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Na grandeza e no drama deste exercício afetivo e efetivo de se ser humano, pressentimos melhor o húmus indispensável daquilo que ousamos chamar vocação divina - a alegre sintonia entre o apelo e a resposta, a benção de uma bendizente e a grandeza de poder corresponder, o apreço reconhecido e disposição a pagar um preço, gerando uma fisionomia humana única. A voz divina, que interpela a decisão humana, tem, nos ritmos e nos lugares que se vive, a graça e o custo da existência, a sua caixa de ressonância mais elementar e o seu palco quotidiano. É aí que poderá ser escutada e correspondida. A relação com a alteridade divina que me atrai e me implica, com tudo o que ela sempre tem de fascinante e tremendo, joga-se no espaço vital da consciência que temos de nós próprios como corpo sensível e relacional, na exposição quotidiana às possibilidades e dramas da liberdade. Por isso, e antes de mais, com o apelo divino, joga-se uma altíssima exposição e competência humanas. Para nos implicar, Deus não implicaria menos do que a totalidade do que somo - corpo, afeto, desejos, inteligência, liberdade, imaginação, vontade - e não nos pediria menos do que começarmos por ser realmente humanos. E já seria tanto, talvez quase tudo, se o fôssemos.

a fé vive de afeto
José Frazão Correia, sj

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Oh Senhor

Ó Senhor, que difícil é falar quando choramos, quando a alma não tem força, quando não podemos ver a beleza que tu entregas em cada amanhecer.
Ó Senhor, dá-me forças para poder encontrar-te e ver-te em cada gesto, em cada coisa desta terra que Tu desenhaste só para mim.
Ó Senhor, sim, eu seu preciso da tua mão, do abraço deste amigo que não está. Dá-me luz, à minha alma tão cansada, que num sonho queria acordar.
Ó Senhor, hoje quero entregar-te o meu canto com a música que sinto. Eu queria transmitir através destas palavras. Fico mais perto de ti.

Máscaras D’Orfeu

Finjo Finjo tanto
Que até a pensar finjo que penso Finjo tanto, que fujo em cavalos de fumo
Num galope de gazela de vento, com olhos de lua
E lágrimas húmidas de mundos tristes
Só para imitar beleza de imagens que nunca tive (momento doce nesta tempestade subterrânea) Agora...
Agora a infância já me fica tão distante
Mas mesmo assim, continuo a vestir o bibe das riscas azuis
Com que me vou enlamear no pântano mais próximo
Para saborear o medo e a inocência
De quem é condenado por julgar estrelas
As pedras humilhadas desta rua que outrora me pertenceu Construo cidades de água e jardins transparentes
Onde planto flores de sono, que amo e possuo
Num acto único de metamorfose selvagem E finjo
E finjo a coragem que não tenho
No retrato mentiroso da moldura onde me exibem
Com o sorriso irónico da punhalada traiçoeira (Futuro génio da família… dizem eles) Promoção gratuita na condição de nunca ser eu
Mas sim, o cadáver ambulante da sua vontade Querem-me vestido de carne à sua semelhança!
Na…
Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.


Eugénio de Andrade