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Uns fecham portadas,
e se encerram na paisagem.

Outros habitam quimeras,
extintos magmas interiores.

Eu vivo apenas fora de mim.

De longe
me chegam palavras
e nenhuma cabe
no oco da minha māo.
Apenas de outros me faço eu.

Espreito a rua
e, através de mim,
nāo vejo senāo gente
que nasce sem sonhos e vive sem vida.

Sou o homem sem janela:
o mundo está sempre do lado de cá.

A meu lado
nāo mora ninguém:
meus vizinhos
habitam todos dentro de mim.

Ao fim da tarde
porém, o céu se curva
para afagar o meu teto.

Em redondo dorso de cāo,
a meus pés se enrosca a solidāo.

É entāo que chegas,
e eu, enfim, regresso
para dentro de minhas paredes.

Só entāo tenho janela.


Mia Couto

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Oh Senhor

Ó Senhor, que difícil é falar quando choramos, quando a alma não tem força, quando não podemos ver a beleza que tu entregas em cada amanhecer.
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Ó Senhor, sim, eu seu preciso da tua mão, do abraço deste amigo que não está. Dá-me luz, à minha alma tão cansada, que num sonho queria acordar.
Ó Senhor, hoje quero entregar-te o meu canto com a música que sinto. Eu queria transmitir através destas palavras. Fico mais perto de ti.
O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo.




Fernando Pessoa