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Escrevo para apagar o que escrevi
como se pudesse retornar à nascente e começar pela primeira vez
o que nunca disse o que nunca poderia dizer
ou que talvez tenha dito sem o saber
Vou escrevendo como um náufrago da página
nadando na brancura mas sem rumo certo
procurando as palavras ao nível deste solo
Mas para que as palavras respirem
é preciso que o silêncio respire
Quando por felicidade respiram
é como se fosse a respiração da água
E então não deixam rastro porque tudo o que dizem
é a melodia da água que se esvai e continua
sempre pela primeira vez sempre uma única vez
É esta a minha condição fatal
e por isso necessária. Não posso dizer nada
senão a impossibilidade que nela existe
de ser música insignificância maravilha nudez
um elemento imponderável e transparente


António Ramos Rosa, O Deus da Incerta Ignorância, seguido de Incertezas ou Evidências, p. 78 (Pedra Formosa, 2001)

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Máscaras D’Orfeu

Finjo Finjo tanto
Que até a pensar finjo que penso Finjo tanto, que fujo em cavalos de fumo
Num galope de gazela de vento, com olhos de lua
E lágrimas húmidas de mundos tristes
Só para imitar beleza de imagens que nunca tive (momento doce nesta tempestade subterrânea) Agora...
Agora a infância já me fica tão distante
Mas mesmo assim, continuo a vestir o bibe das riscas azuis
Com que me vou enlamear no pântano mais próximo
Para saborear o medo e a inocência
De quem é condenado por julgar estrelas
As pedras humilhadas desta rua que outrora me pertenceu Construo cidades de água e jardins transparentes
Onde planto flores de sono, que amo e possuo
Num acto único de metamorfose selvagem E finjo
E finjo a coragem que não tenho
No retrato mentiroso da moldura onde me exibem
Com o sorriso irónico da punhalada traiçoeira (Futuro génio da família… dizem eles) Promoção gratuita na condição de nunca ser eu
Mas sim, o cadáver ambulante da sua vontade Querem-me vestido de carne à sua semelhança!
Na…