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A mostrar mensagens de 2017
Do outro lado da casa, as crianças brincam com o tempo
que corre para que elas não brinquem com ele. Na casa
ao lado, um cão vê o tempo a passar e ladra-lhe
para ele fugir como se fosse um ladrão. Na rua, o mendigo
pede a toda a gente a esmola de um tempo, e toda
a gente diz que não tem tempo para lhe dar. No café, peço
uma chávena de tempo, curto e bem forte
porque não tenho tempo para dormir, mas
ao meu lado há quem peça uma chávena bem cheia
de tempo para que o tempo demore a beber. Há
quem corra por falta de tempo, e o tempo vai
atrás dele para o apanhar. No metro, a rapariga
atravessa o cais, devagar, como se tivesse mais tempo
do que todos os que contam o tempo para
não lhes descontarem no tempo. E quando me perguntam
se tenho tempo, olho para o relógio, como se ele
estivesse cheio de tempo, e peço que tirem de dentro
dele todo o tempo, e que o esvaziem até ao último segundo,
para eu ficar com tempo para
ver quanto tempo já passou.


Nuno Júdice
Opinião Miguel Araújo
Crónica publicada na VISÃO 1287 de 2 de novembro http://visao.sapo.pt/opiniao/2017-11-09-Carta--a-minha-filha
Minha filhinha,
Estás a dias de sair da barriga da tua mãe e ainda nem sequer tens nome. Ias ser Salomé, o tempo todo ias ser Salomé, porque era o nome da tua bisavó, avó da mãe, que a mãe adorava, mas agora parece que já não vais ser. A mãe lembrou-se de telefonar à tia avó, única irmã da tua bisavó Salomé, e pelos vistos a tua bisavó detestava o nome. Além disso, o nome tinha sido escolhido por uma madrinha que afinal acabou por se revelar uma bruxa, parece. Por isso não, já não vais ser Salomé. A mãe e eu andamos para aqui à volta com nomes (a mãe é um bocado indecisa, é uma coisa de família, tu já vais perceber.) Mas havemos de te arranjar um nome bonito. (Eu trato-te por tu, espero que não te importes, deste meu lado da família é pessoal da Maia e na Maia é tudo tu-cá-tu-lá). 
A mãe está com uma barriga gigante, maior do que quando foi dos manos, e …
Tira-me uma dessas fotos que tiras,
embacia a objectiva, desfoca
um pouco e mede mal a luz. Agora
que termina o dia não é difícil
eu sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me veja
pense que posso merecer a pena.
E sobretudo, que o que impressione
nessa foto não seja eu, que estou
ali, mas os teus olhos que a tiraram.




amália bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013
http://illustrati.logosedizioni.it/numeri/40/
Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo

De o transformar. Este é o dia transformado

Pelo modo como apoio este dia no chão.

Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra

Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo

Na atenção.




E fico atento, fico deitado porque não sei crescer

Num terreno que se levante.

Cresço na clareira de um homem que é uma palavra

Na sua túnica inteira

Porque este é o sítio do dia sem horário




Sem divisões




E ponho-me de frente no seu lado,

Nos seus braços abertos para me unir

E entro pelo lado aberto e ardo – como Elias

Em chamas subindo para o céu.




Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão:Quasi, 2003
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

Mário Quintana
Como fazer-te saber que há sempre tempo?



Que temos que buscá-lo e dá-lo…
Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente… Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos …
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
... Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.








Sophia de Mello Breyner Andresen
Liberdade não é ter jaulas maiores; é não ter jaulas. Qualquer pássaro sabe que amar não implica repartir uma jaula; implica partilhar um céu.
Pedro Chagas Freitas

All I can do is try

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão
Há problemas tão graves, situações pessoais tão dolorosas e complexas, que Cristo disse: "Intervir aí só com muita oração!" Que quer isso dizer? Que vamos pedir milagres? Não. Quer dizer que há coisas a que só se chega quando se vêem como Deus as vê e que só se curam com o amor com que Deus ama.

