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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2018

Coisas que têm quereres

Tethered to a bird of sorrow
A voice that's buried in the hollow
You've given over to self-deceivin'
Your prostrate bowed would not be leavin'
You've squandered more than you could borrow
You've bet your joys on all tomorrows
For the hope of some returnin'
While everything around just burnin'
Come on, we gotta get out, get out of this mess we made
And still for all our talk, we're both so afraid
Will we leave this up to chance, like we do everything?
Love is gonna find us again

Love is gonna find us, we gotta be ready then
Hoje deu-me para ter saudades suas Sr. Alfredo. Acordei e lembrei-me que gostava de ir abrir as igrejas consigo, naquele passo lento e com tempo com que um avô leva a neta pela mão.
El problema no es la jaula o el pájaro o el pájaro dentro de la jaula el problema es la jaula dentro del pájaro.

Jorge Ampuero
Morrer à mesa
P. Francisco Martins, sj
28 Março 2018
https://pontosj.pt/especial/morrer-a-mesa/
Bastou sentar-se à mesa. Lembro-me perfeitamente do espanto, e do fascínio quase imediato com a ideia. Foi há muitos anos, quando estudava teologia em Lisboa, que escutei pela primeira vez a tese de Robert Karris acerca da importância do partilhar a mesa na vida de Jesus. Diz o autor que “Jesus foi morto por causa da forma como comeu”. Foi porque decidiu sentar-se na mesma mesa que os pecadores e os rejeitados, os cobradores de impostos e as mulheres de má vida, que as autoridades religiosas da época se empenharam em reduzi-lo ao silêncio, da cova. Um tal gesto, que tem pouco para nos surpreender hoje em dia, estava longe de ser banal. Ao instaurar aquilo que os especialistas chamam uma comunhão de mesa com aqueles que estavam excluídos de todas as mesas, Jesus abriu uma brecha nos esquemas de pureza e impureza que organizavam a sociedade, colocando-os em suspenso. Sentou-se à mesa com quem nã…
Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Um dos problemas sérios que temos hoje na compreensão da fé, quer nos digamos crentes ou não crentes, é que nos é difícil pensar, de modo eficaz e concreto, que o material da fé, o seu tecido, seja a vida  como ela é. A crise nascida na modernidade, a que já acenámos, provocou uma espécie de separação de campos de referência: de um lado estariam a vida, as coisas, o comer, o crescer, o amar, o viver, o desejar e, do outro, os gestos e as palavras de um mundo religioso que seriam outras realidade (ir à igreja, rezar, respeitar normas...). A boa nova do Evangelho é, pelo contrário, a possibilidade de a vida, assim como é, se vivida no encontro com Deus, se tornar bendita e amada, florida e fecunda. Não há outra coisa, não temos outra coisa: viver é a verdadeira questão, e viver humanamente.
Palavras em redor do poço Stella Morra
José Ricardo Costa https://ponteirosparados.blogspot.pt/2018/03/o-peso-e-leveza.html

Em 1983, conheci um rapaz alemão que tinha vindo estudar para a minha faculdade. Antes de vir, sentira a necessidade de ir a Israel, não em passeio mas numa espécie de redenção por causa do que acontecera quatro décadas antes. Ir, enquanto alemão, filho e neto de alemães, só para conhecer e estar com israelitas e mostrar-lhes que ser alemão não significa dizimar judeus. Nesse mesmo ano, vieram visitar-me umas amigas alemãs que conhecera dois anos antes, no Alentejo. Entretanto, um familiar meu organizou uma almoçarada numa casa ali perto do castelo de Almourol e levei-as. Numa fase em que já tínhamos comido e bebido bastante, um rapaz com jeito para desenhar resolveu fazer uma caricatura de uma das alemãs, acrescentando-lhe, por piada, um bigodinho à Hitler e uma braçadeira com cruz suástica. A reacção dela foi avassaladora. Desata a chorar desalmadamente, um tremendo ataque de nervos, sendo bastante…
Vinham perguntar-me o que era a poesia num tempo
em que já ninguém sabia o que era a poesia. Eu estava
à janela, e lá fora havia, de um lado, o sol e algum
céu azul, do outro lado as nuvens, e tinha começado
a chover. A poesia parecia-me não fazer nada no meio
deste hemisfério dividido entre inverno e primavera. Eu estava
no inverno porque me sentia atraído pelas nuvens escuras que
iam chegando; mas não podia ignorar a promessa de primavera que,
apesar do frio, me chegava do lado em que o céu estava
azul. E comecei a pensar que não valia a pena
falar de poesia quando, eu próprio, estava dividido
entre duas partes do mundo que, na realidade profunda do ser,
correspondiam a dois impulsos que nos levam para o dia
ou para a noite. Lembrei-me, no entanto, de alguns
amigos que gostavam da noite, e que tinham sido devorados
por ela. Uns tinham-no feito por opção própria, e de cada
vez que o dia nascia desciam as persianas do quarto e só
as subiam quando lhes vinham dizer que já era noite. Out…

