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"Metade da minha alma é maresia", SMBA



Hoje, acordei a pensar no Meco, numa gruta de desespero onde silenciados pela bruma gritam aqueles que agora vêem os seus meninos regressar pela mão do mar, pela exaustão da ondas. Vêem os seus meninos longe das suas mãos, longe de toda a eternidade que lhes juraram enquanto seus, divinamente seus. Longe de tudo aquilo que é vida, que era a sua vida, a única a que um dia juraram morrer abraçados.

Hoje, não os consigo imaginar em peregrinação para qualquer outra gruta que não seja aquela praia. O mar, tirano mar, que a tantos consola e apruma velas, roubou-lhes o berço onde também eles nasciam. Hoje, não os consigo imaginar sentados à volta de nenhuma mesa que não seja aquele areal, em redor de todas aquelas rochas afastadas, como cadeiras afastadas da mesa para fingir espaço, como quem quer enganar a morte. Não os consigo imaginar beber de qualquer outra recordação que não seja aquela noite trágica, que não permite mais lembranças, que faz doer lembrar. Não consigo imaginá-los hoje junto dos que amam, porque quem mais amam, aquele menino que nunca saiu do seu ventre, preenche agora um vazio no fundo do mar. 

Hoje não consigo mais do que pensar que o mar vomita agora aquilo que nunca foi seu. Rejeita hoje aos poucos, como quem lentamente se arrepende, os sonhos, as vidas, os filhos por vir daqueles que numa noite nunca imaginaram que hoje, véspera de Natal, os seus pais estariam num areal, junto ao barulho ensurdecedor e ladrão do mar, a prolongar toda uma vida que agora vai ser sempre ali. Naquela costa, onde o mar deposita o corpo de um menino que já mais não chora. Naquela costa onde nada se recebe ou aconchega com palhinhas, mas com um altar a um Deus que numa noite de tragédia lhes faltou. É a ironia triste da partida. 

Patrícia Oliveira

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Oh Senhor

Ó Senhor, que difícil é falar quando choramos, quando a alma não tem força, quando não podemos ver a beleza que tu entregas em cada amanhecer. Ó Senhor, dá-me forças para poder encontrar-te e ver-te em cada gesto, em cada coisa desta terra que Tu desenhaste só para mim. Ó Senhor, sim, eu seu preciso da tua mão, do abraço deste amigo que não está. Dá-me luz, à minha alma tão cansada, que num sonho queria acordar. Ó Senhor, hoje quero entregar-te o meu canto com a música que sinto. Eu queria transmitir através destas palavras. Fico mais perto de ti.
Eu falo das casas e dos homens, dos vivos e dos mortos: do que passa e não volta nunca mais... Não me venham dizer que estava matematicamente previsto, ah, não me venham com teorias! Eu vejo a desolação e a fome, as angústias sem nome, os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas. E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, uma insignificante parcela da tragédia. Eu, se visse, não acreditava. Se visse, dava em louco ou profeta, dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, - mas não acreditava! Olho os homens, as casas e os bichos. Olho num pasmo sem limites, e fico sem palavras, na dor de serem homens que fizeram tudo isto: esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, esta lama de sangue e alma, de coisa e ser, e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança, se o ódio sequer servirá para alguma coisa... Deixai-me chorar - e chorai! As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos, de termos sancionado com o nosso silêncio