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Que fizeste ao teu irmão?

Na semana passada, junto ao quiosque onde costumo comprar os jornais, uma senhora de cabelos brancos, muito Avenida de Roma, comentava a questão dos refugiados. Colocada perante a possibilidade de Portugal vir a assumir um papel de maior relevo no seu acolhimento, e investir na construção de um centro para refugiados no Algarve, a senhora proclamou: "Espero que não seja junto ao sítio onde passo férias. Já por lá há tanta gente que nem consigo ir ao supermercado."

Isto foi dito poucos dias depois de 71 refugiados terem morrido sufocados dentro de um camião frigorífico no meio da Áustria. Aquela senhora é certamente encantadora para os seus netinhos e, quem sabe, para os seus animais domésticos. Infelizmente, quando colocada perante o terrível dilema de ter de escolher entre o aumento das filas do supermercado que frequenta durante 15 dias a cada Verão e o acolhimento de gente desconhecida fugida da guerra, ela opta pela pacatez do supermercado. Árabes, como se sabe, são todos fundamentalistas, e persas, só se forem gatos. É pena os refugiados sírios ou líbios não ladrarem ou miarem em vez de falarem línguas incompreensíveis, porque aí teriam um partido português a defendê-los e uma longa lista de abaixo-assinados prontos a reclamar pelos seus direitos. Se eu fosse refugiado e quisesse chamar a atenção, acho que ladrava em vez de falar, até porque o que não falta nas Avenidas Novas, onde toda esta cena se passou, são clínicas veterinárias impecáveis, algumas das quais abertas 24 horas por dia.

Digam-me: em que momento é que deixámos de nos preocupar? Em que momento é que nos tornámos indiferentes ao sofrimento de centenas de milhares de pessoas, muitas das quais mulheres e crianças que perderam tudo e que buscam salvação na Europa, ao mesmo tempo que pintamos com cores de tragédia planetária a sobretaxa do IRS ou os números do desemprego? Aqueles que morrem asfixiados em camiões ou afogados no Mediterrâneo — eis os verdadeiros pobres. Mas a nossa piedade em relação a eles é ínfima, e é extraordinário que os estrondosos gritos de "parem com a austeridade" se transformem num murmúrio quase inaudível quanto se trata de pedir para salvar as vidas de quem nada tem.

Faço minhas as palavras que Rui Tavares deixou ontem escritasneste espaço: é óbvio que não os podemos aceitar a todos, mas aceitemos ao menos os que pudermos, para termos autoridade moral para exigir que outros países ajam como nós. Nunca conseguiremos resolver o drama dos refugiados, e pobres sempre existirão no mundo, com certeza. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, Oskar Schindler ou Aristides Sousa Mendes também não salvaram todos os judeus — salvaram os que puderam. Salvaram os que conseguiram. Infelizmente, a Europa, neste momento, nem sequer está a tentar. A Europa, farol do mundo, propulsora da "aldeia global", limita-se a erguer muros atrás de muros. Foi nisto que nos tornámos?

Porque se foi, tenhamos ao menos o pudor de parar de gritar impropérios contra a Alemanha imperialista ou de desenhar bigodinhos à Hitler na cara de Angela Merkel. Porque é Merkel, a terrível Merkel, que ainda assim procura fazer alguma coisa pelos refugiados, numa era de renovada xenofobia. Não quero ser ingénuo, nem escamotear os problemas que o acolhimento acarreta. Mas a pergunta "que fizeste ao teu irmão?" é uma das mais belas e mais antigas da nossa cultura. Não deixemos que a indiferença chegue ao nível da fila do supermercado.

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