, meu aluno dileto, cedo te deixaste povoar pelo excesso do saber. Deus não sabia nada do Universo quando o criou. Imagino que se sentiria só. Imagino que num momento impreciso essa solidão se terá tornado maior do que Ele próprio, estourando numa gigantesca flor de luz. E imagino-O, depois, tentando dar um sentido particular a cada uma das pétalas dessa luz dispersa.

Inês Pedrosa
Fazes-me falta

When I need to get home, You're my guiding light, You're my guiding light.

Well the road is wide, And waters run on either side, And my shadow went with fading light, Stretching out towards the night.
'Cause the Sun is low, And I yet have still so far to go, My lonely heart is beating so, Tired of the wonder.
But there's a sign ahead, Though I think it's the same one again, And I'm thinking 'bout my only friend, And so I find my way home.
When I need to get home You're my guiding light, You're my guiding light.
When I need to get home, You're my guiding light, You're my guiding light.
Well the air is cold, And yonder lies my sleeping soul, By the branches broke like bones, This weakened tree no longer holds.
But the night is still, And I have not yet lost my will, Oh and I will keep on moving 'till, 'till I find my way home.
When I need to get home, You're my guiding light, You're my guiding light.
When I need to get home, You're my guiding light, You're my guiding light.
When I need to get home, You're my guiding light, You'…
Há espelhos em que nos encontramos Com outras roupas E a que trazemos vestidas são casualidades Com outro rosto E o que lavamos é cinza que sangra Com outro corpo E o que caminhamos é apenas destino
Há espelhos que nos têm Melhores do que somos
A minha vida, Senhor,
simples e direita como uma flauta
para que possas enchê-la,
enchê-la com a Tua música.

A minha vida,Senhor,
barro macio nas Tuas mãos,
para que possas dar-lhe forma,
a forma que quizeres.

A minha vida,Senhor,
semente livre no vento
para que possas semeá-la,
semeá-la onde quiseres.

A minha vida,Senhor,
madeira seca,
para que possas acendê-la
e arda para o pobre e para Ti!

http://zimborios.blogspot.pt/2010/07/minha-vida-senhor-simples-e-direita.html

A nossa cruz

Todos temos a nossa cruz. Não há cruzes maiores ou mais pesadas, mais esfarpadas ou mais injustas, mas apenas diferentes. Diferente pela maneira como decidimos abraçá-la, diferente pelo modo como a carregamos, diferente pelo sentido que lhe damos. Nesta semana em que vivemos a semana maior, mais conhecida por semana santa, acompanhamos, com fervor renovado, a paixão, crucifixão e morte de Jesus Cristo, morte que foi, simultaneamente, fim e princípio. Morte que conduziu à passagem, significado da palavra Páscoa, da humanidade de Cristo e, em Cristo, de toda a humanidade, redimida e ressuscitada pelo Pai, que nos deu a conhecer, à sua glória eterna. Naquela cruz, que foi motivo de escárnio e troça por parte dos romanos, escândalo por parte dos judeus e loucura por parte dos gentios, esteve a maior prova de amor da qual comungaram o Filho que entregou, livremente, a sua vida por uma humanidade ferida, o Pai que o recebeu e ressuscitou, recebendo também a nós como seus filhos, e o Espíri…
Quando Pedro diz “eu não conheço esse homem”, no fundo, está a dizer: “eu não me reconheço nesse Jesus Cristo frágil, vulnerável, impotente; não me reconheço nesse Jesus que se cala, e se deixa prender e maltratar”. E quem se poderia reconhecer em tal figura? A nossa tendência natural é juntar-nos aos fortes, aos poderosos, aos vencedores; temos aversão a toda a vulnerabilidade. Isso mostra como Jesus Cristo nunca poderia ser invenção humana. Nunca nos atreveríamos a pensar um Deus assim. Por isso, o melhor a fazer será: suspender o juízo, aceitar o incompreensível e acompanhar os acontecimentos: talvez aí a realidade nos alcance e nos dê a ver o que nunca vimos.
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Resistência

