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A Fé: dom ou escolha?


Esta não é uma questão fácil e não tenho a pretensão de responder a ela de um modo definitivo. Talvez consiga apenas, nestas poucas linhas, levantar mais questões ou, na melhor das hipóteses, abrir portas para uma resposta.

Muitas pessoas gostavam de acreditar em Deus, sentem o desejo sincero de ter fé, mas simplesmente não a têm, não a encontram. Como se pode explicar isto? Que significa isto? Se a fé é um dom, porque é que parece não ser dada a todos? Se é uma escolha, que papel tem Deus no meio disto tudo? Porque que é que há pessoas que têm uma experiência viva de fé e outras que parecem não a ter?

Um dado essencial da fé é que o Homem é capaz de Deus, foi criado por Deus e para Deus. O Homem tem inscrito em si esta abertura ao Criador. E Deus não cessa de atrair o Homem a Si e é em Deus que o Homem encontra a verdade e a felicidade que incessantemente procura (cf. Catecismo da Igreja Católica, 26-28). Um outro dado essencial é que o Homem pode conhecer Deus porque Deus Se revelou ao Homem. Deus fez-se ver, fez-se ouvir, e continua a falar ao Homem ainda hoje. Existe, portanto, alguma coisa que é dada ao Homem, que não está dependente daquilo que ele faz, que lhe é dada, por assim dizer, porque não é criado ao acaso.

A fé seria então a resposta do Homem à Revelação de Deus, a resposta do Homem ao dom que Deus faz de Si mesmo. Assim, teria tanto de dom, pela capacidade do Homem de se abrir à Revelação de Deus, como de escolha, porque aquilo que é dado tem de ser aceite e cuidado. E, de facto, essa é a experiência de fé: reconhecer que existe um dom, alguma coisa que nos é dada em primeiro lugar, e aceitar (escolher) viver de acordo com esse dom. A fé, por isso, não é apenas uma questão de acreditar em Deus, mas também de adequar a vida e os gestos a esse acreditar.

Tudo o que está dito acima talvez funcione bastante bem para alguém que acredita. Mas que dizer àqueles que desejam sinceramente acreditar e que o procuram com essa mesma sinceridade? Parece-me que todo o caminho de fé é um caminho de busca, tanto que dividir o mundo em crentes e não-crentes parece-me ser uma divisão demasiado simples. Uma caracterização mais apropriada do mundo poderia ser dividi-lo em aqueles que procuram e aqueles que se acomodaram e estão satisfeitos com o que já encontraram. E nesta divisão encontramos seja crentes “acomodados” seja não-crentes que não desistem de procurar. O caminho da fé é infinito, ninguém pode ter a pretensão de dizer que chegou ao fim, que já não tem mais nada a encontrar e a esperar, como se tivesse desvendado todo o Mistério de Deus e da Sua Revelação. Talvez o caminho de fé para um não-crente seja exactamente esta procura, ainda que esta procura se situe sempre mais do lado da dúvida do que da crença, porque me parece mais honesta esta procura do que o deixar de procurar da parte de um crente.

Por outro lado, é evidente que existem obstáculos à fé: “a revolta contra o mal existente no mundo, a ignorância ou a indiferença religiosas, as preocupações do mundo e das riquezas, o mau exemplo dos crentes, as correntes de pensamento hostis à religião e, finalmente, a atitude do homem pecador que, por medo, se esconde de Deus e foge quando Ele o chama” (Catecismo da Igreja Católica, 29). A estes poderíamos acrescentar mais, mas gostaria de falar de um que me parece mais subtil: as nossas expectativas em relação a Deus. No fundo, a pergunta é: o que é que espero de Deus? Se estamos à espera de alguma coisa que não é próprio de Deus dar, como a poderemos esperar de Deus? Quantas vezes não penso como seria tão mais fácil se Deus fosse mais descarado e agisse de um modo mais evidente. Quantas vezes não desejamos que os frutos da nossa fé sejam mais imediatos. Quantas vezes não queremos que Deus escolha por nós ou nos diga claramente o que devemos fazer. Criamos expectativas em relação a Deus e se Deus não as cumpre vacila a nossa fé. Se queremos de Deus aquilo que Deus não é, dificilmente O encontraremos com verdade.

A fé lida com o que não vemos porque em relação àquilo que vemos não precisamos de fé e, de facto, a maior parte das vezes Deus não é descarado. Contava S. João Paulo II em relação aos não-crentes que quando morressem e estivessem diante de Deus exclamariam: “Ah! Afinal eras tu!”. Talvez seja essa também a exclamação dos crentes ao verem Deus face-a-face.

Duarte Rosado, sj 
21.10.2015

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