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A mostrar mensagens de Janeiro, 2014

Memória agradecida

Mads Nissen



É sabido que a ruptura forte, o choque, a crise, transformam. Oportunidade. Há acontecimentos que não se controlam: ou são decididos por outros, ou dá-se a fragilidade do ser, ou a Terra fala a sua linguagem. Emociono-me a ver esta imagem, de quem encontra um álbum de fotos nos destroços de um terramoto. Penso: porquê só no limite o dar-se conta do eterno paradoxo: ora o muito que somos, ora o pouco que se desvanece? É preciso o suporte da boa memória na destruição. A memória agradecida que alimenta na desolação. Gaita! A vida pode revoltar-se, mas não se espere esse momento para tomar consciência que se pode amar mais: a si mesmo e aos outros.

http://oinsecto.blogspot.pt/2014/01/memoria-agradecida.html

Sou uma fonte incontida

Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos são naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fonte incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.

Miguel Torga
Três coisas são necessárias para a salvação do homem: saber em que deve acreditar; saber o que deve desejar; saber o que deve fazer.
S. Tomás de Aquino

Walter Mitty

Há quem decida viver do/no negativo da fotografia. Há quem procure "a" fotografia. Há quem escolha olhar. Saborear. E não tirar a fotografia.

Perder o medo da conversão

Acho que vou perdendo o medo da conversão. Sei que pode parecer uma palavra estranha. Converter-se a uma religião, ou a um modo de vida, tem aquele tom de grandioso ou de beato. “Deus me livre de tal coisa”, poder-se-ia pensar. Sim, acho que perco o medo da conversão. Após terminar cada dia, tento revê-lo. Não mudo “da manhã para a noite”, como S. Paulo a caminho de Damasco, mas vou conhecendo a suavidade das mudanças das cores na vida: em conversas, em exemplos, em leituras, em rostos. Confesso outro segredo: gostava de chegar ao momento em que poderei dizer “não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. Nesse dia, sei que o meu Amor será pleno. É por isto que vou perdendo o medo da conversão.
Paulo, sj

http://oinsecto.blogspot.pt/2014/01/conversao-perco-o-medo-de.html


Amizade

Nunca acreditei que a amizade ganhasse fundamento ou se conseguisse justificar e provar nos momentos mais difíceis. A amizade não tem que dar provas, a amizade nunca pode viver na base da prova derradeira, a amizade não pode viver na desconfiança, sempre à espera de um passo em falso ou então de algo em troca. Mas, nos momentos difíceis, a amizade sabe bem, ainda melhor que no dia-a-dia, ainda melhor que na rotina dos dias, ainda melhor que no tempo comum - a amizade é fundamentalmente tempo comum, partilhado na intimidade de cada um, nas circunstâncias mais banais de cada um, no tudo e no nada de cada um. A amizade tem também tempos litúrgicos, dias em que renasce e dá grito vivo nas grutas escondidas, dias em que carrega cruzes, dias em que se senta à mesa e se despede, ainda que temporariamente. Na amizade há também os que renunciam, e não deixam por isso de ser perdoados e chamados de volta, e há aqueles que, também entre lágrimas, e outros sofrimentos, acompanham até ao calvário…

Auschwitz: lembrar para quê?

ESTHER MUCZNIK 27/01/2014 - 00:18
Parafraseando Imre Kertész, “o verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso”.

Hoje, dia 27 de Janeiro, comemora-se o Dia Internacional de Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pelas Nações Unidas em 2005. A escolha do dia não surge por acaso: foi precisamente na tarde de 27 de Janeiro de 1945 que o Exército Soviético vitorioso chega a Auschwitz-Birkenau, o maior e o mais mortífero centro de extermínio do III Reich.
Auschwitz foi o primeiro campo de concentração a ser libertado pelos Aliados e o único onde a máquina de morte funcionou a todo o vapor até ao final de 1944. É sobretudo entre Maio de Outubro desse ano, que Auschwitz-Birkenau toma as proporções que o tornam no símbolo de destruição humana, com o gaseamento logo à chegada ao campo de meio milhão de judeus húngaros, homens, mulheres e crianças.
A 7 de Outubro tem lugar a revolta do s…

