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Estou confusa e cansada no meio de tanta agitação à volta da notícia do teu nascimento, Menino Deus. Tudo à minha volta me procura informar e quer dar a boa notícia: é Natal. Também eu vivi a expectativa da tua chegada. Preparei tudo o que me pareceu útil e importante. Cansei-me na azáfama para que nada te faltasse.
A notícia do teu nascimento correu veloz; eu já tenho conhecimento, mas ainda não caí de joelhos, em silêncio, simplesmente saboreando a Tua presença. 
De dia e de noite uma estrela guia os meus passos e parece falar; pede-me que me meta a caminho, sozinha, sem medo de andar pelas planícies ou pelos cumes dos montes; diz-me que não me faltará luz no caminho para ajudar os meus passos vacilantes; diz-me que Deus ama tanto as criaturas que não resiste ao desejo de assumir a condição humana. Recém-nascido – parece dizer-me a estrela – Ele não sabe falar, não sabe andar, não sabe comer, não sabe proteger-se do frio; precisa de mim para sobreviver; precisa dos meus cuidados para crescer e se tornar grande no mundo.
Obrigada, estrela, por me apontares o caminho do Natal; anseio pelo momento em que as palavras se calem para se ouvir o sussurro do silêncio que envolve a paz e que anuncia um estilo transcendente de habitar o mundo.
Isabel Varanda

http://rr.sapo.pt/rubricas_detalhe.aspx?fid=70&did=89602

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Oh Senhor

Ó Senhor, que difícil é falar quando choramos, quando a alma não tem força, quando não podemos ver a beleza que tu entregas em cada amanhecer.
Ó Senhor, dá-me forças para poder encontrar-te e ver-te em cada gesto, em cada coisa desta terra que Tu desenhaste só para mim.
Ó Senhor, sim, eu seu preciso da tua mão, do abraço deste amigo que não está. Dá-me luz, à minha alma tão cansada, que num sonho queria acordar.
Ó Senhor, hoje quero entregar-te o meu canto com a música que sinto. Eu queria transmitir através destas palavras. Fico mais perto de ti.

Máscaras D’Orfeu

Finjo Finjo tanto
Que até a pensar finjo que penso Finjo tanto, que fujo em cavalos de fumo
Num galope de gazela de vento, com olhos de lua
E lágrimas húmidas de mundos tristes
Só para imitar beleza de imagens que nunca tive (momento doce nesta tempestade subterrânea) Agora...
Agora a infância já me fica tão distante
Mas mesmo assim, continuo a vestir o bibe das riscas azuis
Com que me vou enlamear no pântano mais próximo
Para saborear o medo e a inocência
De quem é condenado por julgar estrelas
As pedras humilhadas desta rua que outrora me pertenceu Construo cidades de água e jardins transparentes
Onde planto flores de sono, que amo e possuo
Num acto único de metamorfose selvagem E finjo
E finjo a coragem que não tenho
No retrato mentiroso da moldura onde me exibem
Com o sorriso irónico da punhalada traiçoeira (Futuro génio da família… dizem eles) Promoção gratuita na condição de nunca ser eu
Mas sim, o cadáver ambulante da sua vontade Querem-me vestido de carne à sua semelhança!
Na…
Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.


Eugénio de Andrade