Acredito muito na resistência pelos detalhes, começando pelas pequenas coisas. Aqui no gabinete detenho o título da secretária mais organizada, mudei várias vezes de escritório e de colegas ,mas mantive o título. Quando se trata de gestão de tempo ou organização os meus genes são mais alemães do que um icebergue nos polos e não é raro o dia em que não me peçam para ser personal coach. Fiquei a matutar nisto. A multiplicação de termos como coach diz tanto acerca dos adultos que alguns se tornaram.
Vivemos uma era de adultos infantilizados que parecem precisar de alguém que lhe ensine a comer de forma saudável, a correr, a fazer amigos, a namorar, a organizar as gavetas. Ao reduzirmo-nos a adultos que precisam de amas – no fundo os coachs não passam de nannys – por total incapacidade de lidar com qualquer aspecto da vida, do sentimental ao profissional, de que prescindimos? Sobretudo da responsabilidade. E das escolhas que incluem frustrações e perdas por vezes. A vida é risco.“A falta…
Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.


Miguel Torga
Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer e renascer. Porque a minha força é imortal.

José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos

I'm a lost land in the blue

Sleeping knows no lie Wide awake or hides behind Your curtains in the morning Heavy drapes upon my mind Am I in too deep? Am I in too deep too soon? On the turn of a dime with the wind on a chime I'm a lost land in the blue I'm a lost land in the blue I'm a lost land in the blue Some things are best if kept in darkness Only true before the dawn Ghost ships, silent, deathly sting Before the canon storm Am I in too deep? Am I in too deep too soon? On the turn of a dime with the wind on a chime I'm a lost land in the blue I'm a lost land in the blue I'm a lost land in the blue I'm walking on the shore I'm walking 'neath the ocean blue I'm walking sometimes, somewhere It is beautiful Like a lost land in the blue Like a lost land in the blue Like a lost land in the blue Like a lost land in the blue
"Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem d…
Se me obrigassem a dizer porque o amava, sinto que a minha única resposta seria: ''Porque era ele, porque era eu''.
Michel de Montaigne
Terceira palavra de Cristo na Cruz, exclusiva de São João. Numa visão mais afectiva e devota poderia pensar-se que Maria seria uma preocupação para Jesus e, antes de morrer, entregava a sua mãe a João e João a sua mãe para que um guardasse o outro. De facto, ainda hoje em Éfeso, cidade onde se diz ter morrido São João, existe uma casa visitável, em que se diz que foi onde Nossa Senhora viveu os seus últimos anos, na companhia de São João. Mas a leitura interpretativa é bem mais teológica que afectiva. Maria é agora não só a mãe de Jesus mas a Mãe do Messias; por isso, esta entrega é simbólica de uma outra entrega, da Igreja a cada um de nós, simbolizado no discípulo amado, mas de nós a Maria, à Igreja, a Esposa, a Mãe. Junto à cruz começa uma nova maternidade: sem deixar de ser mãe de Jesus passa a ser, também, mãe da Igreja. Hoje, quero também entregar um rapaz aos cuidados de Maria. Irá precisar deles. E vou rezar por ele, para que encontre sempre na Igreja uma Mãe.
http://retalhos…
É doloroso por vezes chegar a casa, encostar o corpo,
fechar as pálpebras e sentir que a cabeça é um quarto vazio,
um desamor só e ferido, queimadura que chega ao coração

Joaquim Pessoa
A sua cara está manchada por lágrimas maquilhadas.
Eu e os outros aplaudimo-lo, sabendo
que é de bom tom aprovar quando um palhaço chora
e de mau tom quando o faz uma cara persistentemente
dorida sejam ou não pintadas as suas lágrimas.


Também é de bom tom, entre guerras,
dizer que o ódio é amor e o amor é ódio,
argumentar que tudo é mais complexo do que sonhámos
e depois dizer que não o sonhámos
sempre o soubemos e somos sensatos.


Caro palhaço choroso caro velho infantil
caro assassino gentil caro e inocente culpado
cara simplicidade odeio-vos por causarem que eu finja
que há vários mundos para uma verdade quando
eu sei, eu sei que não há. Pessoas como eu e vocês, meus caros,
que têm mau hálito, que adormecem e de intestinos
ruidosos que controlam a fé
que chegam à casa vazia ou entre a família,
cara família, caro homem solitário no mundo despedaçado de nin-
guém,
será para essa desolação que acumulámos palavras durante tantos
milhões de anos, desde o primeiro, gememos
e olhamos para as…
É tarde,
nenhum sono
repõe o que não vivi.