Pe. Vasco Pinto de Magalhães,sj
Não há soluções, há caminhos

Coisas que têm quereres

Vivemos cheios de perguntas

"Vivemos cheios de perguntas. De perguntas para as quais não conseguimos respostas, a maior parte do tempo. Por vezes, são tantas as perguntas sem resposta, que se transformam numa espécie de ruído surdo, difuso. Como em (quase) tudo, importa perceber. E, uma coisa muito importante: perceber que nem sempre dá para perceber. E que, face a algumas perguntas, o melhor que se pode fazer é mesmo isso: não querer perceber. Uma coisa que só vem com o tempo e com umas quantas experiências, creio. Porque a nossa tendência natural é para esclarecer, dizer, ouvir, circunstanciar. O mais que se puder, por se pensar que é esse o caminho da paz, por mais difícil que às vezes possa ser. E não. Com o tempo, vamos aprendendo que nem sempre esse é o caminho da paz. E, que, por vezes, o melhor é não querer entender coisa nenhuma que não tenha uma explicação que não seja só água, de límpida. Porque esse é um caminho que não vai levar a sítio nenhum. Um caminho que nos desvia de outros caminhos. Mas,…
Se eu vir aquela árvore como toda a gente a vê, não tenho nada a dizer sobre aquela árvore. Não vi aquela árvore.

Álvaro de Campos
Estamos no meio de uma certa confusão. Ingleses a querer sair da Europa, catalães a querer sair de Espanha, homens e mulheres a quererem sair do seu corpo e, pior que isso, pessoas que se dividem entre “a favor” e “contra”. Tenho dado por mim a pensar que, na origem deste basqueiro, está uma ideia de educação que gostaria de chamar “safa-te!”.
No último século, uma certa educação aposta tudo para que a criança se torne numa pessoa adulta autónoma e independente, ou seja, que não tenha vínculos que a determinem nem a constrinjam. A antiga ideia da sociedade que corrompe o homem singrou e teve como consequência a educação de gerações na consciência da máxima “safa-te”. E, para se safar, uma pessoa tem de ser capaz de fazer tudo sozinha, sem depender de ninguém; quanto mais sozinho, mais valor tem!
Só que a educação “safa-te!” não previu os resultados deste individualismo e destas autodeterminações… As tais pessoas independentes e autónomas, os ingleses, os catalães, I mean… nós! Nós es…

Efemeridade do tempo

Havia um berço de ferro para onde iam todos os bebés que nasciam naquela casa em várias gerações.
Nasciam na cama dos pais e era ali que passavam a dormir, ao lado. Era branco, de ferro, com rosáceas na cabeceira e os pés em baloiço. Alguns desses bebés nunca chegaram a ter outra cama. O luto dessa morte era feito com a chegada de outro bebé.
E a vida continuava até que uma geração já não quis usar o berço usado e o berço foi para a casa onde se guardavam as batatas. cheguei a embalar-me nele aí, no fresco das telhas vãs,na brincadeira e uma penumbra que ficava bem com aquela cama. Eu pertenço à geração que já não foi para esse berço.
Até que um dia a adega deixou de receber batatas, a telha vã foi substituída por uma placa e a geração a que pertenço deixou de plantar batatas. A mesma geração que parece morrer de medo da penumbra.
O berço? Deve estar num sítio onde ninguém sabe a história dele nem os nomes de todos os que lá nasceram.
Isabel Lucas https://puroacaso.wordpress.com/2017…
Plantar um bosque! Um dia destes passeava numa propriedade de um amigo, jovem agricultor entusiasta. Está a plantar uma mata nova. Eu ia andando e olhando aqueles paus espetados que me pareciam todos iguais. Mas o meu amigo, orgulhoso da sua obra, ia dizendo coisas. "Aqui temos um carvalho, aquele é um castanheiro-da-índia, além são nogueiras." Lembrei-me então da frase de São João: "Já somos filhos de Deus, mas ainda não se vê nada do que havemos de ser!" Mas há quem saiba ver, e neste ver já o que não é está todo o segredo da fé e da esperança.
Pe. Vasco Pinto de Magalhães sj Onde há crise, há esperança
"primeiro acredita, porque é assim que tudo começa. depois descomplica, porque é assim que tudo avança. a seguir confia, porque é assim que respiras fundo. e já na estrada, de mangas arregaçadas e olhar focado no caminho, ajusta a tua bússola. marca o teu ritmo. pelo caminho, abraça muito. ao longo da viagem, sê mais do que construtora da tua vida: sê também cuidadora.(...)"
http://www.asnovenomeublog.com/2017/09/tu-mereces.html
«Por onde quer que as nossas vidas sigam. Por mais longe que elas se declinem, há sempre o lugar de onde viemos. O lugar onde existimos desde o início, com todos os nossos inícios. Muito importantes, os lugares onde construímos as nossas ilusões primeiras. Mesmo que se desfaçam, nada nem ninguém pode alterar o sítio inicial onde foram acalentadas como matéria preciosa. Os cenários onde nos projectámos no mundo lá de fora. Os lugares onde dissemos muitas vezes, quando eu for grande, quando eu for grande, quando eu for grande.»

