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Talvez porque vivemos numa cultura que nos impele quase sempre à vitória, à posse e à conquista, em que o sucesso é geralmente medido pela quantidade e em que parece que só os heróis (façam o que fizerem, desde que sejam heróis) é que são dignos de admiração, deixámos de dar espaço. Sim, deixámos de ceder terreno.

Mas a que é que deixámos de dar de espaço? A tudo. Simplesmente, não queremos perder nada. De alguma forma, julgamos que a nossa liberdade é algo que devemos preservar a todo o custo, o que é óbvio, mas o problema é que confundimos essa liberdade com a nossa vontade de não sermos condicionados, de sermos independentes, de termos tudo na nossa mão.

Seja na relação que temos uns com os outros ou na relação que temos com Deus, a sensação é de que temos de conquistar alguma coisa. Mas, na verdade, parece-me que se trata muito mais de dar espaço ao Outro, deixar que seja o Outro a conquistar terreno em nós, ainda que isso nos desarrume e nos roube tempo e nos implique e nos comprometa. De outro modo, esquecemos que o amor não é apenas dom mas que é também acolhimento, esquecemos que, em primeiro lugar, fomos e somos acolhidos por Alguém.

Duarte Rosado, sj 
15.06.2012

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