É tarde,
nenhum amanhã
cura a antiga ferida
que em nós sangra.

Agora,
que não há sonho
posso, enfim, dormir.

Agora
é tarde demais para morrer.

Agora,
resta um único desfecho:
de novo, acordar por dentro.

E acordar sempre
até que volte a ser cedo.


Mia Couto
As coisas sonhadas só têm o lado de cá... Não se lhes pode ver o outro lado... Não se pode andar à roda delas... O mal das coisas da vida é que as podemos ir olhando por todos os lados... As coisas de sonho só têm o lado que vemos... Ter amores só puros como as nossas almas...
s.d.


Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa.

O amor liga o finito ao infinito

Para sermos felizes, o amor faz quase tudo e nós quase nada. Mas o amor só dá o seu quase tudo depois de nós darmos o nosso quase nada.

O amor é a semente viva do nosso sangue. Aquilo que faz com que entreguemos o que somos e temos. Tudo. A vida e o tempo, sem atrasos ou grandes dúvidas.

O amor é um reconhecimento de mim no outro e do outro em mim. Contemplar as profundidades escondidas do coração é admirar o céu que existe no mais íntimo do íntimo de todas as pessoas. É aí que se esconde e se revela o divino em cada um de nós.

O amor exige-nos tudo. O nosso tudo que é pouco face ao tudo que será nosso se formos capazes de amar. Esperando contra todos os desesperos e sonhando apesar de todas as angústias.

Quando alguém ama torna-se livre. Voa, por fim, aliviado do peso das coisas insignificantes a que tantos chamam essenciais.

A felicidade não é o que acontece depois de se ter alcançado tudo o que se deseja. Passa, sim, pela capacidade de sermos gratos por aquilo que já temos e pela paciên…
Somos capazes de tudo, mesmo tudo, para escapar à dor. Até criar mundos paralelos. Resultado? Evadimo-nos da nossa interioridade e declaramos guerra à realidade. Com isso entramos em sofrimento e semeamos sofrimento à nossa volta. E enquanto teimamos nisso a situação arrasta-se: porque aquilo a que resistimos, persiste. Aquilo que não aceitamos, prende-nos. Aquilo de que fugimos, persegue-nos. E, enquanto preferimos gastar energias nessa resistência, nesse braço de ferro, nessa fuga, tudo bloqueia. A solução? É simples: devo aprender a aceitar, integrar e atravessar as dores próprias do caminho.
Ver para além do olhar (facebook)
Dizemos «Sophia» como se esta palavra fosse sinónimo absoluto de poesia. Dizemos «Sophia» e a nossa memória enche-se do som que as palavras têm. Dizemos «Sophia» e de repente o ar é límpido, as águas transparentes, há sempre uma casa na falésia e o sol faz rebentar o calor na cal das paredes. Dizemos «Sophia» e todas as flores e todos os peixes têm nome, e as crianças tornam-se mais ricas quando os encontram. Dizemos «Sophia» e não precisamos de dizer mais nada.

Alice Vieira
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.


É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas


Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.


Daniel Faria
homens que são como lugares mal situados
Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos


Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.

Ana Luisa Amaral
Hesito no caminho.
Ninguém segue este rumo…
É noutra direcção
Que o vento leva o fumo
Das paixões…
Chegar, sei que não chego,
De nenhuma maneira;
Mas queria ao menos ir no lírico sossego
De quem não se enganou na estrada verdadeira.


E não vou.
Cada vez mais sozinho
Na solidão,
Duvido da certeza dos meus passos.
Vejo a sede ancestral da multidão
Voltar costas às fontes que pressinto,
E fico na mortal indecisão
De afirmar ou negar o cego instinto
Que me serve de guia e de bordão.