Filho Meu

Filho Meu, que estás na terra,
Preocupado, tentado, solitário,
Eu conheço perfeitamente o teu nome
E pronuncio-o como que santificando-o
Porque te amo.
Não, não estás só, mas habitado por Mim,
E juntos construímos este reino,
De que irás ser o herdeiro.
Alegra-me que faças a Minha vontade,
Porque a Minha vontade é que tu sejas feliz,
Já que a glória de Deus é o homem vivo.
Conta sempre comigo
E terás o pão para hoje, não te preocupes!
Só te peço que saibas repartir com o teu irmão.
Sabes que perdoo todas as tuas ofensas,
Antes mesmo de te arrependeres;
Por isso te peço que faças o mesmo
Àqueles que te ofendem a ti.
Para que nunca caias em tentação,
Segura firme a minha mão
E eu livrar-te-ei do mal,
Meu querido filho.


http://zimborios.blogspot.pt/2014/01/pai-nosso-de-deus.html

Ofelinha ;-)

E no entanto nada é tão verdadeiro como o instante em que me recordo de ti. E são tantos os instantes em que sou o instante em que me recordo de ti.




Pedro Chagas Freitas
in "SEPARAÇÃO DE MALES"
promete-me que no fim terei existido.

VASCO GATO, in "Um Mover de Mão"/ Assírio & Alvim

Quando se ama

Quando se ama, naquele exacto segundo em que se ama, tem de se acreditar que é para sempre. Mais: tem de se ter a certeza de que é para sempre. Amar, mesmo que por segundos, mesmo que por instantes, é para sempre. E é isso, essa sensação de segundos ou de minutos ou de dias ou de horas ou de anos ou meses, que é para sempre. Ama. Ama por inteiro. Ama sem nada pelo meio. Ama, ama, ama, ama. Ama. Porque é só por aquilo que te faz perder a respiração que vale a pena respirar.
Pedro Chagas Freitas in "EU SOU DEUS"
Aguenta sem pegares
Fogo aos dias e deixa que eles passem,
Serenos como voo de pássaro
à tardinha: nada podes contra
a noite a fazer sombra aos dias
que hão-de vir: não dançam
as árvores ao abraço do vento? Então,
porque não dás tempo a amolecerem
as dores que te saem ao caminho?
Não bastam os que contigo caminham,
Que ainda de outros procuras?
Se tudo há-de acabar em escuro eterno,
deixa que brilhe hoje o sol,
pois pode ser amanhã
um definitivo nada:
que o luto
por ti mesmo seja o caminho
de entender como belo continuar
pode o mundo ser depois de seres nada.
Francisco Niebro, 
in Ars Vivendi Ars Moriendi (Âncora Editora, 2012)
http://essejota.net/index.php?a=vnrhrlqqvkuivvqluprhrsqhutrhqqqkqruiqjrurprlqrrnvvqnqlqrvrqjrurn
Uma música, quando bem ouvida, é um trabalho espiritual que consiste em deixá-la ouvir em nós e à nossa volta.

António Madureira Rodrigues 

...porque muitas vezes faz uma falta descomunal sentir que somos filhos do amor...

Em certa ocasião, um pai de família começou uma conferência com a seguinte pergunta ao auditório: «Sabem qual é a primeira escola que os filhos devem ter?». As respostas foram muito variadas: um infantário, uma creche, um jardim-escola. «Nada disso» ― respondeu o conferencista. «A minha experiência de pai de uma família numerosa ― lá em casa somos dez: a minha patroa, oito filhos e este seu servidor ― é que a primeira e fundamental escola dos filhos é o amor entre os pais. De todas as escolas que conheço é a que melhor ensina a matéria mais importante: ensina a amar. Dessa "cadeira" depende a felicidade dos nossos filhos nesta vida e na futura». É do amor mútuo entre os pais que procedem os filhos. No entanto, esse amor não pode permanecer somente no acto gerador inicial. Demonstra-se, sobretudo, nessa geração não biológica que é tão fundamental na vida de qualquer um de nós: a educação. E é o amor entre os pais ― que se transmite aos filhos ― a primeira "escola" …
Na verdade por amor somos capazes de fazer tudo, cabendo neste tudo um melhor e um pior que nenhum outro sentimento é susceptível de mobilizar, o que está longe de poder implicar que esse tudo invariavelmente deva ter consagração legal ou sequer que a lei sobre tal se deva pronunciar mais do que o estritamente necessário.