http://d-amar.blogspot.pt/2017/10/vouzela-continua-linda.html
Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Sophia de Mello Breyner Andresen
À vinda do supermercado
diz-me o pequeno monstro
que às vezes me faz companhia:
«E qual é a tua razão de ser?»


Na rua, a tarde rola devagar
entre prédios murchos — e ele
acrescenta: «Não me digas
que são os versos.»


E ri-se







Rui Pires Cabral
"Broken crayons still color"

"Coisas que têm quereres"

I am sorry this is always how it goes The wind blows loudest when you've got your eyes closed But I never changed a single colour that I breathe So you could have tried to take a closer look at me I am tired of punching in the wind I am tired of letting it all in And I should eat you up and spit you right out I should not care but I don't know how So I take off my face 'Cause it reminds me how it all went wrong And I pull out my tongue 'Cause it reminds me how it all went wrong I am sorry for the trouble, I suppose My blood runs red but my body feels so cold I guess I could swim for days in the salty sea But in the end the waves will discolour me So I take off my face 'Cause it reminds me how it all went wrong And I pull out my tongue 'Cause it reminds me how it all went wrong And I cough up my lungs 'Cause they remind me how it all went wrong But I leave in my heart 'Cause I don't want to stay in the dark So I take off my face 'Cause it reminds me how it all went wrong …
Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles, in 'Vaga Música'

Coisas que têm quereres

Dá-nos a tua paz

Dá-nos a Tua paz,
Deus Cristão falso, mas consolador, porque todos
Nascem para a emoção rezada a ti;
Deus anti-científico mas que a nossa mãe ensina;
Deus absurdo da verdade absurda, mas que tem a verdade das lágrimas
Nas horas de fraqueza em que sentimos que passamos
Como o fumo e a nuvem, mas a emoção não o quer,
Como o rasto na terra, mas a alma é sensível...
Dá-nos a Tua paz, ainda que não existisses nunca,
A Tua paz no mundo que julgas Teu,
A Tua paz impossível tão possível à Terra,
À grande mãe pagã, cristã em nós a esta hora
E que deve ser humana em tudo quanto é humano em nós.
Dá-nos a paz como uma brisa saindo
Ou a chuva para a qual há preces nas províncias,
E chove por leis naturais tranquilizadoramente.
Dá-nos a paz, porque por ela siga, e regresse
O nosso espírito cansado ao quarto de arrumações e coser
Onde ao canto está o berço inútil, mas não a mãe que embala,
Onde na cómoda velha está a roupa da infância, despida
Com o poder iludir a vida com o sonho...
Dá-nos a tua paz.
O mundo é incerto e…
They say home is where the heart is But my heart is wild and free So am I homeless Or just heartless? Did I start this? Did it start me?



They say fear is for the brave For cowards never stare it in the eye So am I fearless to be fearful Does it take courage to learn how to cry
So many winding roads So many miles to go And oh
Oh they say love is for the loving Without love maybe nothing is real So am I loveless or do I just love less
Oh since love left I have nothing left to fear
So many winding roads So many miles to go
When I start feeling sick of it all It helps to remember I’m a brick in a wall Who runs down from the hillside to the sea When I start feeling that it’s gone too far I lie on my back and stare up at the stars I wonder if they’re staring back at me
Oh when I start feeling sick of it all It helps to remember I’m a brick in a wall Who runs down from the hillside to the sea When I start feeling that it’s gone too far I lie on my back and stare up at the stars I wonder if they’re staring back at me

"Guardar só o que é bom de guardar"

Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.


Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio d’Água
É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, para lhe dizer adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.


1920?

alberto caeiro
poemas inconjuntos
poemas completos de alberto caeiro
fernando pessoa
presença
1994
Um dia há um vulgar homem na falésia, um pássaro cantando na varanda, uma simples fissura na parede – e levantamos uma pedra, uma casa. Parecemos ratos se não estivermos atentos, porque é Deus a provocar as evidências, batendo no joelho com a Sua larga mão. “Até que enfim!” – e faculta-nos o dom de um vislumbre e lança-nos depois em novas trevas.





carlos poças falcão sinais arte nenhuma (poesia 1987-2012) opera omnia 2012
Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.


E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.








José Miguel Silva

"Guardar só o que é bom de guardar"

Há a saudade
e há a saudade que vos pertence

Pardalitos dos meus olhos!

Zumalai, Agosto de 2017



"Guardar só o que é bom de guardar"

"Mister, mister, photography!"

O sorriso deles quando percebiam que falávamos português...

Dili, 21 de Agosto de 2017

Podia ver isto todos os dias...

Why did you stop loving life? Well, you don't love life itself. You love, uh, places, animals, people, memories, food, literature, music. And sometimes you meet someone... who requires all the love you have to give. And if you lose that someone, you think everything else is gonna stop too. But everything else just keeps on going. Giraudoux said, you can miss a single being, even though you are surrounded by countless others. Those people are like... like extras. They cloud your vision, they're a meaningless crowd. They... They're an unwelcome distraction. So you seek oblivion in solitude. But solitude only makes you wither. So I'm an unwelcome distraction. I'm a cloud? You are the only part of my life I haven't figured out yet.

"Guardar só o que é bom de guardar"

"Précisa foto"

Zumalai, Agosto de 2017


Das favoritas desde sempre

Even if a day feels too long
You feel like you can't wait another one
You're slowly givin' up on everything
Love is gonna find you again Love is gonna find you, you better be ready then You been kneelin' in the dark for far too long
You've been waitin' for that spark, but it hasn't come
Well I'm callin' to you, please, get off the floor
A good heart will find you again A good heart will find you, just be ready then Tethered to a bird of sorrow
A voice that's buried in the hollow
You've given over to self-deceivin'
Your prostrate bowed would not be leavin'
You've squandered more than you could borrow
You've bet your joys on all tomorrows
For the hope of some returnin'
While everything around just burnin' Come on, we gotta get out, get out of this mess we made
And still for all our talk, we're both so afraid
Will we leave this up to chance, like we do everything?
Love is gonna find us again Love is gonna find us, we gotta be ready then Te…
Não ter um Deus
não ter um túmulo
não ter nada de certo
mas apenas coisas vivas que nos fogem –
existir sem ontem
existir sem amanhã
e cegar no vazio
– socorro –
pelo sofrimento
que não tem fim –



Antonia Pozzi

"Guardar só o que é bom de guardar"

Meysi

Montanha, Zumalai, Agosto de 2017
Cada um de nós nasce com um artista lá dentro. Um poeta, um escultor, um aventureiro... um cientista, um pintor, um arqueólogo, um estilista, um astronauta, um cantor, um marinheiro. E o sonho e a distância, e o tempo e a saudade deram-nos vida, amor, problemas, mentiras e verdade; e damos por nós mesmos descobrindo que agora, se calhar, já é um pouco tarde. E nas memórias velhas e secretas da menina morou sempre aquele sonho de um dia ser... bailarina, actriz, modelo, princesa, muito rica; eu sei lá! Mas os anos correram num assombro, e a vida foi injusta em qualquer jeito para a chama indelével que ainda arde. E os filhos são bonitos no seu peito. Pois é... mas agora... agora já é tarde. E nos papéis antigos que rasgamos há sempre meia dúzia que guardamos. São os planos da conquista do Pólo Norte que fizemos aos sete anos, escondidos no sótão uma tarde, e estiveram perdidos trinta anos. E agora, se calhar, maldita sorte! Por desnorte, acaso ou esquecimento, alguém já descobriu o Pó…

"Guardar só o que é bom de guardar"

"Senhor José", era assim que o chamava nas aulas. Foi o meu anjinho da guarda pequenino desde o início, mesmo estando longe de o saber.

