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Musil, que retratou um Estado em estado de alegre inconsciência e de «apocalipse estável» (a «Cacânia» de antes da derrocada), sugere-me uma pedagogia urgente e recomendável: a aprendizagem do sentido de possibilidade, diria mesmo a sua introdução nos currículos escolares, desde o básico, como disciplina obrigatória. Para grandes males, grandes remédios. Imagino que, se isso acontecesse, começaria a grassar a insatisfação, nada seria visto como suficiente, todas as fasquias começariam a subir, instalar-se-ia, por fim, um clima de desobediência civil generalizada (era aqui que eu queria chegar). Todo o Estado e todo o país que se prezem deviam aspirar a este estado de sítio, dinâmico e regenerador (contra algumas teorias, não são as guerras que regeneram, é a desobediência civil). Deviam estimular os seus cidadãos a compreender e aceitar a ideia subjacente ao apelo e ao desafio um dia lançado por outra escritora de língua alemã, Christa Wolf: «Imagina que havia uma guerra e ninguém lá ia!»

João Barrento. O Mundo Está Cheio de Deuses. Assírio & Alvim: 2010.

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Oh Senhor

Ó Senhor, que difícil é falar quando choramos, quando a alma não tem força, quando não podemos ver a beleza que tu entregas em cada amanhecer.
Ó Senhor, dá-me forças para poder encontrar-te e ver-te em cada gesto, em cada coisa desta terra que Tu desenhaste só para mim.
Ó Senhor, sim, eu seu preciso da tua mão, do abraço deste amigo que não está. Dá-me luz, à minha alma tão cansada, que num sonho queria acordar.
Ó Senhor, hoje quero entregar-te o meu canto com a música que sinto. Eu queria transmitir através destas palavras. Fico mais perto de ti.
Já não se espera nada de nós?
Irene Guia, Aci
23 Abril 2018
https://pontosj.pt/opiniao/ja-nao-se-espera-nada-de-nos/

Invade-me uma indignação que até sinto fisicamente quando a falta de verdade, as “falcatruas”, os “esquemas” ilícitos, que vêm à ribalta não encontram a correspondente resposta moral.
A última vez que a senti foi quando mais um caso de “enriquecimento ilícito” de um Curriculum Vitae teve como reação de uma relevante figura pública, com um cargo de grande responsabilidade, o seguinte comentário publicado pelo Expresso a 11 de março de 2018: «é inequívoco que ele fez referência a um aspeto do seu currículo que não era preciso e corrigiu, é esta informação que eu tenho e ele deu essa informação à comunicação social».
A única resposta que eu queria, que eu precisava de ter ouvido, era: é grave se o fez, é talvez ainda mais grave se se o está falsamente a acusar. Que jogadas, que esquemas, que dívidas retribuídas em favores nos impedem de continuar a ser moralmente livres? Um a…