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Saí, Senhor.
Lá fora os homens saíram.
Iam,
Vinham,
Andavam,
Corriam.
As bicicletas corriam,
Os camiões corriam,
A rua corria.
Todo o mundo corria.
Corriam todos, para não perder tempo:
Corriam no encalço do tempo,
            Para recuperar o tempo,
            Para ganhar tempo.

Até logo, (...)
Gostaria de rezar — mas... não tenho tempo.
Compreendes, Senhor, eles não têm tempo.
A criança está a brincar, não tem tempo agora... mais tarde...
O estudante tem os seus deveres a fazer, não tem tempo...
Mais tarde...
(...)
O que casou, há pouco tempo, tem a sua casa, deve organizá-la,
Não tem tempo... mais tarde...
O pai de família tem os seus filhos, não tem tempo... mais tarde...
Os avós têm os seus netos, não têm tempo... mais tarde...
Estão doentes. Precisam de tratar-se... não têm tempo... mais tarde...
Estão à morte, não têm tempo...
Tarde de mais... já não têm tempo.
Assim correm todos os homens atrás do tempo, Senhor.
Passam correndo pela Terra,
            Apressados,
            Atropelados,
            Enlouquecidos,
            Assoberbados.
Nunca chegam, falta-lhes tempo,
Apesar de todos os esforços, falta-lhes tempo.
Falta-lhes mesmo muito tempo.
Com certeza, Senhor, erraste os cálculos.
Há um engano geral:
Horas curtas de mais,
Dias curtos de mais,
Vidas curtas de mais.
Tu que estás fora do tempo, Senhor,
Sorris ao ver-nos desentender com ele,
E sabes o que fazes..
Não te enganas quando distribuis o tempo aos homens,
A cada um dás o tempo de fazer o que queres que faça.
Mas é preciso não perder tempo,
            Não esbanjar tempo,
            Não matar o tempo.
Pois o tempo é um presente que nos dás.
Presente perecível,
Um presente que não se conserva.

Tenho tempo, Senhor,
Tenho todo o meu tempo.
Todo o tempo que me dás,
            Os anos da minha vida, 
            Os dias dos meus anos,
            Os minutos dos meus dias.

São todos meus,
Cabe-me preenchê-los
            Tranquilamente,
            Calmamente,
Mas preenchê-los inteirinhos, até à borda,
Para os dar a Ti
—      Para que da água sem sabor
faças um vinho generoso como outrora, em Caná,
fizeste para as bodas humanas.

Nesta noite eu te peço, Senhor, o tempo de fazer isto e depois aquilo,
Peço-te a graça de fazer, conscienciosamente, no tempo que me dás, o que faço.

Michel Quoist


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