Tenho saudades tuas, Josésito! Como não tê-las?

Zumalai, Agosto de 2017


Camon, o menino do sorriso-luz

Zumalai, Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Espetáculo Final

Turma do meu coração.


"Era um mundo novo
Queria conhecer
Ir até ao fim
Contar novas histórias

Conhecemos os povos irmãos
Vamos todos cantar a canção
Partilhamos sorrisos, dias felizes
Em Timor, terra de dom

Já fui ao Brasil
Praia e Bissau
Angola, Moçambique
Goa e Macau
Já fui até Timor
Para espalhar o amor"

Zumalai, 19 de Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

"Aula de Corpo Humano"

Zumalai, Agosto de 2017


"Guardar só o que é bom de guardar"

Ezi e Açan

Zumalai, Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Na minha terra do nunca és tu o Peter Pan.

Tashilin, 30 de Julho de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

A "Mãe São" e a "Filha do Norte".

Suai, 15 de Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Afonsinho, meu anjo da guarda Timorense


Zumalai, Agosto de 2017


"Guardar só o que é bom de guardar"

Minha querida D. Júlia.


Zumalai, 20 de Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Aula de Música
Sempre juntas! Até na rouquidão...

Zumalai, Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Que nunca ninguém te roube esse sorriso, meu Peter Pan.

Venâncio
Raimea, 13 de Agosto de 2017


Eu
Quando olho nos olhos
Sei quando uma pessoa
está por dentro ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

Paulo Leminski
O mais
importante na vida
É ser-se criador - criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.


António Botto
Recordo-me de descobrir que num poema era preciso que cada palavra fosse necessária, as palavras não podem ser decorativas, não podiam servir só para ganhar tempo até ao fim do decassílabo, as palavras tinham que estar ali porque eram absolutamente indispensáveis. Isso foi uma descoberta.

Sophia de Mello Breyner Andresen

"Guardar só o que é bom de guardar"

Ir. Palmira e Ir. Teresa

Dili, 22 de Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Meu coração doce

Basília
Zumalai, 19 de Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Gangada boa!
Suai, 15 de Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Peddy-Paper

Zumalai, 4 de Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Leonita
Tashilin, 6 de Agosto de 2017

"Guardar só o que é bom de guardar"

Muito bom!

Hoje

Coisas que têm quereres

"E a gente é só passageiro prestes a partir"

Não é sobre ter todas as pessoas do mundo p'ra si É sobre saber que em algum lugar, alguém zela por ti É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós
É saber se sentir infinito Num universo tão vasto e bonito, é saber sonhar Então fazer valer a pena  Cada verso daquele poema sobre acreditar
Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações E assim ter amigos contigo em todas as situações

A gente não pode ter tudo Qual seria a graça do mundo se fosse assim? Por isso eu prefiro sorrisos  E os presentes que a vida trouxe para perto de mim
Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar E sim sobre cada momento, sorriso a se compartilhar Também não é sobre correr contra o tempo pra ter sempre mais Porque quando menos se espera, a vida já ficou pra trás
Segura teu filho no…
Todas as minhas fontes vêm de ti
As nascentes
E amo-te com a constância do moribundo que respira
Já sem saber de que lado o visita a morte


Procuro a ligação entre ti e a luz muito miudinha depois dos temporais
Entre a luz e os estilhaços nas ruas bombardeadas
Desconheço o colar onde unes tudo


Procuro entender como é que moldas
Os meus pés ao equilíbrio que os desloca no chão
Sei que és tu que me levantas
Que remendas o meu corpo cada dia


Em ti encontro a pulsação
Que rebenta - uma artéria como nunca
Tinha jorrado. Cratera onde durmo
Recluso, árvore à chuva
Em dificuldade extrema
De respiração


Ponho a cabeça entre os ramos, lanço os braços para fora
Como um pássaro entre um bando
De disparos