Helena Matos
http://o-povo.blogspot.pt/2014/01/o-amor-e.html
(Desta vez não concordamos. "Como é que se esquece alguém que se ama?" Não se esquece. Ponto. E não quero que o coração se canse de me fazer lembrar.)

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ningu…

O meu amor é o meu peso

“O corpo, devido ao peso, tende para o lugar que lhe é próprio, porque o peso não só tende para baixo, mas também para o lugar que lhe é próprio. Assim o fogo encaminha-se para cima, e a pedra para baixo. O azeite derramado sobre a água aflora à superfície; a água vertida sobre o azeite submerge-se debaixo deste: movem-se segundo o seu peso e dirigem-se para o lugar que lhes compete. As coisas que não estão no próprio lugar agitam-se, mas quando o encontram, ordenam-se e repousam.
O meu amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva. O vosso Dom inflama-nos e arrebata-nos para o alto. Ardemos e partimos. Fazemos canções no coração e cantamos o "cântico dos degraus". É o vosso fogo, o vosso fogo benfazejo que nos consome enquanto vamos e subimos para a paz da Jerusalém celeste. "Regozijei-me com aquilo que me disseram: Iremos para a casa do Senhor". Lá nos colocará a "boa vontade", para que nada mais desejemos senão permanecer ali etern…

É por isto que eu continuo a dizer que os santos são loucos...

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira p'ra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de…

Não é uma sugestão, é um mandamento

Nos Evangelhos Sinóticos, lemos muito sobre as pregações de Jesus a propósito do «maior mandamento». Não é a grande sugestão, o grande conselho, a grande linha diretiva, mas um mandamento.
Primeiro, temos de amar a Deus com todo o coração e com toda a nossa força, sobre todas as coisas. Ao trabalhar com os pobres camponeses da América Central, que não sabiam ler nem escrever, a frase que eu sempre ouvia era: «Primero, Dios». Deus tem de ser o primeiro nas nossas vidas, depois, todas as nossas prioridades estão corretamente ordenadas. Não amaremos menos as pessoas, mas mais, por amar a Deus.
A segunda parte do «maior mandamento» é amarmos o próximo como a nós mesmos. E Jesus ensina-nos, na parábola do Bom Samaritano, que o nosso próximo é esse estrangeiro, esse homem ferido, essa pessoa esquecida, aquele que sofre e, por isso, tem um direito acrescido sobre o meu amor.
Jesus manda-nos amar os estranhos. Se só saudamos os nossos, não fazemos mais do que os pagãos e os não crentes.


Card…

Suicida

Quando me lancei fi-lo na convicção
de que o meu sofrimento mudaria de dono,
ficaria para ela, merecido legado
para quem sempre gostou de nutrir o ciúme,
essa carnívora planta a cujo habitat
chamamos coração. Eu pensava desfrutar
da vingança por toda a eternidade.
Mas o facto é que à medida que o meu corpo
descia em direcção ao rio um calafrio
fez-me pôr em dúvida a eficácia do castigo:
e se ela recusar a expiação, se for mentira
este consolo que me ofereço, derradeiro?
Ao passar, amigos, pelo tabuleiro de baixo
já ia arrependido. O pânico safou do meu rosto
o beatífico sorriso. Que estúpido sou,
que mesquinho, bem mereço... e não tive tempo
para pensar mais nada. Tu que passas
por esta lápide, escuta: ninguém morre de amor.
De orgulho sim, de despeito, de pura idiotice
ou desejo insaciado. E o sermos amados
quase sempre só depende de nós.




José Miguel Silva

A dor dos inocentes não se explica, mas tem sentido e podemos atenuá-la

A reter: A dor dos inocentes é algo de demasiado puro e misterioso para poder ser contido dentro das nossas pobres "explicações".