Coisas que têm quereres

Deus tem planos B? P. Nuno Tovar de Lemos, sj
21 Março 2018 https://pontosj.pt/opiniao/deus-tem-planos-b/

(...)
Creio que somos hoje ingenuamente optimistas em relação a nós mesmos e em relação à vida. Achamos que está sempre tudo em aberto para ser revisto e recomeçado, quaisquer que sejam as opções que fizemos. Achamos que podemos sempre voltar ao ponto de partida e ser o que éramos antes da viagem. Acho esta ideia muito ingénua. As nossas opções entretanto fizeram história, criaram ligações, responsabilidades, tiveram as suas consequências, abriram ou fecharam possibilidades para o nosso futuro… Enfim… deixaram-nos em lugares diferentes dos lugares em que estávamos antes. Piores ou melhores; mas certamente diferentes.
E, ao longo do caminho, nós próprios ficámos pessoas diferentes devido às atitudes que fomos alimentando: pessoas mais livres ou mais mesquinhas, mais altruístas ou egocêntricas, pessoas com fé ou à defesa, generosas ou calculistas, pessoas mais humanas ou mais desuman…
Li há dias um artigo que dizia que as Bem-aventuranças têm uma “sequência” entre si, isto porque ninguém consegue ter um coração puro sem antes ser pobre de espírito, ser humilde, chorar, ter fome de justiça e ser misericordioso (as 5 primeiras bem-aventuranças).
Achei muito interessante verificar esta continuidade nas Bem-aventuranças, até como proposta de “caminhada” cristã e espiritual a que somos chamados a fazer nas nossas vidas. Só por isto percebemos que a noção de pureza implica um caminho, uma disponibilidade para querer ser puro.
http://www.pastoraljuvenil.salesianos.pt/index.php/comunicacao/dossiers-2/bem-aventurancas
O que somos para os outros Texto de Marco Gil • 16/03/2018 http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/25738/o-que-somos-para-os-outros

Faço meia dúzia de torradas, meto o café ao lume (mas tem de ser Tofina”) e depois passo a geleia; é a minha avó. Aquele sabor, que será para sempre eterno, é o que me faz lembrar a minha avó. Isso e as mãos dela, a pele fina e macia, mas envelhecida pela história, as veias salientes e o aconchego nas mantas ou a laca no cabelo — ainda sinto o cheiro da laca por cada vez que fecho os olhos.

O meu avô é uma malga de pão migado e uma cantiga da Amália, cujo título não me lembro. Ele será sempre aqueles serões largos e quentes onde se via a bola a sério. O meu avô é o assobio que se ouve pela rua toda. E as latas de conserva ao almoço? O meu pai é isso e umas peúgas cinzentas de algodão com quase tanto borboto como tecido, é também Old Spice e uma camisa de flanela só para os domingos.

A Ana, que era a vizinha de cima, será para sempre um top branco; o c…
Berry Brazelton: Esperança, Amor e Fé (1918 – 2018) Ana Teresa Brito
18 Março 2018 https://pontosj.pt/especial/berry-brazelton-esperanca-amor-e-fe-1918-2018/

Conheci Berry Brazelton em 2002, no Encontro Internacional “MAIS CRIANÇA”, organizado pelo Professor Gomes-Pedro, um verdadeiro mestre e maestro da nova Pediatria em Portugal. No Coliseu dos Recreios, em Lisboa, reuniram-se, então, 2500 profissionais das áreas da Saúde, Educação, Justiça, Solidariedade Social, Ciências Humanas, na esteira de um novo saber, saber-fazer e saber-ser que Gomes-Pedro, mais tarde, batizou como “Ciências do Bebé e da Família”.
O Professor Maestro trouxe, então, a Portugal os mais conceituados investigadores internacionais, que uniu a grandes investigadores e profissionais lusitanos, na construção e defesa de novos conceitos e práticas em Saúde e Educação. O grande desígnio era o de fundamentar, defender e promover um paradigma relacional de prevenção.
Neste Encontro, Berry Brazelton foi luz maior, a todo…
Morreu Berry Brazelton, o médico que revolucionou a pediatria
BÁRBARA WONG 14 de Março de 2018 https://www.publico.pt/2018/03/14/culto/noticia/morreu-berry-brazelton-o-medico-que-revolucionou-a-pediatria-1806563

