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Teremos do tempo a justa parcela
da nossa compreensão
assim um instante será tão só
a inteireza do nosso habitar
nenhuma velocidade
nenhuma contagem
a suspense de todo o artifício
dos relógios
apenas o acorde da existência
na concha das mãos
levado aos ouvidos
como água

Cultivemos por isso
o vinho
os vivos alimentos
as crianças que dormem de lado
na catapulta pronta
de um novo dia
as casas crescem pelas fissuras
não tapemos nada
deixemos que haja
o vagar com que seca a roupa
e os frutos mais doces
deixemos que venha
a vontade de uma estação
mais subornada
de fraterna moeda

Porque do tempo
teremos apenas essa riqueza
que a asa da morte
não nos leve já
mas que passe todos os dias
para soprar as pálpebras
perigosamente soporíferas
através das quais vemos
ou não vemos
a paisagem clamorosa
dos amados
da contingente respiração
das fotografias
impossivelmente guardadas
para olhos que só poderão
ser estes


Vasco Gato

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Máscaras D’Orfeu

Finjo Finjo tanto
Que até a pensar finjo que penso Finjo tanto, que fujo em cavalos de fumo
Num galope de gazela de vento, com olhos de lua
E lágrimas húmidas de mundos tristes
Só para imitar beleza de imagens que nunca tive (momento doce nesta tempestade subterrânea) Agora...
Agora a infância já me fica tão distante
Mas mesmo assim, continuo a vestir o bibe das riscas azuis
Com que me vou enlamear no pântano mais próximo
Para saborear o medo e a inocência
De quem é condenado por julgar estrelas
As pedras humilhadas desta rua que outrora me pertenceu Construo cidades de água e jardins transparentes
Onde planto flores de sono, que amo e possuo
Num acto único de metamorfose selvagem E finjo
E finjo a coragem que não tenho
No retrato mentiroso da moldura onde me exibem
Com o sorriso irónico da punhalada traiçoeira (Futuro génio da família… dizem eles) Promoção gratuita na condição de nunca ser eu
Mas sim, o cadáver ambulante da sua vontade Querem-me vestido de carne à sua semelhança!
Na…