Tu moves as agulhas, tu unes de novo
As minhas asas à curva do céu












Daniel Faria

Coisas que têm quereres

Duas luas no céu na palma da mão

Duas luas no céu e duas canções Dois olhares que se cruzam a procurar Um sol um luar E todos os lugares onde a luz se pode abraçar
Doze luas em ti e sete marés Sete barcos navegam a procurar Um porto uma praia Talvez no fim do mar onde alguém nos venha esperar
Vem comigo no rasto de sol Eu vou contigo Vem comigo do outro lado das muralhas Eu vou contigo
Duas luas no céu na palma da mão Dois olhares que se entregam até ao fim Do corpo e da alma Em todos os lugares onde o mundo me fala de ti
À tua volta há luz de sete luares Sete barcos navegam para encontrar Um fogo um calor Talvez no fim de tudo haja força pra recomeçar Vem comigo no rasto de sol Eu vou contigo Vem comigo do outro lado das muralhas Eu vou contigo
Duas luas no céu e duas canções Dois olhares que se cruzam a procurar Um sol um luar E todos os lugares onde a luz se pode tocar
Vem comigo no rasto de sol Eu vou contigo Vem comigo do outro lado das muralhas Eu vou contigo


Coisas que têm quereres

"Esqueces que às vezes,

quando falha o chão, o salto é sem rede e tens de abrir as mãos. 


“Tivemos partes piores, alturas tristes, deprimidas e mal escritas. Folhas rasgadas e deitadas para o lixo, umas a seguir às outras. Mas também tivemos momentos altos e emocionantes, de palavras bem escolhidas e aplaudidas. E vezes em que ficámos sem palavras. E vezes em que as inventámos, porque não nos chegavam as que tínhamos. Porque o que existe não é suficiente, nem nunca vai ser. É por isso que nós ainda somos nós. É por isso que o que vemos, o que temos e o que sabemos não é uma reflexão do que somos. Porque não chega.”
Rita Abecasis

Porque sim

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.



Fernando Pessoa - Álvaro de Campos
http://derrotarmontanhas.blogspot.pt/2017/06/o-fascinio-da-beleza.html
"A beleza salvará o mundo..." [F. Dostoievski]
"O estatuto primordial da beleza reside no dom desinteressado e no ato de amor. O gesto de amor é sempre belo. Aqui se funda o princípio da beleza de Deus: o dom supremo da sua vida por nós. Um dom de amor é o esplendor do fundamento que nos faz vibrar e nos seduz.  É necessário lutar com a beleza de Deus; ela não é uma graça barata, vulgar, mas de elevado preço, preciosa. Pois não basta olhar: diversos são os modos de olhar; não basta tocar: muitas são as maneiras de tocar. (...) Eis a tarefa que nos espera: reanimar o entorpecimento do gosto de Deus, que aflige os nossos sentidos espirituais. 

A vida não avança por investidas da vontade, mas por atracção. Sou cristão por uma atracção: «Quando for erguido da terra, atrairei todos a mim» (Jo 12,32) A vida não avança por imposições, mas por seduções. E a paixão, a atracção, a sedução nascem de uma beleza…

Coisas que têm quereres

Por vezes a palavra saudade não chega para dizer a saudade que vem de repente. É das  mais cruéis, mas também das mais doces.
Tenho saudades ti, Moçambique!
Diz a mãe: a vida faz-se como uma corda. É preciso trançá-la até não distinguirmos os fios dos dedos.
Mulheres de Cinza Mia Couto
Obrigado, dizer obrigado. Pode ser a palavra do dia. A palavra "obrigado" quer dizer: ligado a, obligatus, ficar ligado a quem nos faz bem. É fazer bem, reconhecendo o bem. Não é ser obrigado no sentido de ser constrangido a alguma coisa. Nós ficamos obrigados, ligados pelo bem que recebemos e fazemos. 
Pe Vasco Pinto de Magalhães Não há caminhos, há soluções

Coisas que têm quereres

And when I've come to the places i'm going I will know your ways

Hoje de manhã no café vi duas senhoras de idade profética a darem um abraço gigante, um amasso cheio de juventude.  As imagens de pessoas mais velhas ou de crianças pequenas tocam-nos sempre, fiquei a pensar. É mais fácil fazer bonito nos extremos. Esta meia idade embaraço-nos as emoções.  Já sabemos o que é certo mas nem sempre praticamos. Uma das coisas que melhor fiz, neste intervalo grande de idade, foi permanecer nas amizades. Não como quem busca consolo, mas como quem encontra paz. Falo todos os dias às minhas filhas sobre a importância dos amigos. A família é o núcleo de acolhimento, mas a malta sabe a carga traumática que às vezes encerra. Os amigos só nos traumatizam quando não o são. Sendo. São no sempre. E não, não tem a ver com número, tem a ver com a qualidade humana. E o princípio é simples só se recebe na medida do que se dá. Não se poupem.
Isabel Saldanha