miguel torga
câmara ardente
1962

Máscaras D’Orfeu

Finjo Finjo tanto
Que até a pensar finjo que penso Finjo tanto, que fujo em cavalos de fumo
Num galope de gazela de vento, com olhos de lua
E lágrimas húmidas de mundos tristes
Só para imitar beleza de imagens que nunca tive (momento doce nesta tempestade subterrânea) Agora...
Agora a infância já me fica tão distante
Mas mesmo assim, continuo a vestir o bibe das riscas azuis
Com que me vou enlamear no pântano mais próximo
Para saborear o medo e a inocência
De quem é condenado por julgar estrelas
As pedras humilhadas desta rua que outrora me pertenceu Construo cidades de água e jardins transparentes
Onde planto flores de sono, que amo e possuo
Num acto único de metamorfose selvagem E finjo
E finjo a coragem que não tenho
No retrato mentiroso da moldura onde me exibem
Com o sorriso irónico da punhalada traiçoeira (Futuro génio da família… dizem eles) Promoção gratuita na condição de nunca ser eu
Mas sim, o cadáver ambulante da sua vontade Querem-me vestido de carne à sua semelhança!
Na…

Como Ela morre

‘Como Ela Morre’: Um manual de sobrevivência http://www.comunidadeculturaearte.com/como-ela-morre-um-manual-de-sobrevivencia/

22 MARÇO, 2017 - DIOGO SOTTOMAYOR




“Todas as famílias felizes são parecidas, cada família infeliz é-o à sua maneira”
Liev Tolstói, em Anna Karénina

Anna Karénina, de Lev Tolstói, é uma caixa de pandora; abri-la liberta essências e aromas que alteram a forma como vemos o mundo e as relações humanas.

A proposta de “Como Ela Morre” é ver o efeito dessas páginas em dois casais: um casal português, em 1967, altura em que ela começa a ler o romance, e um casal flamengo, em Antuérpia, em 2017, quando ele lê o romance. Estas páginas parecem encerrar em si não personagens mas pessoas reais, com as quais convivemos ao longo da obra e ao longo da vida. A marca que nos deixa é indelével e inegável. Eles passam a ser coisas palpáveis através dos nossos sentidos.

Esta produção, que nasce da colaboração entre o Teatro Nacional D.ª Maria II e os “tg STAN” – o mesmo é dizer “toneelspe…
Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu...

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.


Mia Couto
Não é a tua mão  filha 
que eu levo  na minha mão 
é uma raiz 
que eu planto  em mim mesmo

António Reis,  in 'Novos Poemas Quotidianos'
Mini-Happy-Pati

Coisas que têm quereres

Aceitando comer e beber com os pecadores, Jesus está a infringir o poderoso sistema de pureza. Mas a verdade é que o gesto de Jesus não é apenas de rutura, mas de afirmação de uma nova experiência de Deus. Na linha da abrangência universalista do banquete messiânico que os profetas projetaram para o futuro, Jesus reivindica para o seu hoje uma vivência religiosa que vá além do reforço da legalidade, promovendo que os excluídos regressem à amizade de Deus.
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Há um provérbio que diz: «Viver sem amigos é morrer sem testemunhas.» Os amigos trazem à nossa vida uma espécie de atestação. Os amigos sabem o que é para nós o tempo. Eles testemunham que somos, que fizemos, que amamos, que perseguimos determinados sonhos e que fomos perseguidos por este ou aquele sofrimento. E fazem-no não com a superficialidade que, na maior parte das vezes, é a das convenções, mas com a forma comprometida de quem acompanha. O olhar do amigo é uma âncora.
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É sempre uma sede de liberdade que nos acorda para…

A Quaresma é sinal de mais

Às vezes entramos na Quaresma a fazer uma lista do que vamos retirar. Ou, sem termos consciência disso, entramos com um ar triste e pesado. São 40 dias. É muito tempo no deserto.


Mas a Quaresma não é sinal de menos. De pouco nos servirá tirar o chocolate da nossa alimentação, reduzir refeições, evitar festas, tirar coisas boas da agenda e penar. Passaremos mais tempo a pensar no que é de menos em vez de acolhermos a proposta de pensar no que nos pode conduzir a sermos mais (+).

A Quaresma é por isso, pela Cruz, sinal de mais. De adição. De adição de uma oportunidade, de um tempo, de um espaço, de um desafio, para o qual muitas vezes não estamos disponíveis. "Não temos tempo!"