No Evangelho do II Domingo do Tempo Comum (Ano A), escutamos João Batista que, apresentando Jesus ao mundo, exclama: «Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo!». O cordeiro, na Bíblia, como aliás noutras culturas, é o símbolo do ser inocente, que não pode fazer mal a ninguém, mas apenas o pode receber.
Prosseguindo este simbolismo, a primeira carta de Pedro chama a Cristo «o cordeiro sem mancha», que «ao ser insultado, não respondia com insultos; ao ser maltratado, não ameaçava». Jesus, por outras palavras, é, por excelência, o Inocente que sofre.
Foi escrito que a dor dos inocentes «é a rocha do ateísmo». Após Auschwitz, o problema colocou-se de maneira ainda mais premente. São incontáveis os livros e os argumentos escritos em torno deste tema. Parece que estamos num processo judicial, em que ouvimos a voz do juiz a ordenar a…

Tree of life

Começo por quem está perto! + Vai e faz o mesmo + (Quase, quase!!!)

Intro:Ré Lá SolSol Sim Lá( x2) 

Ré          
Se estou a olhar da maneira errada,
Se quero tudo e não mudo nada,
Sol
Se não paro,

Tenho a vida parada!


Eu tento levantar-te, 
Trazer-te pró meu lado,
Sol
Quando ajudo, 

sou levantado!

Sim                Lá                Ré             Sol
Se quero ser santo e mudar assim tanto,
Sim                Lá             Sol                 Lá
Vou seguir Jesus, vou sair do meu canto!

               Ré     Lá           Sol
Ele diz "vai e faz o mesmo!"
                Sol     Sim    Lá
Eu não posso complicar,

Fantasma pançudo que engordo

Uma coisa aprendi na vida. Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz.
Mia Couto

Abensonha-me. Por favor.

Abensonha-me. Por favor

Eu sou o viajante do deserto que, no regresso, diz: viajei apenas para procurar as minhas próprias pegadas. Sim, sou aquele que viaja apenas para se cobrir de saudades. Eis o deserto, e nele me sonho; eis o oásis, e nele não sei viver.

Mia Couto
(suspiro)
Como pode alguém domar a poesia? Um poeta é apenas um lugar por onde o poema passa. Se um escritor inventa mundos é porque há mundos que querem ser inventados.

No meu peito não cabem pássaros,
Nuno Camarneiro

Amigo, um tempo fértil

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!



"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!


"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.


"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!



alexandre o'neill
tomai lá do o'neill, uma antologia
círculo de leitores
1986

Nada mais a perder

Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.


Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.


Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.



inês dias
resumo, a poesia em 2011
documenta
2012

Abensonha-me. Por favor.

Acontece que o mundo é sempre grávido de imenso. E os homens, moradores de infinitos, não têm olhos a medir.

Mia Couto
Quem não compreende um olhar,  tão pouco compreenderá uma longa explicação.



Mário Quintana
Se estamos hoje no caminho do que fomos para o que havemos de ser, é porque o mundo é feito de linhas, e não de pontos. Quem nos deu a vida não a sabe tirar ou perder. Deus, a morte e o diabo não comem à mesma mesa.
No meu peito não cabem pássaros, Nuno Camarneiro

Amigos para sempre

A reter: O melhor que os amigos e as amigas têm a fazer é verem-se cada vez que podem.
Os amigos cada vez mais se vêem menos. Parece que era só quando éramos novos, trabalhávamos e bebíamos juntos que nos víamos as vezes que queríamos, sempre diariamente. E, no maior luxo de todos, há muito perdido: porque não tínhamos mais nada para fazer.  Nesta semana, tenho almoçado com amigos meus grandes, que, pela primeira vez nas nossas vidas, não vejo há muitos anos. Cada um começa a falar comigo como se não tivéssemos passado um único dia sem nos vermos.  Nada falha. Tudo dispara como se nos estivera – e está – na massa do sangue: a excitação de contar coisas e partilhar ninharias; as risotas por piadas de há muito repetidas; as promessas de esperanças que estão há que décadas por realizar.  Há grandes amigos que tenho a sorte de ter que insistem na importância da Presença com letra grande. Até agora nunca concordei, achando que a saudade faz pouco do tempo e que o coração é mais sensível à …