Faria cem anos no dia 10 de Maio, mas os preparativos já tinham começado a ser feitos, não para essa data, mas para 23 e 24 de Abril, um congresso e a comemoração antecipada do aniversário, em Boston, EUA. O pediatra, cientista e perito norte-americano em desenvolvimento infantil Thomas Berry Brazelton morreu nesta terça-feira, aos 99 anos, na sua casa em Barnstable, Massachusetts, anunciou o Centro Brazelton Touchpoints. “O mundo perdeu um verdadeiro herói para os bebés, crianças e famílias”, diz o comunicado.
Antes de Brazelton, assim que nascia, “o bebé era embrulhado e esquecido a um canto”. Foi Brazelton quem descobriu a importância de, nos primeiros minutos de vida, o recém-nascido ter contacto com a mãe, “pele com pele”, resume Gomes-Pedro, pediatra que em Portugal desen…
What we can control are the people we choose. Choosing our people is the closest we come to controlling our destiny.

This is us
Ao homem que te pede lume para acender o cigarro,  se o deixares falar, dez minutos depois pedir-te-á Deus.

Nietzsche
Se te aproximas de quem sofre e tocas a sua solidão, talvez não se cure, mas certamente derivará daí um bem, certamente será uma maravilha para ele. Existem doenças incuráveis, mas nenhuma intratável, que não tenha necessidade de cuidados, de mãos, de coração, de ti e de Deus. Do Deus próximo-distante através de ti.

Pe. João Torres
Um desejo de nada
Fui onze vezes ao deserto do Sahara. Nos últimos anos, tenho ido sempre, pelo menos uma vez por ano, assim como outros vão a Fátima ou outros a Paris. A devoção tornou-se assim uma espécie de obsessão, aos olhos dos amigos ou dos estranhos: perguntam-me frequentemente o que é que eu lá procuro e o que é que encontro. E a esta pergunta, tão simples e tão vasta, costumo dar uma das minhas respostas preferidas: não procuro nada e não se encontra o que se procura, mas o que se encontra. De vez em quando, forçado a explicar-me melhor, falo da paisagem inicial e despojada do deserto, ou da viagem interior que ali acompanha a outra viagem. Mas não passam de lugares-comuns, próprios de quem não sabe a resposta ou, no subconsciente, não deseja partilhá-la com os outros.  O que é que se procura num deserto? Por definição, nada. O deserto é a ausência de tudo. É esse, afinal, o segredo desta estranha atracção: a ausência de tudo equivale ao princípio de tudo, como uma página e…
Importa saber estar só
Margarida Vaqueiro Lopes
15 Março 2018
https://pontosj.pt/opiniao/importa-saber-estar-so/


1.
Em Portugal, são poucos aqueles que dizem sentir-se sós – um estudo [1] realizado pelo Observatório da Sociedade Portuguesa da Universidade Católica de Lisboa mostrava que, no final de 2016, mais de 70% dos inquiridos não indicava sentir-se só. Os resultados têm sido consistentes ao longo dos anos, embora a amostra reduzida (menos de mil participantes) leve a algumas dúvidas. Por outro lado, o último Inquérito Nacional de Saúde, feito pelo INE em colaboração com o Instituto de Saúde Doutor Ricardo Jorge, e citado no jornal Público, dava conta de que 25,4% da população residente com idade acima dos 15 anos tinha, em 2014, sintomas de depressão. E se é certo que esta última nem sempre é resultado da solidão, a verdade é que há indícios de que essa é, não poucas vezes, uma das suas causas. Há mesmo quem lhe chame “a doença da solidão”.
Importa, então, esclarecer o que é e quem…
Não é preciso partir para sentir-se
desterrado, estrangeiro. Basta
afastar-se um pouco dos outros,
não comungar dos costumes,
exercer sem mais de solitário
por muito que te arraste a maré
de pequenas ou grandes multidões.
Seguindo Erri de Luca
a vida pode ser para alguém
um exílio sem viagem num lugar.


Viver livre, sem clube nem confraria,
acarreta um desterro inevitável.
Como o de um perseguido. Não duvides,
sem sair deste sítio em que vives
és apenas a sombra de um estranho.

