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Quando se está de luto, por norma, pouco ou nada apetece fazer. Eu não gosto de ter comiseração por mim própria, pelo que entendi que devia tentar sair do casulo e fazer algo que me pusesse a "girar". A decisão foi a de ir com amigos ver o Silêncio, filme de que de que me tinham dado muito boas referências. Como costumo fazer a minha escolha pelos realizadores, o deste, Martin Scorcese, era, para mim garantia suficiente.
Pois bem, não aconteceu bem assim. É claro que se trata de um filme importante, com grande qualidade cinematográfica e que se ocupa de um tema - as atrocidades cometidas contra os missionários que foram evangelizar o Japão no século XVI - que interessa aos católicos e a todos os que se preocupam com determinados valores. Mas o conteúdo desiludiu-me um pouco, porque Scorcese parece filiar-se naqueles que só vêm no cristianismo uma rota de dor para alcançar Deus. 
Ora eu ando a pregar, há muito, que o meu Deus é dor e sofrimento, mas é também alegria e prazer. Deus fez-se Homem para nos mostrar isso mesmo. O filme aponta, apenas, para a redenção através da via dolorosa. Não há uma pinta de alegria naquela película e isso é deliberadamente feito através de vários flash back em que a violência é a tónica dominante. Numa palavra, saí do cinema estafada com tanta amargura, tanto tormento, tanto conflito, tanta ansiedade.
É evidente que se trata de uma película que faz pensar. Em nós e nos outros. No papel das religiões na História dos povos. Mas aqui, neste Silêncio, não há uma réstia de esperança, não há a mais pequena chama de ânimo. E, creio, foi isso que o realizador pretendeu dizer-nos.
Eu não sou ninguém. Não tenho quaisquer competências especiais nesta matéria. Também tenho os meus conflitos com a Igreja e não são poucos. Mas esperança foi algo que até hoje nunca me faltou. Por isso é que o filme me incomodou!


Helena Sacadura Cabral

http://hsacaduracabral.blogspot.pt/2017/01/silencio.html

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No retrato mentiroso da moldura onde me exibem
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