O monstro e a pessoa ideal

Por mais fantástica que seja a tua roupa, ela está mais bem vestida. Por muito competente que sejas, ela faz um trabalho melhor. Por muito divertidas que sejam as tuas histórias, ela faz sempre rir mais. Por muito bem que cozinhes, ela cozinha pratos ainda melhores. Por muito bem que penses, fales ou vivas… ela é sempre melhor.
Mas afinal quem é esta pessoa? É simplesmente a construção que fizémos na nossa cabeça da pessoa ideal. É a imagem que inventámos algures pelo caminho, da pessoa que queremos para partilhar a nossa vida. Tipicamente é uma pessoa desenhada para uma relação próxima, mas há quem se especialize em fabricar dezenas de pessoas ideais, para aplicar a amigos, colegas e até estranhos. Depois de estar fabricada, esperamos genuinamente que as pessoas de carne e osso correspondam a ela.
Esta pessoa ideal – mesmo estando apenas na nossa cabeça – tem uma influência grande na nossa vida: há relações que não começam porque alguém não cumpre todos os requisitos da pessoa ideal.
Não sei
Se a vida é curta ou longa
Mas que nada do que vivemos tem sentido,
Se não tocarmos o coração das pessoas


Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe
Braço que envolve
Palavra que conforta
Silêncio que respeita
Alegria que contagia,
Lágrima que corre
Olhar que acaricia
Amor que promove


E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida
É o que faz com que ela não seja
Nem curta, nem longa demais,
Mas seja intensa
Verdadeira
Pura
Eterna



Enquanto durar!

Cora Coralina

Olhar positivo

Educar um olhar positivo é bem mais do que ver tudo cor-de-rosa ou andar à procura do lado bom de todas as coisas! Já não era mau se o fizéssemos. Mas educar-se para a positividade é sobretudo saber que de tudo (até do pecado) se pode tirar sempre um bem maior e interiorizar a disciplina de se propor constantemente atitudes construtivas, de tirar proveito de humanização e humanismo em tudo o que acontece e não perder a intenção recta, diária, de procurar o bem maior e de fazer o melhor que está nas nossas mãos.

Vasco P. Magalhães, sj ONDE HÁ CRISE, HÁ ESPERANÇA

A dignidade permanece

João César das Neves DN online 13.01.2014
O problema do aborto nunca desaparecerá. Como a pobreza e a desigualdade, a violência ou o crime, acompanhará a humanidade, que terá sempre de lutar contra ele sem nunca o conseguir eliminar. Era bom que todos os envolvidos tivessem consciência desta verdade simples, evitando muitos erros e mal-entendidos.
Vivemos num tempo legalista, que acredita que as questões se resolvem com decretos. O repetido falhanço desta ilusão não impede que muitos coloquem a sua esperança na luta legislativa, descansando nas vitórias parlamentares e esquecendo que a vida só se decide na vida. Por importante que seja a superestrutura legal de um povo, manifesto autodefinitório, o fundo da natureza humana permanece um enigma. As inúmeras violações dos direitos humanos, após décadas de esforços, manifestam dolorosamente a realidade.
Numa época promíscua e lasciva, é na legislação familiar que explode a contradição, como na regulamentação financeira em crises creditíc…

Qualquer coisinha, tenho fome

Não sei se há humilhação maior do que ter de estender a mão suja, que salta de um corpo e uma roupa também sujos, pedindo, com o corpo inclinado e o olhar perdido e suplicante: "Qualquer coisinha, tenho fome." Se é uma criança, com uma mãozinha pequenina, um velho, um deficiente, suplicando "por caridade, por caridade", parte-se-me a alma. Sinto-me muito envergonhado por mim e pela sociedade, e dou, numa indizível atrapalhação, pois precisaria de dizer-Ihes que não é por caridade, mas por dever. E desaparecer.

Dar generosamente. Nem a mão deveria aparecer, para não ser vista. Um grande amigo que já morreu - porque é que os amigos mor-rem?! - repetia constantemente: a mão que dá esconde-se. A partir daí, perguntei-me sempre: será por isso que não vemos Deus? Porque dá - Deus é Dar, o Dar Originário, Criador -, escondendo-se?

Eu sei que é uma vergonha que se dê e se receba por esmola aquilo a que se tem direito, de tal modo que há mesmo quem pense e argumente que o …

A noite, inevitável, à espera, mas avançamos e estamos aqui.