A Quaresma é sinal de mais. De somarmos à nossa vida mais tempo para estar e ouvir os outros, mais espaço para nos sentarmos com Deus e ouvirmos em vez de começarmos nós a conversa, mais ânimo para as tarefas que custam e que nos levam horas de queixumes, mais vontade de amar apesar das dores e fragilidad…
"Oxalá, Senhor, que oiças a minha voz.
Aqui estou.
Sem grandes palavras para dizer.
Sem grandes obras para oferecer.
Sem grandes gestos para fazer.
Receberei o que me queiras dar:
Luz ou sombra. Sorte ou adversidade.
Alegria ou tristeza. Calma ou dificuldade.
E receberei sereno,
Com um coração sossegado,
Porque sei que Tu, meu Deus,
Também és um Deus pobre.
Um Deus que não exige, mas que convida.
Que não força, mas que espera.
Que não obriga, mas que ama.
E eu farei o mesmo no meu mundo,
Com os meus amigos, com a minha vida:
Aceitar o que vier como um presente.
Eliminar do meu dicionário a exigência.
Perguntar aos outros: 'O que precisas?'
'Que posso fazer por ti?'
E dizer poucas vezes 'Quero' ou 'Dá-me'.
E assim avanço, Deus.
Aqui, sem mais nada.
Em silêncio.
Contigo, meu Deus pobre.


Nuno Branco sj
Não é a luz que acendo.
Acabei, sim, de acender a noite.

Num instante,
o teto se torna céu
e o escuro se torna leito.

A noite é escassa
para tanta saudade.

Saudade
da espreguiçada noite dos trópicos,
saudade
da noite com vagar para não dormir,
saudade
da noite com tempo para esquecer o tempo.

A gente desta cidade
sonha depressa e pouco.
Tão depressa
que o sono fica isento de pecado.

De manhã, despertam
com o sonho ainda a meio,
como quem é surpreso
de braço dado com o demónio.

E contam os sonhos a um médico
com se de doença se expurgassem.

Desconhecem
o atentado contra a poesia:
a lembrança do sonho
mata o termos sonhado.

Esta claridade de meia-noite,
este poente que nunca encontra sol,
foram feitos para te roubar da distância.

Nenhuma geografia me vence:
neste matinal crepúsculo
eu te desenho, luar de sombra.

E já não é nem pecado nem sonho:
és tu que acendo
num quase ocaso de Estocolmo.


Mia Couto
"Aos outros, dou o direito de ser como são. A mim, dou o dever de ser cada dia melhor."




Chico Xavier

Coisas que têm quereres

No final do caminho, apenas me perguntarão: «Amaste?» E eu não direi nada. Abrirei as mãos vazias e o coração cheio de nomes.
http://gasafricaporto.page.tl/P%E1gina-Inicial.htm

Hoje

Que maravilha!

Coisas que valem tudo!

Fragmentos

"Soy raíces pero también ramas que buscan su cielo"

TV 2 | All That We Share

Tu eras também uma pequena folha que tremia no meu peito. O vento da vida pôs-te ali. A princípio não te vi: não soube que ias comigo, até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, se uniram aos fios do meu sangue, falaram pela minha boca, floresceram comigo.
Pablo Neruda
Há dias que eu odeio
        como insultos a que não posso responder
sem o perigo duma cruel intimidade
coma mão que lança o pus
que trabalha ao serviço da infecção
São dias que nunca deviam ter saído
do mau-tempo fixo
que nos desafia da parede
dias que nos insultam que nos lançam
as pedras do medo os vidros da mentira
as pequenas moedas da humilhação


Dias ou janelas sobre o charco
que se espelha no céu
dias do dia-a-dia
comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
o sono centenário
mal vestido mal alimentado
para o trabalho
a martelada na cabeça
a pequena morte maliciosa
que na espiral das sirenes
se esconde e assobia


Dias que passei no esgoto dos sonhos
onde o sórdido dá as mãos ao sublime
onde vi o necessário onde aprendi
que só entre os homens e por eles
vale a pena sonhar




alexandre o’neill
tempo de fantasmas
cadernos de poesia
novembro de 1951

Coisas que têm quereres

Where’s somewhere I can cross the sea In a land that’s lost and free With my darling close to me At least where I’m supposed to be.(someday)
Yeah somewhere on the ocean breeze And around the swinging trees You’re the only one for me That is where I long to be.
Somedaaay..
You’re somewhere out upon the beach Out of range and out of reach With the truest love of mine Underneath the bluest sky.
Yeah far away from any time We’ll watch the lazy sun go down With my sweetheart I lay down That is where I will be found.
Someday