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Chorar para quê?

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Inês Teotónio Pereira 


Num dos seus livros, CS Lewis explica como é indiferente odiarmos ou amarmos o que nos é distante. Odiar Hitler, Estaline e arrepiarmo-nos com as atrocidades que eles cometeram não nos faz melhores pessoas. Não nos faz nada. Por outro lado, idolatrar alguém que não conhecemos também não quer dizer que temos maior ou menor capacidade para amar. Odiarmos ou indignarmo-nos com algo distante é apenas confortável, é uma espécie de festinha à nossa moral tão frágil e à nossa sensibilidade, que vai minguando conforme crescemos. Mas é apenas uma festinha. As nossas vidas estão repletas de ódios vários. Odiamos racistas, odiamos assassinos, odiamos pedófilos, odiamos homens que batem nas mulheres, odiamos terroristas. Odiamos muita gente. Gente que não conhecemos e que apenas nos horroriza. E é por os odiarmos que nos sentimos muitas vezes melhores pessoas; quem mais odeia o mal melhor é, dizemos nós à nossa frágil moral.

A fotografia do menino na praia arrepia. Os nossos filhos com aquela idade dormem naquela posição. O meu, com dois anos, dorme assim. E arrepia porque aquele menino é transportado para as nossas casas, porque imaginamos que podia ser o nosso filho. Porque sentimos aquele menino ao colo. E é nestas alturas que temos a necessidade de odiar. Odiar quem tem culpa por ter provocado aquela tragédia ou por não a ter evitado. E ficamos assim, indignados, e choramos. Não, ninguém sabe como resolver a questão dos refugiados, como resolver o drama da migração, e ninguém sabe o que fazer. E o mais fácil é sempre odiar. É dar a dita festinha à nossa consciência moral. E assim colocarmo-nos do lado dos bons, dos que odeiam.

Mas não, nada disto serve, e é por isso que a nossa indignação não tem fim: o espaço para amarmos está ocupado com a indignação. Quando o Papa fala da nossa incapacidade para chorar os mortos, é disto que fala: choramos imagens, mas pouco fazemos pelas pessoas. Choramos por elas e pela nossa inércia. Em 2013, quando o Papa Francisco foi a Lampedusa, explicou: “Muitos de nós – e neste número me incluo também eu – estamos desorientados, já não estamos atentos ao mundo em que vivemos, não cuidamos nem guardamos aquilo que Deus criou para todos, e já não somos capazes sequer de nos guardar uns com os outros. E, quando esta desorientação atinge as dimensões do mundo, chega --se a tragédias como aquela a que assistimos.” Então, o que fazer para além de chorar?

A tragédia dos milhares que fogem da morte e nos pedem acolhimento põe-nos à prova. Põe à prova o nosso medo, as nossas inseguranças, o nosso conforto. Estaremos nós disponíveis para nos aproximarmos verdadeiramente daqueles por quem choramos, como pede o Papa? Para lhes dar a mão, partilhar o nosso pão, as nossas casas, o nosso bem-estar? Será que o nosso choro é mesmo verdadeiro? São imagens como a do menino da praia que, quando aparecem, nos fazem querer mudar o mundo, mas o mundo não muda com as nossas lágrimas ou com os likes no Facebook; apenas muda com as nossas obras. E é nesta encruzilhada que vivemos: ou nos defendemos e nos fechamos dentro do nosso pequenino mundo à espera que ele mingue e finalmente desapareça, ou temos a capacidade e a coragem de dar um passo rumo ao desconhecido, confiando apenas naquilo que é o correcto: acolher, ajudar, partilhar e amar. A coragem de pensar no outro - no que sofre, e não em nós –, e não perder tempo com ódios abstractos que apenas anestesiam.

A imagem do menino pode ter servido para isso, para querermos começar a escrever a História de outra maneira, através de obras de solidariedade, e pararmos de chorar para nada. Só assim poderemos dar algum sentido à sua morte, assim como à de milhares de outros pais, mães e filhos.

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