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Podíamos dizer que um dia contaríamos esta aventura aos filhos e aos netos, mas esse é um tempo que vem longe e não sabe esperar pela intensidade da saudade, quase como se a saudade acordasse todas as manhãs com o apito interminável e a voz rouca do "Alvorada, Alvorada" que agora, silenciosa, é tão desejada. Estranhamos, o chão não foge, mas as pernas ainda procuram o apoio constante de mais uma trave do convés. Estranhamos, acordamos, devagarinho, fazemos todos os cálculos,falhamos todos ainda assim, mas a cabeça já não bate na cama de cima ou no teto do terceiro andar. Estranhamos, é hora de almoçar e ninguém dá a notícia tão esperada ao ETO que o almoço irá ser servido. Estranhamos, hoje não descascámos dois sacos de batatas, nem formámos a meio navio, não há operação do vidrinho, nem castanhos para maldizer ou amarelos para polir. Estranhamos, o nosso quarto não se chama coberta, mas nos importaríamos, apesar da confusão e do apertadinho espaço, que assim continuasse. Estranhamos, o mar não canta, o vento não enche o destino. Estranhamos, já ninguém se levanta da cama ou não dorme até ao pão com chouriço dar um ar da sua graça às vinte e quatro zero zero, e já ninguém se aninha, com frio, em amena cavaqueira, à porta da cozinha. Estranhamos, porque, a bordo, a maioria das avarias não eram as das máquinas. Estranhamos não ter que assumir o leme às quatro zero zero sem acreditar que conduzimos o caminho e a vida. Estranhamos, os super-cadetes já não vestem a capa de super-heróis, já não há nós de escota prontos a disparar, e as aduchas e os pandeiros já não se fazem para poupar o navio a um cenário de granel. Estranhamos, porque já não nos vemos, família de ursos, ensonados, alegres, risonhos, nostálgicos porque ainda não acabou mas está a chegar o dia de atracar. E afinal, no que se estranha encontra-se o que se entranha, as vidas, os laços dos que um dia descobriram que ao Creoula também se pode chamar casa. Uma casa a que nenhum de nós se importará de voltar. Porque o Creoula é também de quem o vive, é de quem olha a bandeira à popa, respira fundo, e se sabe parte de uma história de marinheiros. Poderemos, então, dizer aos nossos netos, um dia, que o nosso mar não foi só dos piratas bons e maus dos nossos sonhos, o nosso mar foi e é fundamentalmente do nosso Creoula.

17 de Agosto
Pati

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Para saborear o medo e a inocência
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Onde planto flores de sono, que amo e possuo
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Com o sorriso irónico da punhalada traiçoeira (Futuro génio da família… dizem eles) Promoção gratuita na condição de nunca ser eu
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