A chuva insiste de encontro ao pára-brisas. Os contornos de tudo embaciam-se por detrás da água, as cores perdem os limites que as contêm e entornam-se umas sobre as outras. Depois, chega o instante em que as escovas do limpa pára-brisas não conseguem esperar mais. A uma velocidade constante, certa, fazem o seu movimento geométrico, a nitidez cinzenta do céu reflectida pela estrada e, logo a seguir, a chuva de novo. Conduzo devagar.
A minha sobrinha fala de pessoas que já morreram. Responde às minhas perguntas, mas o silêncio também lhe serviria. Lembra-se bem do momento em que acordou a meio da noite e ouviu os crescidos a receberem a notícia de uma morte. Hoje, tem vinte e cinco anos. Enquanto fala, acede a impressões de pessoas do passado, é difícil distinguir se são memórias ou apenas pensamentos criados pelo que ouviu dizer, não sabe se está a recordar ou a imaginar. Essa indefinição incomoda-a. Está habituada a lembrar-se de tudo o que pensa. Falo-lhe de outras pessoas, gente q…

Portugal é assim, diminutivo e manso.

Junto às tias e a esta terra, tudo volta a ser pequenino. O sufixo parece ser anterior às palavras, o menino está cansadinho, a viagem foi boazinha, está tão branquinho, coitadinho. Portugal é assim, diminutivo e manso. O que foi chegando fez-se à escala e por cá ficou, as Indiazinhas, as Americazinhas, os pretitos, pobrezinhos. Os portugueses não querem nada que não possam meter no bolso. Como é que esta gente descobriu tanto mundo? Os passageiros descem as escadas e alteram-se a cada passo, passam a ser filhos, sobrinhos, maridos e mães. No barco cada um foi o que quis e pôde, feito à medida de sonhos e frustrações, personagem entre actos, entre o ter partido e o ainda não ter chegado. À saída a vida não permite já devaneios e um nome dito por quem o diz é um grito de realidade. Fernando não foi nada durante a viagem, apenas olhos de ver e uma cabeça de inventar filosofias. Agora é o sobrinho das tias e dá beijos e abraços. Há um grande conforto no encontrar o que se espera e uma c…
Os sonhos de Jorge são sonhos sem tempo, como os de todas as crianças. São sonhos em que todos estão presentes ao mesmo tempo em lugares distantes do mundo, na selva, no outro lado do mar e nos retratos das paredes. Se deus está em todo o lado, as crianças estão em todo o tempo.
No meu peito não cabem pássaros,  Nuno Camarneiro

Oceano Atlântico

Este azul é de cor de sítio nenhum. Um lugar que foge aos sentidos por medo e finitude. Olha-se como não vendo, porque é tanto que não cabe em gente. Chamar-lhe mar ou chamar-lhe céu, chamar nomes às coisas que riem de nós e de deus. O mar inventou-nos a nós e depois a deus.

No meu peito não cabem pássaros,
Nuno Camarneiro
Nós estamos de passagem, agarrados ao que ficou e incertos no que será, (...).

No meu peito não cabem pássaros,
Nuno Camarneiro

Senhor dos nossos dias e manhãs

Senhor das nossas horas e dos nossos dias
Senhor das nossas histórias e da nossa história
Senhor dos nossos anos com as suas angústias e esperanças
A Ti rezo, nesta manhã!

É mais uma manhã na nossa vida
E o que eu Te peço é que seja o início de um dia vivido contigo
Um dia pintado com as cores da esperança
No sorriso traquina das crianças
E na palavra serena dos velhinhos
Nos sonhos confiantes dos jovens
E na ternura do abraço de um pai e de uma mãe!

Senhor, que este dia seja vivido contigo
Na certeza do teu amor multiplicado no pão que repartimos
Nos gestos de paz e perdão que distribuímos
Na palavra amiga com que confortamos e amparamos
quem ao nosso lado caminha!

Senhor que esta manhã
seja verdadeiramente o início de mais um dia contigo
na certeza de que contigo o dia valerá sempre a pena!


+ Manuel Santos




http://rr.sapo.pt/rubricas_detalhe.aspx?fid=70&did=134798