Coisas que têm quereres

Das favoritas, desde sempre





Shimbalaiê, quando vejo o sol beijando o mar Shimbalaiê, toda vez que ele vai repousar
Natureza, deusa do viver A beleza pura do nascer Uma flor brilhando a luz do sol Pescador entre o mar e o anzol
Pensamento tão livre quanto o céu Imagine um barco de papel Indo embora pra não mais voltar Tendo como guia Iemanjá
Shimbalaiê, quando vejo o sol beijando o mar Shimbalaiê, toda vez que ele vai repousar
Quanto tempo leva pra aprender Que uma flor tem vida ao nascer Essa flor brilhando á luz do sol Pescador entre o mar e o anzol
Shimbalaiê, quando vejo o sol beijando o mar Shimbalaiê, toda vez que ele vai repousar
Ser capitã desse mundo Poder rodar sem fronteiras Viver um ano em segundos Não achar sonhos besteira Me encantar com um livro Que fale sobre a vaidade Quando mentir for preciso Poder falar a verdade
Shimbalaiê, quando vejo o sol beijando o mar Shimbalaiê, toda vez que ele vai repousar

Belo

Naked Pastor

Coisas que têm quereres

Hay un camino
aún no atascado,
aún ni pensado,
que comienza
en la punta justo
de tus pies; hay
un camino; hay,
hay un camino.

Eduardo Dalter

Coisas que têm quereres

Ainda há muitos pais que se dirigem aos filhos utilizando a vulgarizada expressão: “Assim não vais ser ninguém na vida”.  E o que é mesmo ser alguém na vida? Eliminando a hipótese mais romântica, que “o ser alguém na vida”, seria o “ser a vida de alguém”, o que é que nos resta?  O desempenho de uma séria de profissões socialmente aceites?  Uma educação colegial pautada por “Muitos Bons”, medalhas de mérito, aluno de quadro de honra, campeão das olimpíadas de matemática ou o vencedor do torneio europeu das composições?  Um advogado numa sociedade de renome, um engenheiro com um MBA a liderar uma multinacional ou um cientista bolseiro premiado nos EUA?  Sem desprimor para todo o brio que estes “seres de alguém” serão, e o consequente orgulho paterno-ó-maternal que o depósito frutuoso da nossa educação gera, não é nisto que penso quando desejo muito, que as minhas filhas, não sejam alguém, sejam apenas elas mesmas.  No limite, isto até pode parecer de um romantismo extremo, quase utópic…
Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado de onde se ouvem do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol.

Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo.

As palavras querem estar nos seus lugares!



josé de almada negreiros andaimes e vésperas poesia estampa 1971
Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha. s.d.





fernando pessoa livro do desassossego por bernardo soares. vol.I ática 1982
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma


Sophia de Mello Breyner Andresen

Nossa Senhora não veio cá para que a víssemos

P. Miguel Almeida, sj
http://observador.pt/opiniao/nossa-senhora-nao-veio-ca-para-que-a-vissemos/

Uma espiritualidade do concreto. O discernimento, característica sublinhante da sensibilidade espiritual inaciana em que o Papa Francisco tanto insiste, tem como elemento incontornável a realidade – como ela é e não como gostaríamos que fosse. Não por acaso, no seu primeiro documento, o Papa defende o princípio de que a realidade é superior à ideia. A realidade como ponto de partida e não como meta, isto é, não uma realidade que tem que ser abençoada como é, mas que tem que ser assumida na sua concretude para ser transformada. Condição sine qua non para qualquer discernimento é a liberdade interior. Essa liberdade de falar ou calar, de fazer ou estar quieto, de ir à direita ou à esquerda, sendo guiado apenas e só pelo que o discernimento ditar ser a vontade de Deus. Realidade e liberdade no espírito. Numa palavra, olhe-se para Francisco e percebemos a força do discernimento.
A atenção espir…