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Três palavras provocam a febre. Três palavras vos cravam no leito: mudar de vida. Essa é a meta. É clara, simples. O caminho que leva à meta não se vê. A doença é a ausência deste caminho, a incerteza das vias. Não se está perante uma questão, está-se dentro dela. Nós próprios somos a questão. Uma vida nova é o que quereríamos, mas a vontade, fazendo parte da vida antiga, não tem qualquer força. É-se como as crianças que estendem a mão esquerda, tendo nela um berlinde, e não largam a presa enquanto não têm a certeza de receberem uma moeda em troca, na mão direita: desejar-se-ia uma vida nova mas sem perder a velha. Querer-se-ia não conhecer o instante da passagem, a hora da mão vazia.

Christian Bobin
Francisco e o Pequenino

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Máscaras D’Orfeu

Finjo Finjo tanto
Que até a pensar finjo que penso Finjo tanto, que fujo em cavalos de fumo
Num galope de gazela de vento, com olhos de lua
E lágrimas húmidas de mundos tristes
Só para imitar beleza de imagens que nunca tive (momento doce nesta tempestade subterrânea) Agora...
Agora a infância já me fica tão distante
Mas mesmo assim, continuo a vestir o bibe das riscas azuis
Com que me vou enlamear no pântano mais próximo
Para saborear o medo e a inocência
De quem é condenado por julgar estrelas
As pedras humilhadas desta rua que outrora me pertenceu Construo cidades de água e jardins transparentes
Onde planto flores de sono, que amo e possuo
Num acto único de metamorfose selvagem E finjo
E finjo a coragem que não tenho
No retrato mentiroso da moldura onde me exibem
Com o sorriso irónico da punhalada traiçoeira (Futuro génio da família… dizem eles) Promoção gratuita na condição de nunca ser eu
Mas sim, o cadáver ambulante da sua vontade Querem-me vestido de carne à sua semelhança!
Na…