Álvaro Valverde

Coisas que têm quereres

Todos os dias Maria
Olhava o Mar pela janela
Maria era do Mar
Mas o Mar não era dela

E por viver numa ilha
No meio do azul plantada
Maria, além do nome,
Tinha o Mar como morada

Maria
Maria do Mar
Se o vento voltar
Solta o cabelo

Vai ver os barcos partir
O dia há-de vir
Em que um queira ficar
E só no teu nome navegar

Sabe prever tempestades
Conhece as marés
E os peixes que, bem cedo
Lhe vêm beijar os pés

Maria
Maria do Mar
Se o vento voltar
Solta o cabelo

Vai ver os barcos partir
O verbo enviuvar
Laurinda Alves
6/3/2018
http://observador.pt/opiniao/o-verbo-enviuvar/

Há verbos difíceis de conjugar e enviuvar é um deles. Ficar viúva ou viúvo implica sempre uma mudança radical e, fatalmente, uma solidão difícil de acolher. Mesmo quando a morte é anunciada e houve tempo para despedidas, reconciliações ou re-uniões em família (há mulheres e homens que esperam pela chegada de filhos e parentes para partirem em paz, e é sempre muito impressionante assistir a essas derradeiras re-uniões da família), dizia que mesmo quando existe este compasso de espera, a perda implica sempre um enorme vazio, uma profunda tristeza e alguma desordem interior.

Vejo isso com muita nitidez, em casa. O meu pai morreu há um ano, exactamente neste dia 6 de Março. Saiu de casa para dar as suas voltas e ir à biblioteca, como fazia todos os dias, mas caiu fulminado no passeio antes de chegar à esquina da nossa rua. Foi-nos dito que teve a morte de um bem-aventurado por não ter sofrido absolutamente…

Coisas que têm quereres

Lembra-te de mim Apesar do meu adeus Lembra-te de mim Sem dor nos olhos teus Se bem que longe estarei Em mim tu ficarás E a melodia que nos une à noite ouvirás Lembra-te de mim Mesmo que p'ra longe vá Lembra-te de mim Se a guitarra ouvires chorar Para sempre eu irei morar dentro de ti Até de novo te envolver Lembra-te de mim
Desde 1979 que não mais comemorámos esta data, o dia de hoje, 27 de fevereiro. Mas é uma data que não podíamos esquecer e todos os anos era motivo de conversa breve. Neste dia, em 1933, nascia em São João da Ribeira, meu pai, Ruy Belo. Haveria de partir 45 anos depois, em agosto de 1978. Hoje passam dez dias sobre a morte de minha mãe, Teresa Belo. É o fim de um tempo para mim e para os meus irmãos Catarina e Diogo. O meu pai deixou, em poemas, palavras sobre o amor, sobre o tempo, sobre a morte, sobre tantas coisas, sobre o cosmos presente num quotidiano errático. Minha mãe desenhou caminhos para a liberdade, mostrou-nos, aos quatro, a força e a determinação da alegria, da vontade, da coragem. Transmitia-nos uma energia enigmática, funda, irrecusável. Era esta uma das suas faces. Era uma generosidade que não queria retorno. Silêncio. Ensinou-nos o que não se explica, o intraduzível em palavras, talvez em coisa nenhuma, uma condição de humanidade em aberto, onde o futuro é vislumbrad…
Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quanto são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais cabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
-- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.

Pedro Tamen

Coisas que têm quereres

O sol, manhã de flor e sal E areia no batom
Farol, saudades no varal Vermelho, azul, marrom
Eu sou cordão umbilical Pra mim nunca tá bom
E o sol queimando o meu jornal


Minha voz, minha luz, meu som


Todo homem precisa de uma mãe Todo homem precisa de uma mãe
O céu, espuma de maçã Barriga, dois irmãos
O meu cabelo negra lã Nariz, e rosto, e mãos
O mel, a prata, o ouro e a rã Cabeça e coração
E o céu se abre de manhã Me abrigo em colo, em chão
Todo homem precisa de uma mãe Todo homem precisa de uma mãe Todo homem precisa de uma mãe Todo homem precisa de uma mãe
O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. É uma
das mais difíceis de definir. O ser humano tem uma raiz por sua participação real, activa e natural na existência de uma colectividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro.
Seria vão voltar as costas ao passado para só pensar no futuro. É uma ilusão perigosa acreditar que haja aí uma possibilidade. A oposição entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não nos traz nada, não nos dá nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe a nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado.

Simone Weil, O Enraizamento