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Ele disse:
«lava a tua casa retira os móveis todos
aí quero dançar»

assim o Senhor dança nos salões vazios:
semelhante a um turíbulo
espalha o seu perfume

não fechei as portas
abri as janelas: os ladrões evitam
a casa iluminada

fiz tapetes de flores
pus grinaldas na entrada
pois é muito grande a festa de Um só convidado

espero nas traseiras e ceio no umbral
o Senhor ocupa-me
e a casa toda é sua

sirvo na bandeja as mais frescas iguarias
os frutos colhidos
nos dias de canseira

o Senhor dorme no leito e eu estou acordado
o Senhor levanta-se
e eu não posso dormitar

a água sai pura
das suas lavagens
lavo-me na água que o Senhor usou

de manhã o Senhor veste-se
com a roupa que lhe trago
come do que tenho – e assim eu empobreço

visto o meu Senhor e eu o alimento
assim fico sem nada
e Ele me sustém

que eu nunca me atrase à chamada do Senhor
não vá Ele mostrar-me
não precisar de mim

que eu não seja dos que perdem
primaveras e outonos
que não seja contado entre os ignorantes

enquanto o Senhor dança o meu coração exulta:
que Deus este que não para
de se mover por mim!


Carlos Poças Falcão

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Máscaras D’Orfeu

Finjo Finjo tanto
Que até a pensar finjo que penso Finjo tanto, que fujo em cavalos de fumo
Num galope de gazela de vento, com olhos de lua
E lágrimas húmidas de mundos tristes
Só para imitar beleza de imagens que nunca tive (momento doce nesta tempestade subterrânea) Agora...
Agora a infância já me fica tão distante
Mas mesmo assim, continuo a vestir o bibe das riscas azuis
Com que me vou enlamear no pântano mais próximo
Para saborear o medo e a inocência
De quem é condenado por julgar estrelas
As pedras humilhadas desta rua que outrora me pertenceu Construo cidades de água e jardins transparentes
Onde planto flores de sono, que amo e possuo
Num acto único de metamorfose selvagem E finjo
E finjo a coragem que não tenho
No retrato mentiroso da moldura onde me exibem
Com o sorriso irónico da punhalada traiçoeira (Futuro génio da família… dizem eles) Promoção gratuita na condição de nunca ser eu
Mas sim, o cadáver ambulante da sua vontade Querem-me vestido de carne à sua semelhança!
Na…